O futebol português de parabéns (artigo de Manuel Sérgio, 176)

Ética no Desporto 05-01-2017 15:12
Por Manuel Sérgio
O ano de 2016 foi politicamente o ano em que, em Portugal, os partidos da esquerda (PS, PCP, BE e PEV) podem orgulhar-se de um trabalho em conjunto que trouxe acalmia e esperança a um País nervoso e sem esperança, sentindo-se aprisionado pelas algemas de uma dívida que se julgava poder pagar-se de uma só maneira: criando impostos sobre impostos, deixando as mais pobres famílias portuguesas em condições lastimosas e os portugueses, em geral, desanimados e descrentes. Enfim, para levar a bom termo um empreendimento de tamanha magnitude, a “competência incontestada” de um ministro e de uma ministra das Finanças não viam outro remédio, como garantia viva da salvação do País, que não fosse debilitar as finanças de quem trabalha. Tornava-se urgente, diante do hegemonismo económico-financeiro que nos sufocava, um novo Presidente da República, capaz de reavivar o entusiasmo coletivo perdido, e um Primeiro-Ministro que fosse um Homem de Estado e de grande destreza de raciocínio.

Marcelo Rebelo de Sousa, num tempo onde tombam nações, estremecem velhos países e avança o terrorismo, trabalha incansavelmente sob o signo da paz, fomentando, com um discurso congregador, a tolerância, a compreensão, a solidariedade, entre todos os portugueses. Diante da guerra, com todos os seus ódios, o Prof. Rebelo de Sousa semeia paz, com tudo o que ela pode significar e em sintonia, aliás, com o seu amigo António Guterres, secretário-geral da ONU, na sua primeira mensagem “urbi et orbi”. Por seu turno, o Dr. António Costa, na riqueza e originalidade da sua prática política, governa sem mostrar tecnocracia a mais e coração a menos. Estávamos cansados daquela secura e aridez sentimental do “aguenta, aguenta”. Se dedicarmos uma erudita atenção aos vultos maiores da nossa História – neles, na sua personalidade intelectual e espiritual, há mais “razões do coração” do que “razões da razão”…

E depois de salientar que, na política portuguesa, começou a gerar-se um conceito de história libertador, tão longe do arbitrarismo das imposições de Bruxelas como do necessitarismo de certas leis económicas, relembro, nestes primeiros dias de 2017, as palavras do engenheiro (e doutor) Fernando Santos, à Bola on line: “Desportivamente, 2016 foi, de certeza, o ano mais importante da minha vida. Vencer o Campeonato da Europa é um marco definitivo e histórico, não só na minha vida, como na vida de muitas mais pessoas, por razões diversas. Para nós, aqueles que estiveram diretamente envolvidos na conquista do Europeu e criaram condições para que o povo português saboreasse um triunfo de tamanho calibre, trata-se de um momento profissional incontornável”.

De facto, parecem-me irrefutáveis as palavras de Fernando Santos, eleito o melhor selecionador do mundo pelo IFFHS e o melhor treinador do mundo pelo GLOBE SOCCER. Em 10 de Julho de 2016, ao sagrar-se campeão europeu, o futebol português conseguiu o maior feito da sua história. No entanto, no baixo-relevo desta vitória, no meio do formigueiro humano que a festejou e da elite desportiva que, verdadeiramente, o fez, há uma figura central que, na sua sabedoria e serenidade, não se assemelha a nenhuma outra. É o Dr. Fernando Gomes, presidente da Federação Portuguesa de Futebol: soube escolher o engenheiro Fernando Santos, para selecionador nacional de futebol; com invulgar clarividência, antecipou os problemas que era preciso enfrentar e vencer; com a firmeza de um líder e a ciência de um sábio, meditou, planeou, decidiu; discreto, parecia esconder-se nos momentos de maior visibilidade e espetacularidade e, afinal, em tudo se sentia e adivinhava a sua inteligência, a sua autoridade, o seu prestígio. Na equipa vencedora deste Europeu, distinguiu-se o selecionador e a sua equipa técnica; salientaram-se os jogadores, encimados pelo melhor do mundo, o Cristiano Ronaldo; os médicos, enfermeiros e fisioterapeutas mostraram também os êxitos de indesmentível competência; os demais técnicos e funcionários cumpriram, com brilho, o que se lhes exigiu. Mas que não se esqueça o líder deste enorme e complexo processo, o Dr. Fernando Gomes.

Um Campeonato Europeu; uma “geringonça” estável; um Presidente da República tão popular quanto arguto; um Primeiro-Ministro corajoso e que também sabe cultivar a flor da simpatia; os resultados do PISA (Programme for International Student Assessment) da OCDE, onde se noticia que os alunos portugueses de 15 anos foram os primeiros, no mega estudo internacional para avaliar a literacia, na língua pátria, em matemática e em ciências. E, a culminar, será sempre de referir a luta do atual governo contra a liquidação do Estado Social, em marcha, em muitos países europeus. O povo português já percecionou que as políticas de austeridade não passam de políticas que permitem a concentração da riqueza nas mãos de meia dúzia de endinheirados.

Portanto, também no meu entender de ignorante da problemática económico-financeira, a renegociação da dívida parece-me um imperativo nacional. No entanto, na sua mensagem de Natal, o Dr. António Costa declarou que “o nosso maior e verdadeiro défice, quando comparamos Portugal com os outros países europeus, é o do conhecimento”. Passar-se-á o mesmo, no futebol federado? Em conversa telefónica, com um conhecido e respeitado treinador português, ele deu-me a resposta seguinte: “A maioria dos nossos treinadores não sabe o que há-de ler, para enriquecer os seus conhecimentos. Aliás, faltam-nos seminários e colóquios, para evolução intelectual dos nossos treinadores, que é muito necessária na liderança numa equipa de alto rendimento”.

No diálogo platónico, Teeteto, Sócrates recorda o Tales de Mileto, um sábio renomado, que observava os astros na amplitude dos céus e, distraído, caiu num buraco. Uma mulher do povo, espirituosa, logo o criticou: “Então o senhor quer saber o que se passa no céu e não presta a menor atenção ao chão que pisa?”. Tales embatucou e não sabia como responder a uma simples mulher sem hábitos de estudo. No futebol, ao nível do conhecimento, também há muita gente a contar as estrelas e não sabe o que é essencial, na sua profissão. E o essencial na profissão de treinador desportivo é saber que dialoga, vive e convive com seres que se consideram seres humanos. Tudo o resto vem depois.

Li, há pouco, um artigo do Padre Anselmo Borges, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, sobre a próxima visita do Papa Francisco a Fátima, onde recolhi o texto seguinte: “Acreditar em Fátima não faz parte do credo católico. Pode-se ser bom católico e não acreditar em Fátima. Não sei se Francisco acredita ou não. Sei que não vem a Portugal para derimir essa questão. Por isso, erram o alvo os autores do “Manifesto Contra A Visita do Papa a Fátima”, no centenário das Aparições, por vir credibilizar o que consideram ser um embuste. Ele sabe que, independentemente de todos os debates legítimos, Fátima foi e é, de facto, lugar privilegiado, onde milhões de pessoas encontraram e encontram paz, alívio e consolação para as suas aflições, serenidade e recolhimento, conversão a Deus e aos irmãos”.

A visita do Papa Francisco a Fátima, em Maio de 2017, deverá ser saudada, aplaudida e merecer o nosso inteiro reconhecimento. Trata-se de um chefe religioso de fina distinção, de superior dignidade, um apóstolo da tolerância e do amor a todas as criaturas de Deus. É, sem sombra de dúvidas, um homem de perfeita e inalterável bondade, daquela bondade que Jesus veio ensinar à Terra, bondade refletida e consciente, que é tanto um ato de amor como um ato político. A visita do Papa Francisco transcende os limites do religioso e projeta-se (tenho a certeza) na vida intelectual, social, moral do nosso País. Persiste, hoje, a ideia que é possível um trabalho interdisciplinar e prático entre o Desporto e a Ética, visando a abolição ou a diminuição do fosso entre o fisiologismo, ainda imperante na prática desportiva que se considera, demasiadas vezes, uma simples “atividade física”, e a competição como reflexo do neoliberalismo que nos governa - e os mais nobres sentimentos que distinguem a humanidade. Não há separação, de facto, como já o tenho acentuado várias vezes, entre o Desporto e a Ética, porque, sem Ética, não há Desporto. Digamos sem receio: o Desporto é uma utopia, em termos éticos, do humano.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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