O Desporto e o Homem Pós-Humano (artigo de Manuel Sérgio, 177)

Ética no Desporto 11-01-2017 14:36
Por Manuel Sérgio
Alexandre Guerra, assessor de imprensa na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e discípulo (discípulo muito próximo) dos professores Hermínio Martins e João Bettencourt da Câmara, dois universitários de impressionante grandeza intelectual e moral (com o Bettencourt da Câmara, criei a revista Episteme da Universidade Técnica de Lisboa) – o Alexandre Guerra acaba de publicar um livro de “leitura obrigatória” aos que sentem a necessidade (e sirvo-me agora das palavras do Prof. José Eduardo Franco) “de reforçar o equilíbrio entre o conhecimento especializante e o saber de conjunto, que permite caminhar para a construção de uma sabedoria que orienta e gera lucidez, no meio da confusão” (Que Saber(es) Para O Século XXI?, Esfera do Caos Editores, 2014, p. 14). Como já o acentuava o Padre Manuel Antunes: “Especialistas e não humanistas, eis o que a civilização de hoje nos dá e, correlativamente, nos pede. Torna-se portanto necessário que a ciência seja acompanhada de sabedoria. As duas poderão constituir o magnífico par de asas com que o homem conseguirá erguer-se um pouco acima dos conflitos de toda a ordem, que têm ensombrado a sua condição ao longo dos milénios e que hoje, mercê do poder destrutivo conquistado sobre os elementos, correm o risco de tornar-se fatais para a própria subsistência da vida sobre a terra” (in op. cit., p. 15). Alexandre Guerra, no livro A Política e o Homem Pós-Humano (Alétheia Editores, Lisboa, 2014) com inesperada desenvoltura, pois que o tema, em Portugal, bem poucos o conhecem (mesmo nas suas linhas gerais), mostra-se especialista e humanista: especialista na revolução biotecnológica em curso, anunciando mesmo o mundo pós-humano a que Fukyama se refere; humanista, ao levantar questões éticas e políticas fundamentais, diante do desenvolvimento das biotecnologias, ou da engenharia biológica, do nosso tempo.

Hermínio Martins, que eu conheci, através da generosidade do Bettencourt da Câmara, observa, a este respeito: “Hanna Arendt escreveu, no seu estudo clássico sobre o totalitarismo, que o que era mais espantoso em tais regimes, não era tanto a sua tendência para o poder absoluto, como as suas ambições de transformar a natureza humana” (Experimentum Humanum, Relógio D’Água, 2011, p. 61). De facto, as ditaduras, todas elas nas gavetas das coisas indesejáveis da História, pretendem ao seu serviço, pessoas acéfalas, abúlicas e acríticas, obedecendo lanigeramente às palavras-de-ordem do ditador. Até à mocidade forte, escultural, magnífica, que se movimenta nos campos do Desporto, as ditaduras impõem um fúnebre silêncio, diante das injustiças e dos crimes, em que são férteis, e não lhes permitem que desfraldem, frementes de entusiamo e de fé, as bandeiras da liberdade. Alexandre Guerra, mostrando a este propósito uma espantosa erudição, sublinha preocupações que devem acompanhar a investigação tecnocientífica e tecnológica e volta ao seu Mestre, o Prof. Hermínio Martins: ”mesmo em países democráticos, como na Escandinávia e os Estados Unidos da América (27 estados aprovaram a lei da esterilização), as populações de presos e de pessoas internadas em asilos psiquiátricos foram alvo preferencial de medidas de eugenia negativa, como a esterilização obrigatória, de facto ou de jure, o aborto obrigatório e a castração química ou anatómica, não consentida, práticas que em alguns casos se prolongaram pelo menos até à década de 70” (Experimentum Humanum, op. cit., p. 394). Nas ditaduras e mesmo na alta competição que é reflexo da alta competição económica, típica do neoliberalismo, também é preciso desconfiar do desporto de alto rendimento. É que, neles, o ser humano (neste caso, o praticante) é meio, não é fim. No entanto, está ainda por nascer “o primeiro homem feito à medida da vontade de um seu semelhante”…
Mas é Alexandre Guerra, com adequada disciplina mental, a esclarecer-nos o grande objetivo deste livro, o qual “partiu da ideia de ruptura de um modelo de pensamento sem paralelo na História da Humanidade, já que, dada a inevitabilidade do progresso da ciência (…), o Homem depara-se hoje com um conhecimento e novas biotecnologias que, pela primeira vez, podem alterar a forma de olhar sobre si próprio, não apenas enquanto ser social, mas sobretudo como entidade biológica” (p. 170). De facto, através das novas biotecnologias e das células estaminais embrionárias pode nascer um novo ser humano. Mas, na multiplicidade das promessas da biotecnologia, a dignidade humana não poderá pôr-se em causa? Com as tecnologias de aprimoramento, ou transformação, do humano, nas mãos de certas políticas, não poderão começar a nascer crianças, com terríveis “defeitos de fabrico”, designadamente defeitos de ordem intelectual e moral? Eu sei que a natureza nem sempre surge como o critério geral do que é correto e humanamente perfeito, mas está na ciência e na tecnologia o Paraíso Terreal? Relembro o Admirável Mundo Novo, de Huxley: os seus habitantes, apesar do esplendoroso progresso científico e técnico, nem se sentiam felizes, nem se sentiam respeitados. E Huxley deixa transparecer que o desenvolvimento humano não se consegue, exclusivamente, nem pela tecnologia, nem pela engenharia genética. O que somos não pode ser função apenas do nosso ADN, mas também de um contexto que nos permita Educação, Saúde e Justiça Social. O Homem é, no meu modesto entender, matéria que se fez espírito, natureza que, pela evolução, em metanatureza se transforma. Pensar o ser humano, como projeto, supõe, de facto, conhecimentos biotecnológicos mas, a meu juízo, não pode esquecer que nós, humanos, somos, sobre o mais, o resultado de relações interpessoais.

Está de parabéns o Dr. Alexandre Guerra. E, por isso, com toda a atenção o escutamos: “Por último, sem qualquer tipo de pretensão premonitória, pretende-se com este livro lançar luz sobre as potenciais consequências que tal tecnologia poderá ter na definição e na concepção/adulteração do Homem biológico, tal e qual o conhecemos há milhares de anos e, consequentemente, na forma como a humanidade olhará para ela própria. As novas biotecnologias abrem assim uma imensa porta, para admiráveis mundos novos, que permitem vislumbrar sociedades mais próximas da utopia, onde as pessoas podem viver, para lá dos 110 anos, auto-regenerando-se com os seus próprios órgãos geneticamente compatíveis, desafiando as leis naturais que têm imperado até hoje” e que terão implicações, nos modelos organizacionais da sociedade e nas próprias ideologias políticas. Tocamos aqui numa copernicana revolução paradigmática, que nos conduzirá sempre a um mundo novo. Só que, sem raízes filosóficas, políticas, religiosas? Já há muitos anos li, em Ortega y Gasset, que “onde acaba a Física não terminam as questões”. Isto, porque o homem (ou mulher) que o cientista é, precisa de uma visão integral da realidade, que nos esclareça (ou tente esclarecer) acerca do sentido último da vida. Mas há ainda outra questão a levantar: será que a razão, a consciência, o pensamento têm uma natureza tão-só neurobiológica, exclusivamente à mercê das novas biotecnologias? É possível viver, sem um substrato permanente de ideias e de valores que nos identifiquem como humanos, no reino da natureza? Será que a liberdade e a responsabilidade moral são facilmente redutíveis a normas epigenéticas?... Muitas interrogações se perfilam diante de mim, depois da leitura do livro de Alexandre Guerra, A Política e o Homem Pós-Humano – interrogações que chegam também ao desporto: é possível fazer campeões, só com as novas biotecnologias? Não há necessidade de valores que nos preservem das alienações que nos cercam? Repito-me: está de parabéns o Dr. Alexandre Guerra. É que dá que pensar (e muito) o livro que ele escreveu.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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