O treinador Tuck e o Sacavenense (artigo de Manuel Sérgio, 169)

Ética no Desporto 16-11-2016 16:23
Por Manuel Sérgio
No estilo resumido e correntio de uma notícia jornalística, A Bola, na sua versão on line, de 2016/11/8, informava os seus leitores que o Sacavenense, a disputar o Campeonato Portugal Prio (2º. lugar, na série G) é a defesa menos batida de qualquer campeonato oficial europeu: 1 golo sofrido, em 9 jogos! Como sou um admirador do Tuck, atual treinador do Sacavenense e antigo jogador do Gil Vicente e do Belenenses e ainda diretor do departamento de futebol do meu clube (o Belenenses), quando o Jorge Jesus era o treinador principal, imediatamente telefonei ao Dr. Bruno Dias, licenciado e mestre em Desporto pela FMH, seu metodólogo do treino, a inquirir das razões do bom desempenho do Sacavenense.

O Bruno foi pronto na resposta: “A direção acredita no Tuck e na sua equipa técnica e os jogadores têm pelo seu treinador uma admiração sólida, calorosa, comovente”. E, após breve pausa, concluiu: “E assim nasce um todo sólido, indestrutível”. Conheci o Tuck, no Belenenses, era o capitão da equipa, por todos respeitado: colegas e dirigentes. Deixou, no Clube da Cruz de Cristo, a imagem de um praticante sem mácula e de grande capacidade de liderança. O líder, ou é respeitado, ou não pode ser líder. Por seu turno, o Dr. Bruno Dias parece-me, por natureza, avesso a atitudes de louvaminha interesseira.

Aliás, ele repete, por palavras suas, o que eu já escutei, noutros lugares e a outras pessoas: o Tuck é um profissional esclarecido, probo e… que sabe muito de futebol! E continuei a perguntar: “E qual é o orçamento do Sacavenense, para o futebol?”. Outra resposta rápida: “Não tenho comigo o número exato, mas posso dizer-lhe que é três ou quatro vezes menos do que o praticado por outros clubes do mesmo escalão”. A criatividade humana, por vezes, faz autênticos milagres, como este. Manifestei-lhe a minha surpresa: “Com tão pouco dinheiro, os jogadores são amadores, com toda a certeza”. E são mesmo – assim mo garantiu o Bruno Dias…

Com o fascínio de quem procura um saber desconhecido, debruço-me sobre o significado de uma frase que, no futebol, se repete até à exaustão: “O futebol não é uma ciência exata!”. De facto, nada do que é humano é inalteravelmente certo. Portanto, nem o futebol, nem qualquer outra área do conhecimento, são “ciências certas”. As ciências empírico-analíticas são, de facto, de prognóstico provável, mas os métodos que as concretizam nem sempre são os mais eficazes, porque são pessoas (falíveis, naturalmente) que os comandam. Não esqueço também o que li, no livro Para Abrir as Ciências Sociais (relatório da Comissão Gulbenkian sobre a reestruturação das Ciências Sociais): “Há muito que as ciências naturais aceitaram como realidade a ideia de que o medidor interfere naquilo que mede” (p. 86).

E, mais adiante, refere: “hoje em dia, muitos são os que acreditam que os sistemas complexos são auto-organizados e que, por consequência, a natureza já não pode ser considerada passiva” (p. 91). Portanto, o determinismo, ou a objetividade forte do ato científico, como o entendia a ciência clássica, findou. No futebol e… no mais! O princípio de indeterminação de W. Heisenberg, da irrepresentabilidade pictórica do mundo quântico, da imprevisibilidade de qualquer mutação no campo biológico; a ordem e a desordem, a causalidade e a caosalidade, presentes na vida material e espiritual - não cessam de o acentuar. Não há apenas certeza, ou incerteza, na realidade, mas enfim há a certeza suficiente, embora a sua estonteante complexidade, para concluirmos que, com um orçamento exíguo, não é possível conceber e estruturar uma equipa de futebol que possa sonhar vitórias, num campeonato altamente competitivo – por esta simples razão até: sem o dinheiro suficiente, o profissionalismo não pode implantar-se.

O Tuck (nome completo: João Carlos Novo de Araújo Gonçalves) organizou, disciplinou uma equipa, com futebolistas amadores, e segue em segundo lugar, no seu grupo, à distância de dois pontos apenas do Real Massamá, o primeiro classificado do grupo! Combinámos um almoço, para eu entender melhor as causas deste “fenómeno”. Adiantei uma interrogação: “O meu amigo é o metodólogo do treino, adjunto do Tuck. Sente-se um profissional informado, atualizado?”. Escutei do Bruno Dias uma resposta inesperada: “Frequento, com assiduidade, a biblioteca da Faculdade de Motricidade Humana e estudo tudo o que me chegue às mãos, que se refira à epistemologia e metodologia das ciências humanas. Também leio, quinzenalmente, o JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias.

E considero-me o elemento de um todo, liderado pelo Tuck, que faz dos seus adjuntos (que são quatro, incluindo o metodólogo do treino, que sou eu, e mais um observador) profissionais e pessoas, em que ele abertamente confia. E que aconselha que todos estudemos e nos informemos, para o podermos ajudar. Um seu adjunto é, para o Tuck, um colega de profissão, o elemento de uma segunda família”. E, com doçura na voz, acrescenta: “O Tuck é um extraordinário treinador de futebol. Tenho a certeza que, num clube grande, seria um sucesso, pelo valor que tem”. Num tempo, como o nosso, em que se assiste a um processo de substituição do social pelo individualismo mais arrogante; em que as categorias sociais se manifestam num quadro de referências puramente egoístas; em que, nas palavras de Alain Touraine, contemplamos “o fim do social” (cfr. Um novo paradigma para compreender o mundo de hoje, Instituto Piaget, Lisboa, p. 100) – um departamento de futebol onde a solidariedade é o lema e que não aceita a desconfiança típica, que atravessa a “sociedade de mercado”, até parece mentira…

Não resisti a dizer-lhe: “Estou a compreender porque os vossos jogadores, embora o seu amadorismo, competem com profissionais e com mais vitórias do que derrotas”. E o Bruno Dias: “O Tuck e a sua equipa técnica sabem que o desporto fomenta e promove valores que nós queremos que norteiem o comportamento de todos os que constituem o nosso departamento de futebol. Não pretendemos ser, unicamente, os melhores a jogar futebol, mas também como desportistas”. E alteou a voz, para dizer: “Não pretendemos ser apenas treinadores eficientes, cientificamente informados, mas também pedagogos que, pelo exemplo, educam”.

O Bruno Dias, grau 3 dos cursos da UEFA, poderia ensinar alguns dirigentes ditos desportivos que, sem ética, não há desporto. Que um charme hipócrita e superficial; uma autoestima exagerada; uma indiscutível capacidade de manipular e persuadir; uma constante impulsividade, em relação a “moinhos de vento” e a um inimigo que se inventa, para esconder defeitos próprios - tudo isto, na mesma pessoa, são características de atributos psicóticos. E o Bruno foi simpático, para mim, ao sublinhar: “Quero também salientar que nos parece feliz o seu conceito de periodização antropológica e tática. Também nós, no Sacavenense, treinamos em função dos homens que temos; também nós, ao mesmo tempo que treinamos a tática, pretendemos treinar, nos nossos jogadores, a capacidade de sacrifício, a solidariedade, a generosidade, etc. A tática não chega, se os jogadores não têm qualidades intelectuais e morais, que permitam a sua concretização”. E prosseguiu, com convicção: “Mais importante do que a tática é o comportamento dos jogadores, em todos os momentos do jogo”. Já escrevi que “ter sucesso é menos importante do que ter valor” e há muito valor no Sacavenense. Parabéns à sua direção, à sua equipa técnica e aos seus jogadores.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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