A síndrome do cometa (artigo de José Antunes de Sousa, 68)

Espaço Universidade 17-12-2016 12:42
Por José Antunes de Sousa
São as profissões marcadamente performativas, sobretudo estas, que sofrem de alguns dos principais males do nosso tempo. E qual a mais inquietante tara deste tempo? Justamente esta: que o tempo não chega para nada, que não há tempo para acabar a tempo a obra a realizar, que não há tempo para estudar, mas que escasseia também quando toca a divertir, que não há tempo para descansar, enfim, que não há tempo para se ser feliz. Até parece que o tempo transcorre mais rápido – ou será que somos nós que vivemos a vida de forma cada vez mais ansiosa e nevrótica? Sim, a nossa relação prospectiva e perspectivística com o tempo parece ter-se alterado, como parece querer dizer a famosa Ressonância Schumann (1952).

Enfim: Como parece não haver tempo para nos confirmarmos na felicidade, delegamos nos ícones da moda a meteórica tarefa de nos fazerem crer felizes – com um rápido e luminoso arremedo dessa tão almejada felicidade. E se há profissão que mais notoriamente sofra desta síndrome do cometa essa é a de futebolista: como profissão flagrantemente performativa, ela exibe as suas fraquezas na praça pública, simuladas e camufladas, aqui e ali, pela estridência dos aplausos ocasionais, fraquezas que se reduzem a duas trágicas características: efemeridade e pressa.

Como se sente ser tão pouco o tempo para o volume do que nele gostaríamos de fazer caber, tratamos de nos lançar em desenfreada correria na esperança de inspirarmos a vida de fôlego só, e, de um trago e ébrios, bebermos o vaso da felicidade. Só que a “vida acontece no lento”, como sensatamente avisa o jornalista e filósofo brasileiro, Ciro Marcondes Filho: a arte mais decididamente humanizante é a serena arte de perder tempo – não a de ganhá-lo a todo o custo! A vida está a ser liquidada pelo artificialismo das nossas pressas - tudo para obter, ainda que por fugidios momentos, o tranquilizante efeito de que as coisas afinal funcionam.. Sim, é verdade que isto tudo parece funcionar, mas à medida que tudo melhor parece funcionar, vamos sendo cada vez menos o Ser que realmente somos e que é tudo quanto devemos ser. E eis-nos afogados no pântano da nossa mortífera contradição: ao facto de termos cada vez mais poder sobre as coisas corresponde um cada vez menor, quase nulo, poder sobre nós mesmos!

É este fascínio pelo luzidio funcionamento das coisas que nos distrai o olhar essencial – um olhar centrado no poder inenarrável que afinal transportamos no coração. Mas voltemos á dita profissão de futebolista: ela está graduada pelo escrutínio social cujo critério supremo e único é, porém, o seu momentâneo estado de um contentamento alarve, ditado pelo clímax feérico da vitória – inevitavelmente passageira. No feliz remate com tabela no corpo do defesa contrário mas que garantiu a vitória tangencial sobre o eterno rival cabem todos os arrebatados elogios -”és o maior”, “és o nosso herói”. Mas com a teimosa obsessão pelo poste, a impotência perante noite inspirada do guarda-redes adversário, logo irrompe a truculenta intolerância do costume:”Vai trabalhar malandro”, “aqui não há lugar para chulos” e outros mimos afins. E nesta sazonal e clássica invectiva se supõe que ao verdadeiro trabalho subjaz um desejável índice de penosidade – que só é eticamente limpo o trabalho que implica uma razoável dose de sofrimento, numa semântica evocação do “tripalium” romano, esse instrumento de tortura para os condenados às galeras e que está, como se sabe, na origem etimológica de trabalhar (tripaliare).

A ideia insidiosa que mina a nossa genuína disponibilidade para aceitar a gentil brisa da vida, a de que o prazer não tem lugar no nosso posto de trabalho – induz a um estado generalizado de desconfiança em relação a certas profissões: até há bem pouco tempo, por exemplo, um pai via na vocação musical de um filho uma espécie de maldição, como o era, ainda para pior, a estranha mania de ser bailarino ou artista de teatro – as profissões a sério não consentem a intromissão espúria do prazer, pois só o sacrifício as redime aos olhos do severo critério de uma ascese tipicamente medieval.

Por isso, ao jovem com jeito para a bola se recomenda avisadamente que vá estudando – que o mais certo é a incerteza do futuro desportivo e que tenha, por isso, que socorrer-se do pobre diploma da escola para garantir o nível raso de uma sobrevivência em risco.
Trata-se de uma profissão de desgaste rápido para todos os praticantes: uns, porém, transitam para a reforma com os bolsos cheios, enquanto, outros, a maioria, confronta-se com o logro de uma vaidade (vanitas=vaidade, vacuidade) inconsequente e, perante o vazio, o pior é ficar olhando para trás - só um passo em frente os poderá salvar. O problema é que raramente sabem ao certo em que direcção dá-lo!

A vida desportiva para esta gente foi um episódio – feliz em alguns casos, infeliz para muitos outros. Em qualquer caso, um episódio apenas, que importa relativizar e contextualizar sob pena de um trágico equívoco - o de tomarem a nuvem por Juno! Porque também a árvore de Natal, com suas luzes e enfeites, é símbolo da Vida, mas só nesta quadra é que está montada! Boas Festas a todos!

José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
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