Ninguém me (L)iga! (artigo de José Antunes de Sousa, 69)

Espaço Universidade 03-01-2017 16:34
Por José Antunes de Sousa
Ela bem que se empertiga e se coloca em bicos de pés – a ver se alguém lhe liga. Mas ninguém, ou quase ninguém parece ligar-lhe. Ela transporta um nome que é simultaneamente sinal de seu pretenso poder – um poder ilusório - e da sua tibieza e genética frouxidão. Afinal, ela nasceu da míngua e do aperto – e o que pequeno nasce tarde ou nunca se torna grande, ou “o que nasce torto tarde ou nunca se endireita”.

E uma ironia mais associada à bizarria de uma Taça cuja importância e atractivo parecem esgotar-se no nível artístico do artefacto, o caneco celebrativo: a Taça da Liga é cada vez mais um oportuno ensejo para a maioria desligar o dínamo da intensidade competitiva, prolongando o descanso natalício aos atletas mais utilizados.

Ela intromete-se no calendário para que reparem nela – mas ninguém, ou quase ninguém, pára para lhe dedicar um oblíquo olhar que seja. Ela não hesita em submeter-se a pequenas mas propagandeadas cirurgias estéticas, a ver se, com seu novo look, num diligente exercício de um denunciado coquetismo,, os clubes grandes se deixam finalmente seduzir pelos seus afectados trejeitos – pelo menos dois deles, que um, o Benfica, tomou~lhe o gosto e parece refém de uma paixão fácil de verão. Mas, convenhamos, é fácil o diagnóstico para a congênita astenia da Taça da Liga: ela é pouco compensadora- para além de lhe faltar a embalagem da história. Esta prova, faz lembrar uma prenda de casamento pelintra embrulhada artisticamente em papel fino e de primeira!

Num tempo, como é este nosso, caracterizado pela patológica obsessão pelo lucro, o deus luzidio do dólar que tomou de assalto o coração do homem contemporâneo e a que corresponde um maníaco funcionalismo – só vale o que resulta e funciona – é quase nulo o índice de atractibilidade de uma competição para cujo desfecho pouco mais está reservado do que a inscrição de um ínvio vencedor na tabela excel da estatística federativa. Claro que há uns euros, mas, mesmo isso, não torna a prova suficientemente luzidia - ironicamente, ela sê-lo-ia para as equipas de menor dimensão, justamente aquelas a quem ardilosa e esquematicamente são retiradas quaisquer possibilidades de chegarem à fase da decisão do troféu.

A eata prova tolhe-a o caseirismo de ser feita só para consumo interno, como se fosse uma romaria de verão, à moda do Minho, mas antecipada para o frio do carnaval - -ela denuncia um certo artificialismo, ainda que engenhoso, que lhe nega a genuinidade da adesão popular, muito por via de um arrivismo serôdio. Falta-lhe o lastro que só o caminho andado propicia: ela é ainda um tacteante processo em busca de uma identidade.

Sem proporcionar, por exemplo, o acesso ao vencedor a uma prova da UEFA, dificilmente esta prova-benjamim do calendário competitivo alcançará a tão almejada visibilidade: só existe o que se mexe e move no ecrã europeu, essa plataforma da fama. Ficar confinado ao jardim nas traseiras da Europa é aceitar ficar condenado pela certa à irrelevância desportiva.

O Presidente da Liga promete que sim, que em breve dará acesso a uma competição europeia, mas é duvidoso que a manigância da degola sistemática dos pequenos possa ser sancionada pelas instâncias que superintendem o futebol – que é descaradamente anti-democrático o figurino da prova. A operação estética da “final four” revelar-se-á, com a necessária colaboração do São Pedro, uma romaria promocional do futebol – e como é no Algarve, o mais certo é que haja estrangeiros a espreitar : um tiro certeiro. E no próximo ano, parece que querem levar essa final a quatro para a Madeira _ tudo a pensar na internacionalização.

Mas esta Taça tem um problema difícil de desatar> em nove edições foi ganha apenas por três clube, isto é, ela tem um histórico de monopólio, alguns, ressentidos, dirão de usurpação: o Benfica, só à sua conta, já leva sete conquistas – eis a grande razão e uma desajeitada e pouco convicta desacreditação e desvalorização desta linda taça. Enfim, todos se pelam por ganhá-la, mas só aparenta valorizá-la quem já saboreou a sua conquista. Assistimos, no fundo, a um conveniente exercício de hipocrisia competitiva: mas, “quem desdenha qualquer comprar” - lá diz o nosso povo.

José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
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