O profeta (artigo de José Antunes de Sousa, 63)

Espaço Universidade 25-10-2016 12:04
Por José Antunes de Sousa
Não, não é da telenovela brasileira que falo, ainda que muitos dos desencontros que a sua trama comporta se devam ao mesmo dom certeiro que nós tão arrebatada e diligentemente exaltamos – o da profecia, justamente. Tão-pouco é da famosa obra de Khalil Gibran que desejo ocupar~me, apesar de nela se encontrar o receituário eficaz para esta impenitente maleita que nos obsidia – a de ver sempre as nuvens ameaçadoras em vez do arco-íris. Permitam-me que aponte mais para baixo – para o dedo do pé!

Permitam-me que seja mais prosaico, limitando-me ao exercício raso da pura verificação: nós somos doentiamente fixados no lobo mau! Acima de tudo, eis o que procuramos: vermo-nos confirmados na popular arte de prever o pior. Sim, que é em nós prioridade absoluta satisfazer essa compulsiva necessidade - a de se ter razão! “Eu não te disse, meu filho? Eu bem que te avisei, eu sabia que, mais dia menos dia, isto (acidente) ia acontecer” Ou seja, e traduzindo o ínvio e secreto contentamento da mãe à cabeceira do filho , na enfermaria do hospital: “Estás a ver, meu filho, o amor que a mãe te tem que; sempre preocupada contigo, previu ( e criou!) tudo isto para ti?”

Veja-se como estamos viciados na triste sina de ver mal – que mesmo quando desejamos o melhor, é sempre o pior que vemos: o nosso olhar desvia-se invariavelmente para o contrário daquilo que queremos ver. A isto se chama o vício percepcional da dissociação – desejamos uma coisa mas empenhamo-nos no seu contrário. Vício em que todos somos useiros e vezeiros – como os nossos treinadores, de futebol e demais modalidades.

Em pomposa conferência de imprensa de lançamento (termo interessante, este!) do jogo que se segue, eles são quase todos unânimes e síntonos na arte coral de prever: exibem o tímido e reverencial desejo de ganhar, mas o tempo todo é passado a identificar e a exaltar as ameaçadoras qualidades do adversário, alertando para uma certeza absoluta: “vai ser muito difícil”. O mecanismo profético funciona assim: o conductor do carro, em íngreme subida, carrega, ao mesmo tempo, no acelerador e no travão! Resultado? Pois é…. A isto chamam os psicólogos a “profecia auto-concretizada”. E isto acontece todas as semanas e em todas as jornadas internacionais. E. já agora, acontece-nos o pior porque é na experiência do pior que mais calhados estamos.

Mas o mais bizarro de tudo isto é que ser profeta da desgraça é socialmente percepcionado como sinal de sagacidade técnico-tática, de competência profissional. Tal facto se deve ao seguinte: por vício cultural, estamos todos atolados no mesmo pecado original – o de, fascinados, apenas considerarmos o mundo exterior, desprezando a nossa realidade interior – como se tudo se resolvesse a partir dos esquemas desenhados na prancheta por quem nunca, como eu, foi capaz de desenhar um pobre vaso na escola.

Não, há toda uma miríade de ingredientes, subtis e imprevisíveis; que concorrem para o desfecho sincrónico de um determinado evento. E um desses elementos, o mais importante, é o pensamento intencional que, por sua vez, veicula uma emoção: cria-se acolhendo o já criado. (Gregg Braden). Se houver treinadores, um que seja, que aceite receber esta mensagem já me considero recompensado. Em troca, prometo: a sua vida vai melhorar!

Porque é realmente comovente esse zelo beneditino em prever a desgraça – e, depois, lamentam como é incerta a vida de treinador! Sim, porque a quem não quer receber más notícias não basta trocar a caixa de correio- de nada valerá se o conteúdo das mensagens continuar sendo o mesmo. Mais assertivamente: recebe-se de volta a notícia que se envia! Quem quer receber boas notícias só tem uma coisa a fazer: esperá-las sinceramente, em vez de enviar maus presságios e ficar, à esquina, assobiando, na vã esperança de que talvez se possa ter enganado. Não, nós criamos a nossa própria realidade (Allan Wolf) – e uma das maneiras mais eficazes de algo criar é ter medo: a implícita aceitação de que isso que se teme nos pode mesmo derrubar.

Enfim, quem lança as sementes no mau solo só pode esperar colher abrolhos e escalracho. Ganha quem se sente vencedor - como o verdadeiro profeta!

José Antunes de Sousa é doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, professor visitante na Universidade de Brasília e professor convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
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