Quando o medo veste de azul (artigo de José Antunes de Sousa, 74)

Espaço Universidade 25-03-2017 18:22
Por José Antunes de Sousa
Ontem, 24 de Março, dei uma palestra na Faculdade de Educação Física da Universidade de Brasília, algo que faço com relativa frequência e no âmbito da minha qualidade de Professor Visitante, desta vez subordinada ao tema, imagine-se, “o lúdico e autocura”.

Costumo ser, por princípio e por feitio, bastante relapso a publicitar aspectos e factos de minha actividade académica, mas, neste caso, acho oportuno e até educativo fazê-lo. Não que me mova a vã presunção de algo poder ensinar a alguém – porque, segundo um velho ditado chinês, “nada do que pode ser aprendido vale a pena ser ensinado”. Mas porque quer o tema quer o episódio a ele associado merecem umas breves considerações.

Primeiro o tema: algo de novo e interpelante está germinando no território pétreo e rígido da tão propalada educação do físico, como se as pedras também fossem dóceis à pretensão alegadamente transformista, que não transformadora, dos pensamentos humanos – pensamentos sempre envoltos no invólucro deslizante da emoção. Algo de imprevisto e desafiante fervilha por entre a caldeirada sincrética de um erudicionismo postiço: o novo espreita, como o pinto, após a rotura do clima placentário e cómodo do ovo materialista – é todo um novo paradigma que espreita!

A prová-lo aí está o tema da minha palestra que, apesar das insuficiências do orador, concitou a extática atenção de alunos e convidados – e só se presta atenção àquilo que nos suscita interesse (inter+esse: estar dentro/intus). Mas não apenas pelo carácter interpelativo de que se reveste a mera enunciação do tema, mas por este me ter sido proposto, de forma absolutamente espontânea, pelo professor da disciplina que trata das metodologias do jogo. Ou seja, ele intuiu que o jogo, na sua natural capacidade recentrante de promover a presença (e a presença é a única instância capaz de dissolver os resíduos inconscientes do passado), o jogo, dizia, tem a potencialidade de propiciar um natural acesso a um modificado estado de consciência, aí onde germina o processamento inconsciente da criatividade – espaço onde o “milagre” da cura acontece, cura que se dá sempre a partir de um ajuste psicoemocional no íntimo do próprio indivíduo. Como o atesta o edificante e quase despótico engodo das crianças na brincadeira.

Como a provar esse vento da novidade está o facto de ter sido eu solicitado por um importante protagonista do desporto nacional para um depoimento sobre “Desporto e Espiritualidade”, destinado a ser incluído num livro que está a ser organizado sobre tão inovador tema – tão procativamente novo que raia a incredulidade, tamanha é a ousadia. Mas o simples facto de haver quem tenha ousado significa que, lá no íntimo de si, no seu “equilíbrio interior”, isso já se lhe fez plausível e pertinente:” não Te procuraria se não Te tivesse encontrado já” (Pascal).

E vamos, então, ao episódio, apesar do muito que haveria a dizer sobre os benefícios para a saúde e para uma desejável longevidade de uma abordagem lúdica e desdramatizada da vida – como o sugere o grácil exemplo da criança seriamente empenhada em jogar-se por inteiro no jogo que joga. Sim, porque a nossa vida não está refém do despotismo determinístico dos genes: há muito mais vida para além da que parece conter um tubo de ensaio.

Mas vamos mesmo à pequena história que me comoveu: já a palestra se aproximava do seu termo, quando finalmente reparei – tinha olhado várias vezes mas não tinha visto por não ter reparado – naquele jovem sentado numa das filas da frente, certamente para que fosse notado, exibindo garbosamente uma camisola (camisa) do Futebol Clube do Porto. Claro que o meu espanto foi toldado pelo desapontamento pelo facto de não ser outra a cor, pois sou mais apreciador do voo altivo da águia do que do caminhar rastejante do dragão, mas foi genuíno o meu contentamento e notória a emoção, por ver alguém de tão longe exibindo com orgulho a camisola de um grande clube do meu país: a distância dissolve os antagonismos.

A origem da camisola: a mãe numa recente viagem – todo o brasileiro transporta o sonho de visitar Portugal – achou que a melhor lembrança que poderia levar para o filho era a camisola do FCP: comovente sem dúvida – e quis mostrar o seu troféu ao professor português. E, tomado ainda desta emoção, dei comigo a lamentar o clima de guerrilha instalado no seio do futebol luso – não havia necessidade. E surgiu-me a memória da minha experiência no Benfica e como me tive que empenhar para tentar exorcizar medos e fantasmas que sopravam sobretudo do norte: o medo vestia e azul. Mas parece que o pérfido poder da memória persiste – e, com ele, o medo regressou.

Tomemos o exemplo flagrante do basquetebol: enquanto o FCP, travestido de ‘Dragon Force” deambulou furtivo e silencioso pelos escalões inferiores, o Benfica fazia o óbvio: ganhava tudo. Com o regresso ao primeiro escalão da poderosa equipa do FCP, eis que entrou numa estranha e comprometedora tremedeira – dá dó. A mesma equipa que tem à sua frente uma excelente pessoa, um competente treinador, ele que foi o mais extraordinário jogador português de todos os tempos e que inclusive roubara a hegemonia ao FCP em pleno Dragão Caixa. O que torna este medo mais estranho ainda. A equipa provavelmente negaria a pés juntos um tal sentimento . Pois é, mas as nossas escolhas acontecem aos diferentes níveis de consciência – e no inconsciente baila, seguramente, ainda a ameaça desse fantasma.

Como parece estar a acontecer com o futebol: com o aproximar do decisivo clássico, ironicamente agendado para o dia das mentiras, multiplicam-se os sinais de medo, sobretudo por parte dos responsáveis do clube da Luz: comunicados, lamentações, pedidos de audiência, birras – tudo indícios de tremura e pânico: e o medo, meus amigos, é o mais lesto demiurgo da desgraça! O clima é de medo e intimidação – e quem intimida, sejamos francos, é porque está lívido de medo. Sim, eventuais actos intimidatórios por parte do clube nortenho são, em si mesmos, prenúncio de insucesso – porque também eles ditados pelo medo. Com tanto medo de parte a parte, o mais provável é que ambos os contendores se vejam tolhidos em seus movimentos – o mais certo é que empatem!

PS: O professor brasileiro, ao apresentar-me disse que era uma honra “receber alguém vindo da AMADA TERRA-MÃE”: simultaneamente comovente e instrutivo – para a mãe a quem se reclama que trate com desvelo os seus filhos e aos responsáveis políticos, porque esta expressão contem férteis motivos de reflexão para o 10 de Junho que, curiosamente, este ano se festejará no Porto e no Brasil. Nem mais.

José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
Ler Mais
21:48  -  07-03-2017
Admirável mundo da bola! (artigo de José Antunes de Sousa, 73)
15:29  -  07-02-2017
Os ardis da crença (artigo de José Antunes de Sousa, 71)
20:19  -  17-01-2017
A aporia do inferno (artigo de José Antunes de Sousa, 70)
16:34  -  03-01-2017
Ninguém me (L)iga! (artigo de José Antunes de Sousa, 69)
12:42  -  17-12-2016
A síndrome do cometa (artigo de José Antunes de Sousa, 68)
00:38  -  04-12-2016
In articulo mortis (artigo de José Antunes de Sousa, 67)
11:21  -  24-11-2016
O terceiro anel (artigo de José Antunes de Sousa, 66)
16:26  -  14-11-2016
Mais uma estrela cadente? (artigo de José Antunes de Sousa, 65)
16:22  -  02-11-2016
Afectuoso capitão (artigo de José Antunes de Sousa, 64)
12:04  -  25-10-2016
O profeta (artigo de José Antunes de Sousa, 63)
16:30  -  08-10-2016
A alquimia dos corpos (artigo de José Antunes de Sousa, 62)
17:02  -  28-09-2016
O artista (artigo de José Antunes de Sousa, 61)
09:26  -  06-09-2016
«Os putos» (artigo de José Antunes de Sousa, 60)
16:39  -  25-08-2016
O Rafa e a rifa (artigo de José Antunes de Sousa, 59)
14:24  -  31-07-2016
Prognósticos: uma certa (meta)física (artigo de José Antunes de Sousa, 57)
16:47  -  17-07-2016
O milagre português (artigo de José Antunes de Sousa, 56)
14:55  -  05-07-2016
Reino (Re)Unido (artigo de José Antunes de Sousa, 55)
20:54  -  28-06-2016
Chilenos: uma lição de fé! (artigo de José Antunes de Sousa, 54)
15:40  -  25-06-2016
A demasia (artigo de José Antunes de Sousa, 53)
16:42  -  19-06-2016
A canela do Elias (artigo de José Antunes de Sousa, 52)
16:46  -  13-06-2016
Redondo (des)acordo (artigo de José Antunes de Sousa, 51)
10:23  -  04-06-2016
A síndrome do dragão (artigo de José Antunes de Sousa, 50)
00:49  -  20-05-2016
A trindade do costume (artigo de José Antunes de Sousa, 48)
19:08  -  13-05-2016
Sinal da Cruz (artigo de José Antunes de Sousa, 47)
08:44  -  13-05-2016
Sinal da Cruz (artigo de José Antunes de Sousa, 46)
20:38  -  05-05-2016
Atlético de Madrid: assalto ao Olimpo (artigo de José Antunes de Sousa, 45)
15:46  -  29-04-2016
As dores do fim (artigo de José Antunes de Sousa, 44)
00:00  -  23-04-2016
“Quem não arrisca não petisca” (artigo de José Antunes de Sousa, 43)
10:11  -  09-04-2016
Filhos e enteados (artigo de José Antunes de Sousa, 41)
16:55  -  31-03-2016
Homenagem póstuma a Cruyff (artigo de José Antunes de Sousa, 40)
16:47  -  24-03-2016
Benfica: morte ou glória? (artigo de José Antunes de Sousa, 39)
09:44  -  12-03-2016
Formação: em série ou a sério? (artigo de José Antunes de Sousa, 37)
16:59  -  05-03-2016
A coroação do infante (artigo de José Antunes de Sousa, 36)
00:33  -  28-02-2016
Diego Simeone: o grande motivador (artigo de José Antunes de Sousa, 35)
21:07  -  21-02-2016
Clube: o lar do povo (artigo de José Antunes de Sousa, 34)
23:23  -  14-02-2016
A «matança do borrego» (artigo de José Antunes de Sousa, 33)
16:57  -  08-02-2016
Injustiça e solidão (artigo de José Antunes de Sousa, 32)
16:55  -  01-02-2016
Profetas da desgraça (artigo de José Antunes de Sousa, 31)
16:27  -  25-01-2016
«Olhos de lince» - (artigo de José Antunes de Sousa, 30)
15:33  -  19-01-2016
Os mochileiros (artigo de José Antunes de Sousa, 29)
10:32  -  07-01-2016
O Palhaço de Viena (artigo de José Antunes de Sousa, 28)
20:56  -  28-12-2015
Não há circo! (artigo de José Antunes de Sousa, 27)
22:07  -  23-12-2015
O Novo Trindade (artigo de José Antunes de Sousa, 26)
12:18  -  17-12-2015
A bola: uma boa metáfora humana (artigo de José Antunes de Sousa, 25)
16:42  -  10-12-2015
Uns certos rapazes (artigo de José Antunes de Sousa, 24)
14:42  -  26-11-2015
O moderno Olimpo (artigo de José Antunes de Sousa, 22)
12:40  -  19-11-2015
As sementes da ira (artigo de José Antunes de Sousa, 21)
19:56  -  12-11-2015
A roda do azar (artigo de José Antunes de Sousa, 20)
16:20  -  06-11-2015
Líder: arquitecto de simetrias (artigo de José Antunes de Sousa, 19)
15:56  -  31-10-2015
A Caixa de Pandora (artigo de José Antunes de Sousa, 18)
09:48  -  25-10-2015
Artista ou robô? (artigo de José Antunes de Sousa, 17)
22:52  -  16-10-2015
Mourinho e o fel da derrota (artigo de José Antunes de Sousa, 16)
20:32  -  08-10-2015
Um novo Tordesilhas (artigo de José Antunes de Sousa, 15)
18:50  -  02-10-2015
Festa no Castelão (artigo de José Antunes de Sousa, 14)
16:30  -  25-09-2015
Este futebol foi para o Maneta! (artigo de José Antunes de Sousa, 13)
21:41  -  12-09-2015
Futebol: jogo duplo (artigo de José Antunes de Sousa, 11)
14:55  -  03-09-2015
Um caso de transgressão e paixão: o futebol! (artigo de José Antunes de Sousa, 10)
17:23  -  28-08-2015
Chá e biscoitos (artigo de José Antunes de Sousa, 9)
16:53  -  21-08-2015
Já não tenho idade para essas coisas (artigo de José Antunes de Sousa, 8)
17:49  -  14-08-2015
O caso alemão (artigo de José Antunes de Sousa, 7)
20:26  -  07-08-2015
Meu Pai é genial! (artigo de José Antunes de Sousa, 6)
16:22  -  31-07-2015
Brasil: os Vampiros atacam ao amanhecer (artigo de José Antunes de Sousa, 5)
16:41  -  23-07-2015
Milagre na praia (artigo de José Antunes de Sousa, 4)
17:16  -  17-07-2015
O avião do Casillas (artigo de José Antunes de Sousa, 3)
16:56  -  10-07-2015
Chile: uma simples vitória desportiva ou o resgate da memória? (artigo de José Antunes de Sousa, 2)
Comentários (0)

Últimas Notícias

ATENÇÃO: Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização. Saiba mais