Afectuoso capitão (artigo de José Antunes de Sousa, 64)

Espaço Universidade 02-11-2016 16:22
Por José Antunes de Sousa
No passado dia 25 de Outubro, partiu o Carlos Alberto Torres, o capitão do tricampeonato da selecção brasileira: quase da mesma maneira como apareceu, pela ponta direita para, a passe de Pelé, naquela memorável final contra a Itália, a fulminar o reduto transalpino – sorrateiro e súbito!

Sim, logo ao raiar de mais um dia da primavera carioca, sem avisar ninguém, decidiu retirar-se de cena – ele que quase todos os dias marcava presença nos ecráns de televisão – esse fatal meio de familiarização.

Sim, porque o afecto que o povo brasileiro por ele nutria – e nutre – operou o fenómeno da apropriação colectiva – ele era íntimo de casa de cada um dos brasileiros. Para este povo de afecto transbordante, ele não era só o capitão, ele era muito mais: ele era simplesmente o Capita, não já um nome comum de capitão, mas o nome pessoal, que encarna uma história de vida única e irrepetível.

Ao capitão decapitaram-no, num impulso unânime de afecto, para o afeiçoarem ao jeito útil e terno de cada um. Sim, capitão soa a imposição, a trovão, a obrigação – tudo o que de constrangimento pode inviamente sugerir o ditongo nasal. Capita: uma feliz e criativa simbiose de capitão com o Carlos Alberto – do actor com a personagem! Convenhamos: o brasileiro aprecia sobremaneira aveludar e amaciar as palavras, eliminando-lhes as arestas – ele gosta de instaurá-las na redondeza doce da sua feminina insinuação.

Vejamos: ao capitão, másculo e musculoso, provocaram a síncope do “ão”, que, de certo modo, grita a imperatividade de uma ordem, que arremeda um símbolo fonético de um poder que corta a direito e, desse capitão-padrão – e também patrão – de uniforme marcial e de botas cardadas, eis que nasce, numa operação semântica quase misteriosa, um Capita, de uma certa ressonância feminina e vagamente maternal. Como se o “ão” fosse o bastão, esse adereço excessivo de mando que importa dispensar.

Porque a semântica, sendo embora um vocábulo de forma feminina, ele é, no fundo, realmente masculino – tem sémen, como os machos. A semântica traduz e manifesta essa inelutável e maravilhosa aptidão humana para acondicionar, afeiçoar, transformar, enfim, significar – e, dessa forma, tonificar o mundo.

Noto, sem dúvida, no brasileiro, fruto quiçá de uma atávica afectividade ampliada pelos trópicos, um jeito especial para acariciar e arredondar as palavras: mesmo o excesso tónico traduz mais que tudo um teor afectuoso – o Mineirão, o povão, o Brasileirão são todas palavras inchadas e prenhes de existencialidade e que denotam um difuso e profuso carinho. Como o devotado ao eterno capitão, que, agilmente os brasileiros transformaram no seu Capita – um capitão que não é mais um capitão como os outros. É especial – simplesmente Capita: muito mais o nosso Carlos Alberto do que o capitão da Selecção: um ser humano mitificado, porque investido de um afecto apropriativo que o transmutou num mito do defesa atrevido, insubmisso e goleador.

Em Portugal talvez, quem sabe, lhe tivéssemos arranjado uma sigma - CA, por exemplo. Talvez lhe tivéssemos acrescentado um “T”, de Torres e, assim, ficando CAT (gato, em inglês), teria vindo mesmo a calhar para traduzir aquele seu felino empenho na rija mas cavalheiresca disputa dos lances. Em Portugal, seria talvez isso, CAT, que, tal como CR7, sugere mais um conselho de administração de uma multinacional, ou, quem sabe, uma corretora do meio tumultuoso de Wall Street ou até mesmo o código de uma secreta loja da camorra siciliana. Aqui, no Brasil, não. Apesar de ser o país das siglas, a maioria das quais permanece para mim indecifrável, ao Carlos Alberto, esse ícone da equipa-maravilha de 1970, convém que se lhe dê um nome doce e popular – o Capita!

Com o súbito desaparecimento do Carlos Alberto Torres que não tive infelizmente o privilégio de conhecer pessoalmente, porque o colóquio em Cabo Frio e em que estava previsto participarmos no mesmo painel, juntamente com Ricardo Rocha e outras figuras, foi, à última hora cancelado, deu~se um saudoso e saudável avivamento da memória: aquela mágica equipa! E nomes como Pelé,, Jairzinho (ah, esse encantador jogador!), Paulo César Cajú, Baldochi, Clodoaldo, Brito, Gerson, Tostão, Rivelino...enfim, uma constelação que povoa, cintilante, o firmamento do imaginário colectivo saiu, pelo menos por alguns momentos, do vale angosto do esquecimento e assomou ao alto da montanha, a Olímpia do nosso encantamento!

Na feliz invenção deste doce designativo -Capita – deve ler-se o público aplauso a um paradigma de capitão de equipa que poucos, muito poucos, verdadeiramente encarnaram: o próprio Carlos Alberto, Beckembauer...e o eterno capitão do Benfica: Mário Esteves Coluna. A estes está reservado o olimpo - a morada dos escolhidos!

José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
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