Uma Coreografia de Pensamentos (artigo de Manuel Sérgio, 167)

Ética no Desporto 05-11-2016 16:24
Por Manuel Sérgio
Conservo os sumários de um seminário que lecionei, na Faculdade de Motricidade Humana (FMH), em 1979, que começam com uma conhecida frase de Bergson: “Um filósofo digno desse nome nunca disse senão uma única coisa”. Na minha pequenez, simples aprendiz de Filosofia, não sei, hoje, se consegui dizer alguma coisa aos meus alunos – eu que, bem provido de muita vontade, tanto esforço fiz para dizer-lhes que a palavra “físico”, no significado da sua profissão, roubava inteligibilidade e grandeza ao que estudavam e ao que faziam. E porquê?

Porque o corporal e o psíquico nunca deverão considerar-se isoladamente; porque “eu sou meu corpo” e não há portanto atividade intelectual sem o suporte corporal, neuronal; porque a motricidade humana é, permanentemente, um apelo à transcendência física, intelectual, social, moral. À hora do poente, sentado num jardim, franjado de árvores, abro o livro de Martin Buber, Eu e Tu. Leio: “Quando era criança contaram-me que, sentado numa rua de Roma, ser agónico e humilde, um idoso gritou, ao ver um transeunte: É o Messias! A pessoa visada fitou, com curiosidade, o velho e perguntou-lhe: Por quem espera você? E ele, acocorado à porta de um luxuoso edifício, respondeu-lhe: Por ti”. Segundo o mesmo Martin Buber (1878-1965) o ser humano “é um nó de relações e é no tipo de relações que mantemos com o nosso semelhante que melhor nos afirmamos como homens”. Para mim, a primeira das mensagens do Evangelho parece-me esta: Deus está em quem precisa do meu auxílio. A prática desportiva pode tornar-se numa síntese do “amor ao próximo”, no controlo do que em nós é instinto, na domesticação da violência, no reconhecimento do adversário como o “amigo” que me permite a prática desportiva. E concorrer, portanto, a uma pacificação da sociedade!

O desporto não esconde, em todas as circunstâncias, uma grande vontade de vitória, mas… num espaço lúdico! Só que o desporto, designadamente o de alto rendimento, emerge, demasiadas vezes, como um dos subsistemas do economicismo ambiente e, como tal, “ele não passa de simples mercadoria, à imagem do que se passa com o próprio corpo (e não é o Desporto uma expressão corporal?). No corpo o que hoje mais se publicita são as suas qualidades físicas, morfológicas e sexuais. Prometem-se força física, ombros largos, cinturas finas, orgasmos tensos e intensos, como quem vende sabão, lixívia, ou outro produto deste jaez. Em plena sociedade capitalista, o que é a prostituição senão corpos que se entregam na procura exclusiva do dinheiro? O turvo presságio de Marx poderia, aqui, invocar-se: na sociedade capitalista, a prostituição da mulher acontece, lado a lado, com a prostituição generalizada do trabalhador.

E não é o atleta de alta competição um trabalhador que vende ao Clube a que pertence a sua força de trabalho? E não é, ele também, humilhado e ofendido, quando se põe em risco a sua saúde, através de anestesias locais que escondem, por poucas horas, lesões ósseas e musculares (e não só) de alguma gravidade? Quando se proclama, por aí, com muita irresponsabilidade à mistura, que o desporto dá saúde – importa salientar a que desporto nos referimos, pois as “vedetas” do desporto de alta competição findam, quase sempre, as suas carreiras desportivas com deficiências físicas (e, nalguns casos, até psíquicas e psicológicas) decorrentes de uma prática que os instrumentalizou. Ninguém faz este desporto, para ter saúde; fá-lo porque tem saúde. Até há pouco, em plena vigência da medicina cartesiana, a enfermidade definia-se em função da patologia; a gora, a saúde define-se em função da conduta. O desporto só é salutar, quando se integra numa vida lucidamente saudável” (Manuel Sérgio, Algumas Teses Sobre O Desporto, Compendium, Lisboa, 5ª, edição, 2014, p. 12).

Delicio-me, de quando em vez, com a leitura dos Pensamentos de Pascal (1623-1662): “O homem não é senão um caniço, coisa frágil da Natureza. Mas é um caniço pensante. E não é preciso que o universo inteiro se congregue, para esmagá-lo; um vapor, uma gota de água podem matá-lo. Mas, ainda que o universo o esmagasse, ele teria sempre, por si, uma dignidade que a Natureza não tem. Ele saberia por que morre e reconheceria mesmo a sua fraqueza diante do poder da Natureza e esta não saberia nunca por que o matava”.

Há mais de 300 anos, não era possível ainda relacionar a psico-evolução com a bio-evolução. A formação da consciência, da intencionalidade e da subjetividade têm suporte corporal. No entanto, seja o pensamento científico ou filosófico ou teológico, é pelo pensamento humano que a vida passa a ter sentido. A prática implica necessariamente inteligibilidade e sentido. Ação, sem sentido, é mera agitação, não é génese. “O homem é uma paixão inútil” disse-o Sartre.

Maurice Blondel começa o seu livro L’Action, com uma interrogação: “Sim ou não, a vida tem um sentido?”. No Fedro, de Platão: “Pensar é a alma a falar consigo mesma”. Portanto, em Platão, pensar não é discorrer, raciocinar, encadear argumentos num nexo causal. “Pensar (conclui Manuel Ferreira Patrício): é ver o inteligível, o ser das coisas” (in AA.VV., Repensar José Marinho, Campo das Letras, Porto, p.29).

Pensar o desporto atual é ver nele o predomínio do quantitativo. O atleta vale o que valem os seus desempenhos e estes medem-se pelo número de golos e dos metros e centímetros e segundos das disciplinas do atletismo ou das provas de natação. O grande atleta avalia-se também, para além dos recordes que alcança, pelo número dos automóveis-último-modelo e pelos números dos seus gastos e dos seus vencimentos. Tudo nele é principalmente quantidade. Aliás, como reflexo das categorias em que o sistema capitalista se desentranha: a alta competição, o rendimento, a medida, a quantidade, o espetáculo.

Nos programas desportivos da Comunicação Social, o campeão surge, em ambiente esplendoroso, como um modelo da alta competição, pelo seu inigualável rendimento, continuamente medido e quantificado. E também um modelo de “muito trabalho”, mas nem sempre de consciência reflexiva e crítica, porque é o treinador que pensa pelo atleta. É verdade: o desporto, designadamente o de alto rendimento, reproduz e amplia a “sociedade de mercado” donde nasce. Correu mundo o conhecidíssimo apotegma, atribuído a André Malraux: “O século XXI será místico, ou não será”. A Imprensa da época substituiu a palavra “místico” por “religioso”.

Em Le Point (1975/11/10) Malraux fez a declaração seguinte: “Atribuíram-me a frase: o século XXI será religioso. Eu nunca disse tal, porque nada sei a este respeito. O que disse foi isto: não excluo a possibilidade de um acontecimento espiritual, à escala planetária”. A necessidade do Absoluto, ou de Deus, é, no meu pensar, o mais natural de todos os sentimentos. Como, no homo competitivus, o atleta, o anseio da transcendência! O atleta pretende, sempre, transcender as suas limitações. A auto-superação progressiva é própria do atleta e… de cada um de nós! Santo Agostinho assim o diz desta forma, nas Confissões: “Fecisti nos ad Te, Domine, et inquietum est cor nostrum donec requiescat in Te”: Fizeste.nos para Ti, Senhor, e inquieto anda o nosso coração, enquanto não descansa em Ti”.

É na via da transcendência, simultaneamente física, social, espiritual, que o ser humano encontra a razão última da sua existência. O Desporto é um dos aspetos do “movimento intencional e em equipa da transcendência”. Também do Desporto se divisa o Absoluto. Inalcansável, mas presente! De facto, Deus é o Invisível Evidente! Afinal, na coreografia de pensamentos, que foi esta minha modesta crónica, Deus esteve presente. Volto a Santo Agostinho e às Confissões: “intimior intimo meo”: Deus é mais íntimo a mim do que eu me sou a mim próprio”.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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