Ninguém ganha porque tem valor, tem valor porque ganha (artigo de Manuel Sérgio, 165)

Ética no Desporto 25-10-2016 16:07
Por Manuel Sérgio
No futebol profissional, no futebol que os jornais, a rádio, a televisão e as redes sociais, excessivos, apregoam: “Ninguém ganha porque tem valor, tem valor porque ganha”. Importa não esquecer que o desporto de alta competição (ou de altos rendimentos) integra o sistema capitalista e, assim, os grandes clubes desportivos são autênticas firmas comerciais, em pública exposição no mercado desportivo (e não só). Não deverá ser, por isso, motivo de surpresa que o atleta profissionalizado, mercantilizado, mediatizado domine o imaginário coletivo e reproduza, multiplique, legitime a ordem capitalista estabelecida. Nos espetáculos desportivos, aglomeram-se pessoas, cheias de contrastes de idade e posição social, mas o rumor de pragas, de gritos, de mofas que irrompe de quase todas elas; os esgares de angústia que nas faces se desenham; a massa humana de espectadores, ululante e esbracejante – é um remoinho de alienação o que significam, antes do mais. Não se descortina, à vista desarmada, a serenidade atenta, congenial à crítica sapiente ou até, em poucas palavras: à compreensão e à tolerância. Tudo parece igual, pois que todas as pessoas se movimentam atravessadas de um clubismo doentio, como de espadas. Ou seja, o desporto corporizando os grandes mitos da sociedade capitalista (o desporto, é a tradução lúdico-agonística da alta competição entre as pessoas e as instituições) surge como uma das aplicações práticas de uma determinada ideologia, de um determinado sistema económico. Os milhões de euros que percorrem o futebol (um exemplo, há outros); a vida faustosa dos seus intérpretes de melhores atributos; valorar mais o ter do que o ser; os gestos frustes dos instintos primários; as claques organizadas, autoritárias e agressivas, infiltradas de indivíduos pouco, nada recomendáveis – tudo isto parece normal, no mundo de um certo futebol.

Não escondo que, dentro das próprias claques e dos próprios clubes, há movimentos de denúncia do primarismo, da violência de inúmeras situações. Em Portugal, o Plano Nacional de Ética no Desporto, que o Dr. José Lima tão sabiamente dirige, não cessa de proclamar, por sobre a linguagem fragosa e estridente de algumas pessoas, os princípios básicos da ética desportiva e… esta simples ideia: sem ética não há desporto! Só que este futebol, fundamentalmente, decorre como representação da alta competição da “sociedade de mercado”. Os estádios albergam espetáculos onde se interiorizam e difundem todas as instâncias filosóficas da alta competição económica do nosso tempo, donde ressaltam alegria, autoconfiança, companheirismo, mas também (e de modo mais visível) o ressentimento, a humilhação, o sentimento de malogro e desastre. Mas qualquer saber só existe como uma pluralidade de saberes. E, se pensarmos um pouco, poderá concluir-se que é também indubitável o papel do Desporto, na humanização dos comportamentos individuais e sociais. Se o Desporto monopolizasse o poder, à luz das regras que o distinguem, a sua dimensão civilizacional seria bem mais nítida. É conhecida a afirmação de Nietzsche, n’A Genealogia da Moral: “A história do homem é a história do seu fracasso”. Permito-me (eu, um simples amante da Filosofia) discordar do genial Frederico Nietzsche. Quando procurei definir o conceito de “motricidade”, tendo em conta o paradigma científico da Faculdade de Motricidade Humana, encontrei no Merleau-Ponty da Fenomenologia da Perceção o que procurava: “O meu corpo aparece-me como postura em vista de uma certa tarefa atual ou possível. E, com efeito, a sua espacialidade não é, como a dos objetos exteriores ou como a das sensações espaciais, uma espacialidade de posição, mas uma espacialidade de situação” (Gallimard, Paris, p. 116). O corpo determina-se, neste filósofo, sublinha José Barata-Moura (que enforma sempre as suas reflexões de uma erudição verdadeiramente invulgar) “em termos funcionais, isto é, de funcionamento, de operação, de motricidade. Aí radica uma primeira dimensão fundamental da constituição prática do mundo” (Da Representação à PRÁXIS, Caminho, Lisboa, p. 78).
Quando eu li, na Fenomenologia da Perceção, que “a consciência é originariamente, não um eu penso que, mas um eu posso” (p. 160) logo entendi que a motricidade era uma possibilidade intencional e prática de transcendência, de transformação individual e social. E volto a Merleau-Ponty: “aquilo que descobrimos pelo estudo da motricidade é, em suma, um novo sentido da palavra sentido” (p. 171). Para mim, o sentido é a transcendência. E torno, desta vez, a José Barata-Moura: “A imposição do sentido persiste como perspectiva reitora de toda a concepção” (p. 90). E, para mim, a vida (e o Desporto) só tem sentido, quando transcendo e me transcendo. Daqui se vislumbra que o Desporto não pode ser biologia tão-só, porque não há desporto sem sentido – o sentido da transcendência! O que é o “fair-play”, o jogo limpo, senão transcendência, que se ergue, para além do que a biologia determina? Natalie du Toit, um prodígio de vontade serena, após inquietante doença que a obrigou à amputação de uma perna, ao participar nos Jogos Olímpicos de 2008, sem uma perna (repete-se), afirmou: “A maior tragédia na vida não é não alcançar os objetivos, a maior tragédia é não tê-los”. Ora, no Desporto, há sempre objetivos, em termos de motivações, intenções, opções e não apenas de leis naturais. Como negar que, no Desporto, há o determinismo das leis naturais e a liberdade do espírito? “A matematização não pode ser uma definição de objectivos para qualquer ciência; logo, na História, que tem a ver com acontecimentos singulares, ela é inexequível. E também na Filosofia e na Psicologia ela esbarra inequivocamente contra limites” (Hans Kung, O princípio de todas as coisas, Edições 70, 2011, p. 48). De facto, muitos dos nossos objetivos (muitos dos objetivos do Desporto) são infinitamente mais ricos do que qualquer fórmula física e matemática. Os mercados financeiros, regulados pelas mais sofisticadas fórmulas matemáticas, defendidos por inteligências agudíssimas, continuam irascíveis, nervosos, impulsivos, porque… com erros singularmente impressivos!

O que é a realidade? Apetece-me adiantar: a realidade é o que eu tenho e sou! Sim, existem o universo, com a sua história de 13 biliões de anos, desde a explosão inicial; e o ser humano, com os seus 200 000 anos de vida. E existo eu, que defino os homens e as coisas, de acordo (e sirvo-me agora de Pascal) com o que me permitem o meu “esprit de géometrie” e o meu “esprit de finesse”. Quero eu dizer: eu vejo, como tenho e sou. Manifesto assim que sou filho do iluminismo, ao substituir o teocentrismo pelo antropocentrismo? A realidade são os meus olhos que a vêem e sou eu (corpo e alma, natureza e cultura, indivíduo e sociedade, razão e sentimento, memória e profecia) a discernir o que ela é. Sabendo, por isso, que são muitos os níveis explicativos da realidade. Quando oiço, nos dias embalados pelos ventos da fortuna, alguns treinadores proclamarem que os segredos das vitórias residem, única e exclusivamente no trabalho- lastimo que se esqueça que as situações de fracasso e de sucesso, de vitórias e derrotas não advêm, nem no desporto, nem em tudo o mais, da quantidade de trabalho tão-só. Tudo isso não passa de “conversa” que legitima as desigualdades sociais. No futebol, por exemplo, só excecionalmente se pode ser campeão nacional, para além do Porto e do Benfica e do Sporting. E não é porque os jogadores dos “três grandes” trabalhem mais do que os jogadores dos outros clubes, mas porque beneficiam de condições que os restantes clubes não podem proporcionar aos seus jogadores. Nem é por falta de informação dos treinadores dos clubes de mais modestos recursos que estes profissionais têm um currículo sem vitórias nos Nacionais de Futebol, mas por esta razão muito simples: não dispõem dos jogadores de classe que só os grandes clubes podem contratar. Para o senso comum, ninguém ganha porque tem valor, tem valor porque ganha, Só que o valor só pode manifestar-se, quando há condições para tanto. Um alto rumor de espanto percorre algumas pessoas, quando assistem, na TV, à explicação tática das vitórias dos “três grandes”. Como se as vitórias resultassem principalmente de razões táticas…

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto


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