Mais uma estrela cadente? (artigo de José Antunes de Sousa, 65)

Espaço Universidade 14-11-2016 16:26
Por José Antunes de Sousa
Não, não se trata, como bem sabemos, de estrelas que caiam do céu aos trambolhões – são apenas fragmentos de esteroides, ou de cometas, que, entrando na atmosfera a altíssima velocidade e por força do respectivo atrito, deixam um rasto de luz, rápido e evanescente – como o rasto da fama. De facto, dificilmente poderíamos encontrar metáfora mais certeira para o meteorito de uma efêmera incandescência, como é esta coisa que inebria e cega a tanta gente – a fama, precisamente.

Primeira verificação, que é também uma certeza: os famosos, mais tarde ou mais cedo, acabam por cair, justamente quando são confrontados com a desvalida e nua experiência da realidade de si e, nesse instante inevitável, experimentam o abismo que se cavara entre o que julgavam ser – na sua estulta identificação com a charmosa ficção colectiva a seu respeito e aquilo que essencialmente são, sem que disso se cheguem a precatar realmente. Eis o que sobre este mecanismo fatal de inconsciencialização nos diz o incontornável Eckhart Tolle no seu famoso livro Novo Mundo na página 73: “A desgraça de se ser famoso neste mundo é que a pessoa que realmente somos fica totalmente ofuscada por uma imagem mental colectiva”.

Primeira coisa que recomendaria: não invejemos o Cristiano Ronaldo ou o José Mourinho pela fama de que gozam – que é bem custoso o gozo que isso dá. Invejar a fama de alguém é viver-se na mágoa ressentida de não ser outra pessoa diferente daquela que efectivamente se é, o que configura uma dupla frustração: não se é nem aquilo que se inveja nem aquilo que, em consciência, se deveria ser!

Segunda coisa importante a evitar: essa corrida insana atrás do rasto de uma luz efêmera do nosso ídolo, esse ícone de felicidade rápida, em busca de uma vicariação identificacional (alguém que imaginariamente nos represente nesse desígnio da humana realização) – uma forma, enfim, de tomar por empréstimo uma glória que, não sendo própria, admiramos em alguém que sobressai, por via de seus feitos, do magma social.

Muitas das pessoas famosas incorrem no clássico e fatal erro de se identificarem com a ficção que a turba, histérica e inadvertida, constrói a seu respeito – a imagem que pessoas e meios de comunicação criaram delas, começando a sentir-se superiores em relação ao comum dos mortais. Resultado: vão ficando cada vez mais infelizes e reféns do logro dessa continuada popularidade.

Rodeados de uma corte flácida e genuflectida, que lhes alimenta diligente e oportunisticamente um ego sedento e insaciável, realçando-lhes a auto-imagem de importância, eles atolam-se no pântano da sua mítica ilusão, tornando-se incapazes de, no plano humano e funcional, estabelecer relações genuínas. Eles empoleiram-se nos carrilhões de uma glória soprada aos quatro ventos e, dissipada a ventania, eis que se atarefam desesperadamente em recolher os tristes despojos de uma memória desfeita… e tentam, a todo o custo, sobreviver na sobressaltada e acabrunhante convivência com a dança patética e obsidiante dos seus fantasmas. Alguns, bastantes, se não quase todos, acabam por sossobrar nessa obsessão em viver do arremedo fantasmático do seu verdadeiro ser.

Quando observamos o declínio de luminosidade de certas estrelas, não podemos deixar de nos interrogar sobre o que nelas está morrendo. Só pode ser aquilo que nelas sempre foi o reflexo da própria volubilidade emocional das massas: a luz dura enquanto dura a paixão – e bem conhecemos desta a sua principal característica: não dura muito! Que se passa, por exemplo, com Mourinho, que, ao que vem ultimamente constando, tem vindo a revelar crescentes dificuldades na sua relação humana com os jogadores? Talvez o cansaço gerado por um desgastante e instável equilibrismo no arame de uma fama auto-glorificante. Cansaço que traz consigo um crescente desconforto provocado pela abissal desproporção entre a glória fátua dos mundanos anais e a trágica sensação de vazio íntimo, lavrado pelo desvio identiificacional com a pública história ficcional sobre ele tecida, mas que ele, bem no fundo de si, sabe não ser verdadeira.

Ora, este clima abafado de cortante inconformidade gera um crescente azedume infeccioso que envenena e condiciona a genuína disponibilidade para acolher o outro na sua diferença – sincera e inteiramente. Uma relação genuína: estar atento à pessoa que alguém sempre é e não ao instrumento que circunstancialmente esse alguém possa constituir. E, na ressaca de tão insano exercício, eis que sobrevém a solidão, não raro, disfarçada de um auto-defensivo isolamento ou de um crepuscular solipsismo. Quem se confia, sem condições, ao barbitúrico da fama, acaba tragado por ela e por aquilo que dela sabemos ser fatal característica – a sua inconsistência.

Eu que, nestas coisas, prezo muito as boas companhias, invoco, a este propósito, o exemplo luminoso de Albert Einstein, um dos homens mais famosos da história, mas que, não obstante todos os louros, continuou na senda da humildade, e, nas suas próprias palavras, constatava enfaticamente que existe “uma grotesca contradição entre o que as pessoas consideram ser os meus feitos e as minhas capacidades e a realidade de quem eu sou e daquilo que sou capaz de executar” (Como vejo o Mundo, 1961). Pois é: redentora descoberta de quem tanto descobriu!

José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
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