Admirável mundo da bola! (artigo de José Antunes de Sousa, 73)

Espaço Universidade 07-03-2017 21:48
Por José Antunes de Sousa
Se nos ativermos ao clima distópico que caracteriza o mundo do futebol, um clima oposto ao halo utópico de um certo mundo ideal, do sonho, facilmente verificaremos que, nele, parecendo muitas coisas mirabolantes acontecer, a verdade é que nada de verdadeiramente novo acontece – ele é o admirável mundo velho, da replicação compulsiva, condicionada, de comportamentos alastrados e difundidos pela via mimética de uma espécie de buraco-negro fusional.

A esse clima caracteriza-o um certo pathos da bola, um misto de paixão e sofrimento, de alucinação e prostração – ele é o território do excesso, da paixão, da hubris e os seus habitantes – tanta gente! -, em delírio e em estado febril de alucinação, não parecem bater bem da bola, isto é, não parecem ter as contas em dia com a sensatez e com o sentido da medida: são seres excessivos e, nessa medida, alegremente irrelevantes. Os estádios ocupam o espaço metafórico da unificação mental e emocional de multidões debruçadas intermitentemente sobre o tapete verde da refrega e o telemóvel que, de apêndice curioso, se está convertendo na cópia rígida de massas uniformes e uniformizadas e que, nessa media, cada vez mais parece ameaçar encher o estádio da Luz ou do Barnabéu de gente ausente e alheada. Ou seja: estádios a abarrotar de cada vez mais gente que bate mal da bola, apesar de ser por causa da bola que ali creem estar.

Os estádios são, neste mundo admirável, locais de culto onde se veneram os novos deuses de segunda (porque sucedâneos de uma divindade banida) e, já agora onde se vilipendiam os deuses caídos em desgraça – e basta um minuto para tão paradoxal queda – mas sobretudo onde, aos gritos e com jaculatórias capazes de ruborizar o mafarrico, se trafica e negocia com um céu à maneira as condições da vitória. Os clubes rivalizam entre si e os seus apaniguados extremam a mútua aversão, clubes convertidos em Ágora, ou praça pública onde se procede à destilação dos humores de multidões e massas em catártico fluxo – e refluxo. Eles não vão à bola um com o outro: não se gramam nem à lei da bala! O clube, mais um mito, daqueles “que apelam para a voz escrava do homem”. Como os mitos das ideologias, ou da morte delas (F. Fukuyama), “toda a corte de deuses modernos, desde o chefe, a causa, até às formas mais degradadas de divinização – como um clube” (Vergílio Ferreira, MO, 147).

Parecenças com o clima do famoso romance distópico de Aldous Huxley não faltam: Massas biologicamente precondicionadas e, no plano psicológico, controladas por infalíveis técnicas de condicionamento, se irmanam alarvemente em tiques de uma desumanizante uniformidade comportamental. E eis como o conspícuo paroquiano de Santa Maria Maior, de comunhão diária, cai nos braços de um vizinho, bem aviado pelos favores de Baco, ambos mimoseando, com igual fervor, o homem do apito com os mais indecorosos insultos. Talvez aqui a mais notória diferença em relação ao mundo de Huxley: não um sistema de castas, mas uma sociedade, indiferenciada, rasa, sem o acicate das classes: “o futebol é a única sociedade sem classes conhecida” - proclamou Vergílio Ferreira que confessa na sua Conta Corrente, ouvir aos domingos à tarde os relatos da Académica.

Mas na indiferencialidade não medra a vida mas o tédio da morte: ela é o clima favorável do regresso à barbárie. Não será por acaso que a via popular deu vida à frase” não vou à bola com aquele tipo”, querendo com isto dizer que não tenho por ele a mínima simpatia. Caso contrário iria com ele à bola. Ou seja, a bola como espaço de uma concórdia básica e emotiva – a que resulta do facto de se ser do mesmo clube. Porque a indiferencialidade gera a ambivalência: tão depressa o caloroso abraço no correlegionário como o soco no adversário. A inconsciência é o combustível de todos os excessos.

Num estádio de futebol à pinha eis o que acontece: uma gestalt fenomenológica, colectiva, das mentes individuais – a unidade mental dos egos. Multidão massificada e a que o d(en)ominador comum, o telemóvel, dá um colorido especial de procissão das velas – a caminho de um destino inelutavelmente comum. Esta uniformidade emocional das massas é o terreno propício ao exercício manipulatório de predadores – sejam eles untados do crude ou donos de casino (Trump tem um, não é?). Ela é analgésico que lhes permite usar o bisturi a seu bel prazer – e com um soporífero mais: os obscenos salários das principais estrelas. Tudo a condizer: o povo babando-se de um prazer inútil e meia-dúzia locupletando-se.

Enfim, tenho que fazer uma rectificação: Afinal, no admirável mundo da bola também há castas ! Enquanto isso o povão grita “golo!”

José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
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