A `epistemologia moral´ no Desporto (artigo de Manuel Sérgio, 170)

Ética no Desporto 21-11-2016 16:01
Por Manuel Sérgio
Em artigo, no JL – jornal de letras, artes e ideias (9 a 22 de novembro de 2016) sobre o Prof. João Lobo Antunes (JLA), o filósofo Miguel Real escreve: a obra de JLA constitui “o resultado vivo de uma tradição humanista que tem percorrido a medicina portuguesa, nos dois últimos séculos, de que se destacaram personalidades como as de Costa Simões (…), Ricardo Jorge, Câmara Pestana, Egas Moniz (de quem escreveu a biografia, em 2010), Pedro de Almeida Lima, Celestino da Costa, Reynaldo dos Santos, Cid dos Santos, Elysio de Moura, Francisco Gentil, Barahona Fernandes, Corino de Andrade…, nomes distintos, tanto pelas suas inovações científicas, quanto pela carga axiológica impressa à sua profissão”.

E, linhas adiante, continua Miguel Real, com a sua habitual lucidez: “Devido à sua originalidade e importância reflexiva, sublinhamos a definição (de JLA) de Medicina como epistemologia moral, qualificação que é, em si e por si, um autêntico programa de reflexão, sobre a teoria e a prática médicas”. E em entrevista ao mesmo jornal, em 2015/10/14, JLA esclareceu: “É curioso que, mesmo quando escrevi sobre ética médica pura, me foi apontado, quase como uma crítica, que personalizava muito o que dizia. De facto, a reflexão que fiz sobre temas éticos é a história das minhas inquietações, que me faziam vibrar, me interrogavam e deixavam perplexo”. A história das ciências permite (e exige) a prática epistemológica, pois que (nos manuais escolares isso é evidente) as ciências aparecem divorciadas, descontextualizadas do solo cultural e político donde nascem. Para muitos, as ciências impõem-se como uma atividade a-histórica, intemporal, que avança, idade após idade, de modo acumulativo e linear, unicamente por força da genialidade de alguns cientistas.

G. Canguilhem, no seu último livro, Idéologie et Rationalité (Vrin, Paris, 1977) inspira-se nos conceitos fundamentais de “novo espírito científico”, de obstáculo epistemológico”, de “rutura epistemológica”, de “descontinuidade epistemológica”, de “progresso científico”, de “recorrência”, para concluir que o historiador das ciências, ou vincula a ciência ao contexto sócio-económico-político-cultural, presente na produção do conhecimento científico, ou não entende, nem dá a entender, o processo histórico donde as ciências resultam. Hilton Japiassu sustenta que a ciência nasce contra tudo e contra todos e dá o exemplo da ciência moderna: “Nasceu contra a ciência anterior, contra os conceitos e as formas de pensamento oficialmente em vigor” (A Revolução Científica Moderna, Imago, Rio de Janeiro, p. 47).

Por isso, o Galileu foi preso. No entanto, com ele (e outros) a Terra deixou de ser o centro do universo. “Para conseguir a aceitação generalizada da nova ciência matemático-mecânica, Galileu teve que destruir o sistema ptolomaico das esferas celestes e toda a filosofia aristotélica que, durante dois mil anos, constituíra o fundamento das ciências” (idem, ibidem, p. 61). E, embora o Pascal tenha declarado que “o coração tem razões que a razão desconhece” e tenha distinguido o esprit de finesse do esprit de géométrie, o racionalismo venceu e, com ele, o dualismo antropológico cartesiano, onde o corpo é natureza tão-só. E esta ideia que até ao século XX pareceu insofismável: a natureza encontra-se escrita em linguagem matemática.

No entanto (e poderíamos invocar, neste passo, as contribuições de Marx, Durkheim, Max Weber, Manheim e outros ainda) todos estes novos conhecimentos, para os séculos XVI e XVII, não nasceram apenas da genialidade de alguns indivíduos, mas de um determinado contexto ideológico, social e político. O mesmo Hilton Japiassu adianta no seu livro Introdução ao Pensamento Epistemológico (Francisco Alves, Rio de Janeiro): “O conhecimento científico é sempre tributário de um pano de fundo ideológico ou filosófico. Também é tributário da religião, da economia, da política e de outros fatores extracientíficos” (p. 35).

O Prof. João Lobo Antunes foi um neurocirurgião de talento ímpar, no exercício da sua profissão. E por esta razão primeira: nunca separou a ciência da ética, nem os factos dos valores, nem a natureza da cultura. Daí, a sua “epistemologia moral”: porque a sua prática científica era também uma prática ética e moral, porque (nele) os factos médicos deveriam completar-se com uma axiologia, porque no ser humano onde há natureza há cultura e onde há cultura há natureza. Para o Kant (1724-1804), como se sabe, a Ginástica: “é a educação do que, no ser humano, é natureza”. Só natureza! Nada mais do que Natureza! A ciência onde a Medicina e a Educação Física daqueles anos já distantes procuravam o seu paradigma dos paradigmas era a fisiologia. Hoje, sabe-se que, no estudo do humano, é a complexidade humana o objeto de estudo, onde não basta o “bios”, para explicar o seu comportamento e onde não basta o laboratório para conhecê-la e avaliá-la.

Mas um ponto há ainda a realçar: se o corpo é unicamente fisiologia e se a fisiologia é natureza tão-só, exclui-se a qualidade da Medicina e da Educação Física. O corpo, para Descartes, não passa de complicada máquina que obedece mecanicamente às leis da física. Atualmente, cresce uma consciência, dia-a-dia mais aceite, de que, na ciência, não pode afastar-se o contributo da imaginação e da arte e até da religião.

“No plano da linguagem, descobrimos o papel transcendental do nosso dizer, na constituição da imagem do real, o seu poder instaurador da visão lógica, intelectual, poética, metafísica e, claro está, também religiosa” (Artur Morão, in Brotéria, Lisboa, Abril de 1999). Portanto, a qualidade emerge da quantidade e a quantidade permite a qualidade. Na historicidade das ciências, a qualidade humaniza a quantidade; na feição processual do conhecimento científico, misto de ordem e desordem, de acaso e determinismo, de causalidade e caosalidade, a transcendência é sempre possível - a transcendência, ou seja, a consciência de que o ser humano não é objeto da história, mas sujeito criador da própria história.

A “epistemologia moral” é um discurso fundamentalmente filosófico e científico, mas cripticamente antropológico. Por isso, o Desporto, no âmbito da epistemologia, é mais do que uma Atividade Física. Esta, praticam-na os animais, que jogam também, mas não se submetem nem ao árbitro, nem às normas que o árbitro impõe e verbaliza, nem reconhecem (quando há razão, para tanto) a superioridade do adversário. O desporto é, digamo-lo uma vez mais, transcendência – a transcendência que só a pessoa humana pode concretizar. Tudo o que há de belo e digno e admirável, no ser humano, manifesta-se na prática desportiva. Já o Ortega y Gasset dizia que “a forma superior da existência humana é a desportiva”.

Só por distração ou ignorância não se reconhece, no Desporto, uma das principais (a principal?) disciplinas escolares. A ética, como filosofia primeira, de Lévinas; a desconstrução do continuismo racionalista moderno, de Derrida; a razão comunicacional, de Habermas e a razão inclusiva, de Edgar Morin – tudo o que de mais atual, na Filosofia, descobre-se em movimento (e portanto com vida) no Desporto. Já li, não sei onde (ou já escutei ao Dr. José Lima, responsável pelo PNED) que o Desporto é a concretização de uma Filosofia Moral. Inteiramente de acordo! Se, pelo Desporto, conhecemos os nossos limites, para transcendê-los; se o Desporto é uma forma de luta contra a mediocridade, contra o absentismo, contra a apatia, contra a negligência; se o Desporto converte as dificuldades em possibilidades; enfim, se o Desporto é um humanismo – por que não encontrar, nele, uma Filosofia Moral?... Muito obrigado ao Prof. João Lobo Antunes! A sua “epistemologia moral” muito tem a ensinar aos médicos e… aos desportistas!

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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