Futebol, Sinais e Rumos (artigo de Aníbal Styliano, 11)

Espaço Universidade 18-02-2017 12:32
Por Aníbal Styliano
O futebol tem um ADN que vem do “fundo do tempo” e, portanto, alterações à sua essência podem ter resultados destrutivos num património a preservar.
É certo que desperta vários “apetites” por parte de interesses múltiplos: alguns vorazes, outros corajosos e mobilizadores… Outros ainda, incoerências e erros brutais.
Nada acontece fora do seu contexto.
Por vezes, surgem acontecimentos que nos deixam perplexos: ocasionais ou intencionais? Difícil resposta, contudo há coincidências muito marcantes.

1. Numa recente competição de ténis (FED CUP) realizada no Havai, Estados Unidos da América, antes do início do confronto entre EUA e Alemanha, foram ouvidos os respetivos hinos nacionais.
Para espanto global, foi apresentada (e cantada em presença) uma versão anterior do hino alemão (com “ligação” a passado nada recomendável), perante o protesto dos atletas e assistentes alemães.
A Federação de Ténis pediu desculpa. Erros acontecem, fazem parte da natureza humana. Mas terá havido descuido ou coincidência “trumpiana”?

2. Eleições nacionais e internacionais para superestruturas desportivas são conseguidas com recorrentes unanimidades, que vozes sabedoras e credenciadas denunciam, fruto de pressões e garantias orçamentais (consultar artigo 54.º do Professor Gustavo Pires, “Alternativa Olímpica: Votar Nulo…” A Bola online).
As dependências, em qualquer área, nunca são boas companheiras e normalmente deixam rastos lamentáveis mesmo com a incrível impunidade alcançada.

3. Recentes casos ocorridos nas apostas desportivas revelaram tanta opacidade e estranheza, que continuo sem perceber como clubes não exigiram elevadas indemnizações às entidades que “falharam” e que podem, injusta e levianamente, prejudicar para sempre a imagem de seriedade e profissionalismo dos intervenientes.

4. Na comunicação social, Maradona afirmou: "Agora sim, é oficial. Finalmente posso cumprir um dos sonhos da minha vida, trabalhar por uma Fifa limpa e transparente, com pessoas que realmente amam o futebol. Obrigado a todos que me apoiaram para enfrentar este novo desafio!".
Esta declaração vem precisamente de um dos maiores críticos da FIFA, embora ainda não se conheça a função que vai exercer!
No mínimo, poder-se-á colocar uma importante questão de coerência e não só.

5. Para além das constantes manifestações de interesses em profundas mudanças (48 clubes nos Mundiais, alterações às regras, algumas aportando disparates enormes…) não acreditamos em grandes resultados pois os sinais não permitem essa confiança, pelo contrário.
A “negocialização” cresce assustadoramente relegando, na minha opinião, o desporto para plano acessório.

Há demasiados interesses e jogos poderosos financeiros que tentam sempre controlar… O talento e a genialidade dos jogadores e dos treinadores, felizmente, continua livre, imprevisível e incontrolável.

Também no futebol, as mudanças devem acontecer como aperfeiçoamentos naturais.
Recordo a importância da proibição dos guarda-redes recolherem com as mãos, dentro da área de grande penalidade, uma bola vinda direta e intencionalmente de um colega da sua equipa, ou de um lançamento de bola pela linha lateral de jogador da mesma equipa.
Reduziram-se perdas de tempo, acelerou-se mais um pouco o ritmo do jogo.
Medida acertada que não desvirtuou o jogo e que lhe permitiu evolução, inclusive na metodologia do treino do guarda-redes, desenvolvendo o jogo com os pés.
Mesmo assim as perdas de tempo continuam elevadas e a intensidade dos jogos baixa.
A pensar nisso, Jesualdo Ferreira publicou um artigo onde divulgou conclusões de reunião para treinadores de élite na UEFA (algumas apresentadas também por Pep Guardiola), entre as quais:
- a substituição do guarda-redes não “contar” para efeito das substituições da equipa, dada a especificidade da função;
- aumentar as substituições de 3 para 4 (além da do guarda-redes), permitindo uma maior capacidade de intervenção do treinador.
No programa semanal “Nas 4 linhas” (Porto Canal) na análise desse aspeto, foi acrescentada a possibilidade das substituições, ao intervalo (sem perda de tempo, portanto), poderem ser mais.
O treinador reforçava a capacidade de intervenção, permitia uma melhor gestão do plantel e um ritmo mais constante, pois a intensidade poderia ser muito maior sem poupanças (como já acontece em jogos de caráter particular).
Além dessas substituições ao intervalo, mantinham-se as substituições durante o jogo: 3 (além da do guarda-redes).

Pensar Futebol é uma prática constante dos treinadores (só por curiosidade, diga-se que são 7 os treinadores portugueses ainda em prova nas cometições europeias, o que revela as nossas competências) para os quais o futebol “é uma costante da vida” a toda a hora.
Aumentar a intensidade, reduzir ao máximo as perdas de tempo, penalizar simulações de lesões para parar o jogo, implicam lideranças exemplares, competentes, atentas, das estruturas que tutelam o nosso futebol bem como um compromisso assumido por jogadores, treinadores, dirigentes e árbitros.
Assim se entusiasmam adeptos, se reforça o fair play, se atraem investimentos positivos.

A terminar, um destaque particular para o LAUREUS (tipo Óscares do Despoto), para a categoria de “Momento Desportivo do Ano” que foi atribuído à equipa de Sub-12 do Barcelona pelo exemplo de fair play, após vencerem uma equipa japonesa.
Um exemplo que reforça confiança…


Aníbal Styliano é Professor licenciado em História; treinador de futebol nível IV UEFA Pro Licence; diretor pedagógico da Associação de Futebol do Porto; membro da comissão de formação da Federação Portuguesa de Futebol e do conselho consultivo da Associação Nacional de Treinadores de Futebol.
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