Football Talks e o equilíbrio da Pirâmide (artigo de Aníbal Styliano, 13)

Espaço Universidade 28-02-2017 00:04
Por Aníbal Styliano
Nos próximos dias 22 a 24 de Março próximo, no Centro de Congressos do Estoril, vai decorrer a versão 2017 do momento de reflexão sobre o futebol mundial.

Em primeiro lugar é de felicitar Portugal, a FPF e os portugueses, pelo facto de acolhermos esse prestigiado evento.
Certamente, o conjunto de oradores será competente, sabedor e excelente na forma de comunicar.
A importância do conteúdo, naturalmente, terá repercussões futuras.
Nem de outra forma podemos conceber tal momento.
Assim, como quando um selecionador nacional de futebol escolhe os seus eleitos (todos gostaríamos de uma ou outra opção diferente, mas é ele que tem a palavra decisiva) também neste caso a decisão está tomada (bem tomada) ainda que gostássemos de ver abordados um ou dois temas muito oportunos, não contemplados.
Mas quem decide tem a legitimidade da escolha e por isso, está bem decidido.

Antes de mais, esperamos que após a realização das comunicações, os seus efeitos se possam fazer sentir num avanço global, mas também num desenvolvimento na forma de intervir no futebol, inclusive pelos membros dirigentes das estruturas de topo nacional e do próprio governo.
Conhecemos a capacidade de receber do nosso país, a qualidade de organizar que sempre nos caracterizou como exemplo ao longo dos tempos e, desse modo, confiamos que Portugal consiga escrever mais uma página brilhante e alcançar o reconhecimento que nos orgulhe.
De facto, o nosso país, quer pelos títulos a nível de seleções e de clubes, quer pelos triunfos dos nossos treinadores e jogadores por todo o mundo é, sem sombra de dúvida, um exemplo de talento e de capacidade para fomentar e aperfeiçoar genialidades.
Basta atentarmos na nossa demografia, na nossa localização mas também na nossa excelência de adaptação e de trabalho para, sem falsas humildades, nos sentirmos como bom exemplo para o planeta.
Sem complexos, sem sentimentos de hiperidentidade, mas com a razão do conhecimento e das obras realizadas, sem obsessões nem cedências perante injustiças, venham de onde vierem, mas com a coragem de quem sabe sofrer para alcançar o que acredita ser possível, sem desistências, temos nova oportunidade para “dar novos mundos ao mundo”, para revelar segredos de como temos do melhor futebol que este mundo conhece.

A escolha de Portugal foi acertada.

O futebol mundial e as principais instituições continentais e mesmo a FIFA vivem momentos atribulados, com uma imagem pejorativa e muito ligada a processos e acontecimentos trágicos e lamentáveis.
FIFA ainda há pouco tempo era sinal de corrupção e não só.
Os erros corrigem-se com coragem, com transparência, com competência e com coerência.
Que este evento seja um passo decisivo numa mudança alicerçada para um futuro de desenvolvimento.
Naturalmente, nos processos deste género, podem sempre surgir dificuldades contudo, quando a liderança e o rumo são adequados, o sucesso fica mais próximo.
Assim como o título europeu conquistado em França pela nossa Seleção se ficou a dever a uma “equipa”, gostava de recordar que os títulos nunca se ficam a dever unicamente a alguns mas sempre a uma partilha generalizada.
Antes de fazer alguns comentários, permitam que sugira que todas as comunicações deverão ser, após traduzidas para português, colocadas à disposição dos portugueses e dos países que utilizam a nossa língua como pátria comum.
Para isso, basta disponibilizar os textos integrais das comunicações (por via informática ou por meio de encarte num jornal nacional) para um debate que se quer bem alargado.
Se todo o país não tiver esse acesso garantido, então será cometido um grave erro de perspetiva e de visão.
Confiamos que saberão contemplar esta sugestão tão simples quanto imprescindível.
Sobre o que poderá acontecer, também só “faço prognósticos no fim do jogo”.

Da FIFA gostaríamos que se fundamentassem, de forma indiscutível, alguns pontos:
- O Mundial do Catar, as eventuais decisões do TAS e suas implicações, bem como as previsíveis e enormíssimas verbas para indemnizar clubes e jogadores assim como a paragem de campeonatos europeus.
Mudar toda uma filosofia e prática por razões que não se prendem com promoção do jogo mas com outros desígnios, pode acrescentar problemas de dimensão insustentável e fraturantes.
Caso se mantenha opção Catar, os valores de indemnização serão brutais e um desperdício imenso de verbas, desnecessariamente.

- Mundial com 48 clubes (muitos mais do que até agora) e para maior poupança (preocupação que nem se coloca na questão Catar) em simultâneo em 4 países, preferencialmente vizinhos, tem fundamentação adequada ou ainda são vestígios de decisões por impulso? Não conseguimos vislumbrar benefícios em termos competitivos.

- Contratar Maradona (um dos melhores futebolistas de sempre em campo) para ajudar a valorizar a imagem da FIFA, estará também com fundamentação adequada?

- Marco van Basten e as “curiosidades” que gostava de ver aplicadas no futebol, com destaque para o fim do “fora-de-jogo” são fruto de uma escolha sua como “Diretor Técnico ou de Desenvolvimento”?
A sua escolha foi realizada com critérios definidos para essa função ou por outros critérios como reconhecimento, pela memória da sua enorme qualidade como jogador, embora como dirigente se desconheçam os talentos, por mais fantásticas cabeçadas que tenha dado numa bola?

Mais questões se poderiam elencar, como as que se reportam à formação de treinadores (que esperamos brevemente permita corrigir finalmente o erro incrível e pouco dignificante em que se enredou), à capacidade em promover talentos jovens com quadros competitivos mais ajustados, ao apoio à formação dos clubes de base, humildes mas sempre a fonte de onde surgem os “craques galáticos”, à integração e qualificação do desporto escolar… enfim a muitos outros temas.

Recordo 1995 e o 1.º Congresso de Futebol Distrital, em 3 dias, no Fórum da Maia, organizado pela A.F. do Porto.
Aí, debatemos inúmeros temas da atualidade, envolvemos clubes, autarquias, FPF, estruturas do Governo, associações de treinadores e de outras atividades do universo do futebol, o futebol de cinco (assim designado na altura, juntamente com o futebol de salão), do feminino à formação, dos não profissionais aos quadros competitivos.
Foram trabalhos intensos que se prolongaram com comissões representativas e que produziram resultados efetivos ao longo do tempo, como por exemplo: a integração do futsal na FPF, uma nova e mais aperfeiçoada regulamentação de cursos de treinadores de futebol (com criação de especializações no futebol jovem) e de futsal como carreiras distintas, formações para massagistas e para dirigentes, entre muitas outras iniciativas.
O futebol sempre analisado como um todo, preservando a sua especificidade, bem como os vários níveis de intervenção complementar.
No Egito as pirâmides ainda são um magnífico testemunho da obra genial da capacidade humana.
Atendendo às realidades da época, ainda mais surpreendem…
Hoje, com tecnologia de execelência, com contributos de realidades virtuais (que devem ser só apoio e nunca um novo ditador), crescem as necessidades mas parecem diminuir as capacidades de previsão.
De qualquer forma, graças à estabilidade da base das pirâmides, elas ainda aí estão imponentes, duradouras, desafiando o Tempo.
O futebol pode aprender também com esse exemplo.
O futebol das competições internacionais e nacionais de âmbito profissional representa unicamente uma pequena parte de uma enorme pirâmide.
Atingem por vezes performances inimagináveis mas são unicamente uma ponta.
O resto até à base que tudo sustenta, deve-se maioritariamente aos pequenos clubes, àqueles que não vão desinserir das famílias, jovens, muito jovens, que muitas vezes encontram caos onde julgavam o paraíso, mas antes mobilizam os vizinhos para uma oferta desportiva que nunca poderiam ter de outra forma.

Desejando o maior sucesso para o FOOTBALL (and other) TALKS, aguardo com expectativa não só as conclusões da jornada internacional do Estoril, no próximo mês de Março, mas essencialmente o plano de ação e o processo que se vai seguir e estender ao nosso país.

O futebol será sempre um universo ao qual dedicarei a minha capacidade, pois continuo a acreditar que pode ser mais um bom suporte para o desenvolvimento integral do nosso país e de uma sociedade responsável, cooperante e solidária.


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