José Mourinho: espetáculo com eficácia (artigo de Manuel Sérgio, 185)

Ética no Desporto 05-03-2017 17:22
Por Manuel Sérgio
Com os meus quase 84 anos de vida, posso dizer sem receio que ando no futebol, há muitos anos. Só como simples teórico – é verdade. Mas um teórico tão próximo da prática, tão vizinho de jogadores e treinadores, que tenho por vezes a sensação que pratiquei futebol. Por outro lado, também sei que muitos dos jogadores e treinadores, que eu conheci, com alguma (ou muita) proximidade, não ultrapassam um localismo incipiente.

Distingo alguns destes jogadores mais famosos: o Mariano Amaro, o Peyroteo, o Matateu, o Jesus Correia, o Vicente, o José Pereira, o José Augusto, o António Simões, o Fernando Peres, o Humberto Coelho, o Minervino Pietra e, como treinadores, o Fernando Vaz, o José Maria Pedroto, o Artur Jorge, o Mário Wilson, o Jorge Jesus, o Henrique Calisto, o José Couceiro e um número interessante de meus antigos alunos, no INEF, no ISEF e na FMH… como o Dr. José Mourinho, atual treinador do Manchester United. Trata-se de uma personalidade excecionalmente dotada, possuidor de um vasto campo de características, que fazem dele um dos nomes maiores da História do Futebol. Normalmente, os tipos humanos, de uma elevada ordem intelectual, são a síntese de múltiplas forças, qual delas a mais representativa, mas equilibradas harmonicamente num todo homogéneo, unitário e de invulgar clarividência e criatividade. Não se trata, portanto, de uma personalidade fácil de abordar. É interesse da publicidade não deter-se, senão temporária e superficialmente, sobre o que mais lhe convém, ou melhor: sobre o que mais convém ao mercado. Ora, o que melhor define o José Mourinho é o seu humanismo. Ele pode dizer, como os sábios da Renascença: “Sou homem, nada do que é humano me é alheio”. Estou a ouvir a reação de alguns leitores, com um sorriso meio escarninho, meio descrente: “Humanista o Mourinho?”. Para mim é e digo porquê.

Em números redondos, há quarenta anos, após algum estudo planeado e cumulativo, venho eu dizendo que “só sabe de futebol quem sabe mais do que futebol”. Defendo, para o desporto (e para a vida, pois que o desporto é vida e nada mais do que vida) um paradigma, a motricidade humana, simultaneamente semântico, lógico e ideológico.

Semanticamente, a “motricidade humana” determina a área do saber onde quero situar-me: o humano, na sua integralidade, na sua complexidade. E repito ainda palavras minhas: não há fintas, há homens ou mulheres que fintam; não há remates, há homens ou mulheres que rematam; não há defesas, há homens ou mulheres que defendem – se eu não conhecer os homens ou as mulheres que fintam e rematam e defendem, não entenderei nunca, nem as fintas, nem os remates, nem as defesas. Logicamente, a “motricidade humana” sustenta que nos encontramos, no estudo e liderança do Desporto, no âmbito das ciências hermenêutico-humanas; ideologicamente, porque nos encontramos no âmbito do integralmente humano, a Ciência da Motricidade Humana não é neutra, diante de tudo onde esteja em causa a libertação e a emancipação do ser humano.

Sou, portanto, a favor da interdisciplinaridade, em todas as situações, entre a ciência e a filosofia, entre as ciências humanas e as demais ciências, entre o mundo dos factos e o mundo dos valores, entre a cultura humanista e a cultura científica. A grande mudança a fazer no Desporto é uma revolução paradigmática que supõe a passagem do paradigma biomédico à multidimensionalidade do humano, no movimento intencional da transcendência – um paradigma que, reconheço, não se encontra ainda enraizado na cultura ambiente. No desporto, portanto, como no mais, anatomofisiologia, psicologia, física, biologia, antropologia, sociologia, política, economia, gestão, liderança, técnica, tática, etc., etc. – tudo se encontra indissoluvelmente ligado.

E se, no ser humano, no praticante desportivo, tudo se encontra indissoluvelmente ligado, a metodologia a utilizar, no treino desportivo, é a que decorre do pensamento complexo. No ser humano, tudo está em tudo – na vida e… na competição e no treino desportivos! Comecei a dizer isto, perante a esperada resistência (e colhiam com isso os loiros da popularidade) dos que ainda defendiam, em finais da década de 70 e princípios da década de 80, o “erro de Descartes”. Se buscarmos alguns valores, no mundo multidimensional do desporto, mormente no desporto de alto rendimento, lá encontraremos os valores seguintes: espírito lúdico, espírito competitivo, vontade, coragem, esforço, perseverança, disciplina, alegria, solidariedade, alegria, respeito pelos adversários e por nós próprios, etc.

O espírito competitivo é, certamente, o valor mais evidente da prática desportiva. O “homem desportivo” é um “ser agonístico”, pois que compete com o adversário e consigo mesmo. Será interessante relembrarmos que o vocábulo “competição” procede de duas palavras latinas cum petire, traduzindo: “buscar juntos”, “lutar juntos”. Portanto, no desporto, ninguém joga contra ninguém, mas com todos! O adversário é o amigo que me permite a prática desportiva. Sem ele, só poderia jogar comigo mesmo. Uma competição desportiva deverá transformar-se (e sempre!) numa oportunidade magnífica de consciencializar os meus limites e de tentar transcendê-los, sem nunca perder o respeito pelos meus adversários, nem por mim mesmo, não me deixando nunca instrumentalizar pelas grandes taras do capitalismo dominante. O desporto é o fenómeno cultural de maior magia, num mundo altamente competitivo, individualista e onde só a vitória interessa. No entanto, a competição desportiva integra-se no estatuto humanista do desporto. Quero eu dizer: é encontro fraterno entre dois amigos e não belicismo entre dois inimigos.

Tudo isto, que venho de escrever, o José Mourinho sabe – sabe e pratica! Por isso, se entendem as suas palavras, na conferência de imprensa, anterior à 27ª jornada da Premier League: “Julgo que, no United, já percecionaram que não sou o monstro que alguns media diziam que eu era. Não sou tão má pessoa, tão arrogante, nem tão difícil no trato. As pessoas sentem-se bem comigo. A relação com os jogadores é exemplar, como exemplar é a relação com a administração. Não se trata de uma relação apenas profissional, mas uma relação de confiança, que vai muito além da simples relação contratual, com os jogadores, com o proprietário, com a direção. Sinto que todos se encontram felizes ao meu lado”. E rematou: “Só que o meu contrato é de três anos, não é de sete ou oito meses. Quero evolução, exijo melhoramento”.

No meu entender, se o jogo é biologia tão-só, o desporto é biologia com ética e transcendência. E a transcendência pede objetivos. No desporto (como na vida) a tragédia não é não alcançar, por este ou por aquele motivo, os objetivos em que acreditamos, a tragédia está em não ter objetivos. Mas o desportista com objetivos deve também saber converter as dificuldades em possibilidades, pela transcendência física, intelectual e moral, quero eu dizer: pela ética, de facto, mas também pelo esforço físico, pela inteligência tática, pela perseverança, pela eficácia. O futebol não é circo, não lhe bastam juízos estéticos. No futebol, perfila-se a necessidade da vitória e, portanto, não se joga bem quando no nosso jogo não se vislumbra o mínimo de eficácia. Para um atleta, ou um jogador de futebol, o seu maior adversário é ele mesmo. A falta de eficácia representa, quase sempre, ausência de confiança. Diz o psicólogo inglês Dan Abrahams: “Para ganhar, é preciso ter confiança. Para ter confiança, é preciso pensar que somos vencedores. Tudo começa no pensamento”. E o pensamento treina-se, como se treina o físico e o fisiológico. E julgo que é principalmente ao nível do pensamento que o José Mourinho forma jogadores de excelência e é, para mim, um dos grandes treinadores da História do Futebol… como o seu extraordinário currículo o atesta!

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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