O Vítor Serpa e o José Peseiro, dois pós-modernos (artigo de Manuel Sérgio, 172)

Ética no Desporto 01-12-2016 16:28
Vivemos tempos novos, quero eu dizer: uma época que ora a definem como “pós-moderna”, ora como “mediática”, ora como “pós-industrial”, ora como “tardo-capitalista” e até um tal Fukuyama, muito apreciado pelos gulosos de novidade, proclama, alto e bom som, que são “o fim da História” estes nossos dias, onde avulta uma descomunal desorientação e as pessoas não parecem mostrar uma avidez de futuro.

O pós-moderno parece necessário, como antítese ou crítica à modernidade e ao seu inamovível primado da razão. Mas, sob o império da razão, cresceram de facto a técnica e a ciência, nasceu mesmo a tecnociência mas, se desfibrarmos as grandezas e as misérias do poder político, encontraremos na modernidade, isto é, dizendo agir sob os ditames da razão, um sem número de monarcas e príncipes sinistramente criminosos e caudilhos sem escrúpulos, declaradamente amorais. Vale a pena ler Il Principe de Niccolo Machiavelli para entender como, para ele, papas, imperadores e príncipes valiam politicamente o mesmo, na ausência de escrúpulos, na astúcia, na licenciosidade.

Cito um livro de Jorge de Sena (escritor português, sempre e em tudo de rigorosa honestidade intelectual e dominando a língua portuguesa, como poucos). O livro dá pelo nome de Maquiavel e outros estudos (Livraria Paisagem, Porto, 1973): “Como ninguém antes dele, Machiavelli foi o primeiro a declarar que o bem e o mal não têm sentido, na vida sócio-política, se forem abstratamente dissociados; foi o primeiro a denunciar que a pureza de intenções é capaz de todos os crimes, exactamente como as intenções ínvias são capazes dos mais nobres actos” (p. 48). Como o espaço de um artigo de jornal é limitado, não posso esconder que tudo o que nasce morre também e a Idade da Razão findou, principalmente a partir de Marx, de Nietzsche e de Freud.

E assim, porque os paradigmas são mortais, como os homens (e as mulheres) que os criam, torna-se inevitável a transição paradigmática. Mas, pergunta Boaventura de Sousa Santos, porque é tão difícil adiantar, hoje uma teoria crítica? E continua: “Por teoria crítica entendo toda a teoria que não reduz a realidade ao que existe. A realidade, qualquer que seja o modo como é concebida, é considerada pela teoria crítica, como um campo de possibilidades, e a tarefa da teoria consiste precisamente em definir e avaliar a natureza e o âmbito das alternativas ao que está empiricamente dado” (A crítica da razão indolente, Edições Afrontamento, p. 23).

Eu tenho para mim que qualquer teoria crítica esbarra sempre contra as birras, as vaidades, os preconcebimentos dos que julgam eterno o paradigma que estudaram (e não sabem outro) desconhecendo que também o conhecimento científico tem a sua inevitável dialética. O jornalista Vítor Serpa, no jornal A Bola, de 2016/10/26, compôs um texto de suma atualidade, salientando que o futebol precisa de arejamento. “O nosso futebol e o de todos. Por isso, os discursos das conferências de imprensa deveriam ser menos previsíveis, criativos e mais genuínos. Dirão alguns protagonistas do jogo, com argumentos aliás bem razoáveis, que há demasiados jornalistas desinteressantes, para que se possam ouvir perguntas interessantes e se possam dar respostas criativas. É verdade (…). Diga-se a propósito que o segredo da grandeza do chamado jornalismo desportivo sempre esteve na capacidade de despertar interesse público (…). Torna-se então decisiva a técnica da escrita e não pode haver uma boa técnica da escrita sem passar muito tempo a ler (…). Ninguém que não leia saberá alguma vez escrever. Quando um jornalista não lê, apenas pode repetir lugares comuns, apenas saberá refugiar-se na teoria dos blocos, das diagonais e das conquistas das segundas bolas, já para não falar do cruzamento ao primeiro pau”.

Há necessidade, no Desporto, incluindo aqui os cursos universitários de Desporto, de um pensamento iluminante, como eu, há 40 anos encontrei em Maurice Merleau-Ponty e em Manuel Antunes (cfr. Manuel Antunes, Grandes Contemporâneos, Editorial Verbo, Lisboa, 1973) e, pouco depois, em José Barata-Moura (cfr. José Barata-Moura, Da Representação à “Práxis”, Caminho, Lisboa, 1986). Merleau-Ponty, com a sua teoria da perceção, supera o cogito cartesiano e ensina que é com o corpo que eu conheço, ou ainda, que é praticamente e não teorizando tão-só que eu verdadeiramente conheço. O corpo não é objeto no meio de outros objetos: “eu sou meu corpo” – o corpo é um “corpo cognoscente” e a perceção portanto um fundo inultrapassável da motricidade humana. O Desporto é, de facto, uma atividade corporal, não é só uma atividade física, mas um corpo que é mais do que físico, é a própria complexidade humana. Foi na leitura de Merleau-Ponty e, depois, de Manuel Antunes e de José Barata-Moura (todos, muito antes de António Damásio) que eu tentei instituir uma ontologia, não só pelo que ouvia aos treinadores desportivos, mas também pelo que aprendi, principalmente na teoria fenomenológica de Merleau-Ponty. Eu sei que o meu trabalho (as minhas leituras, os meus escritos, portanto) no Desporto, é fundamentalmente teórico, mas não se esgota na teoria. Ele quer integrar o “corpo em ato”, o qual atua, joga, é práxis. Empolgou-me esta teorização do corpo e das atividades corporais, através da leitura de alguns filósofos, entre os quais distingo dois portugueses de quem me sinto discípulo também: Manuel Antunes e Barata-Moura. Sem uma leitura atenta de certos autores e o meu convívio habitual com “agentes do desporto” (trabalhei no Belenenses, no INEF, no ISEF, na FMH, na Direção-Geral dos Desportos e no Centro de Medicina Desportiva) mais limites teria a minha tese de doutoramento.

O José Peseiro, atual treinador do Sporting de Braga, foi meu aluno (de Filosofia, pois que nunca ensinei futebol, ao longo da minha vida) no ISEF de Lisboa. Deu uma interessantíssima entrevista ao Expresso, de 2016/11/26. À pergunta: “É conhecido por não ser um treinador resultadista, que põe as equipas a jogar bem e que o seu lado mais frágil é a liderança do balneário” – a esta pergunta respondeu assim: “Todos os treinadores têm pontos fracos e fortes. Esta é uma estampa que me colocaram, há mais de dez anos e que não conseguem tirá-la. Foi-me colocada no Sporting, mas não há um dado objetivo a confirmar essa imagem. Pergunto: o que é um bom líder? É um autocrata, em que os jogadores são marionetas? Ou o que assume que liderar é ter a participação dos jogadores? É impossível ter dois tipos de liderança, em simultâneo. Por isso digo que o modelo de liderança está ligado ao modelo de jogo. Numa autocracia, o modelo de jogo só pode ser defensivo, de bater a bola para a frente e salve-se quem puder; um jogador não pode ter um rasgo porque o treinador não quer. Numa liderança democrática, temos uma ideia de jogo, mas damos liberdade ao jogador, sem pôr em causa o coletivo. Hoje, é assim que se treina. Se calhar, estava avançado dez anos”. Se saudei (e saúdo) o Vítor Serpa, ao apontar a necessária reciclagem dos jornalistas, através da leitura e de uma busca incessante de informação, faço o mesmo em relação ao José Peseiro que, na sua visão de equipa, onde naturalmente predomina o sentido de pertença a um grupo, não deixa de dar valor central à pessoa humana que “só é ela mesma, quando se dá e acolhe o outro”. As grandes equipas são, ou não, as que têm os melhores jogadores? De tática todos os treinadores sabem. Mas, sabendo embora muito de tática, há treinadores que não poderão ganhar nunca campeonatos ou taças. Porquê? Porque nunca treinaram, ou treinarão, equipas consteladas de jogadores de excelência. Um jogador de futebol é “um sujeito autónomo de relação”, ou seja, é autónomo e de relação. E quantas (quantas vezes!) é a sua autonomia que ganha os jogos. Lembrem-se do Di Stéfano, do Pelé, do Maradona, do Eusébio, do Cruyff, do Ronaldo, do Messi…

PS.: O desastre de aviação, perto do aeroporto colombiano de Medellin, onde morreram 71 pessoas, entre as quais jogadores da equipa brasileira do Chapecoense, entristeceu o mundo todo. Para mim, sem Deus, a morte é um absurdo. Rezo, portanto, neste momento, pelo “eterno descanso”, de todas as pessoas que faleceram naquele desastre, que enlutou também o futebol brasileiro e o futebol mundial.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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