Filosofia do Desporto e Filosofia no Desporto (artigo de Manuel Sérgio, 162)

Ética no Desporto 30-09-2016 11:38
Por Manuel Sérgio
Nada é estranho à filosofia, porque nada é estranho à pessoa enquanto ser que pensa. Assim, se nada é estranho à filosofia, o desporto (atividade humana lúdico-agonística, institucionalizada e com regras universais) não o é, também, necessariamente.

Aristóteles, no quarto livro da Metafísica, define a filosofia como o estudo do ente enquanto ente, ou seja, o ser, o que persiste além dos fenómenos e da simples aparência. Fazer filosofia, portanto, é pensar o ser, ou seja, aquilo que permanece para além do fluxo acidental dos fenómenos. Folheio um livrinho da minha autoria, com 26 anos de idade, A pergunta filosófica e o desporto, para respigar o seguinte: “Na Filosofia não obramos em benefício do conhecimento, limitando-nos ao saber fenomenal, mas partimos dele, para construir conteúdos radicalmente significativos e fundamentadores (…). Fundamentar filosoficamente não é tanto perguntar pelo que o Homem tem, ou pelo que o Homem faz, mas pelo que o Homem é.

Ora, só especulando se sabe o que o Homem é, pois que se trata de uma sabedoria que se alcança, para além do fenoménico, do episódico, do imediato. Viver humanamente equivale à actualização das potencialidades do ser. Tudo muda, excepto a verdade que explica a mudança. Ora, é a verdade que explica a mudança o que a Filosofia, numa operosidade incansável, procura”. E atrevi-me até, com algum inconformismo, a uma definição de Filosofia: é o ensaio sempre renovado de querer conhecer, especulando, o ser e o sentido do Homem e da Vida, com radicalidade e universalidade e circunstancialidade” (p. 13). E, páginas adiante: “Filosofia é um permanente questionar de tudo, invocando a sua afinidade com tudo. Daí, a sua não-cessabilidade. Segundo se diz, terá sido Pitágoras o primeiro a distinguir entre “sophia” (sabedoria) e “filosofia” (amigo da sabedoria). Já então pareceu azado sublinhar que a filosofia é menos saber constituído que intérmino questionamento do real” (p. 19).

Do que precede se infere que a Filosofia do Desporto se estuda, quando se invocam os pressupostos filosóficos que deverão presidir à prática desportiva e que há Filosofia no Desporto, quando se aprofundam algumas interrogações (ocasionais, conjunturais) principalmente sobre o ser humano enquanto ator e criador do desporto e visando, quase sempre, uma ampla e radical análise da condição humana. A fundamentação filosófica é necessária na prática desportiva, porque a motricidade humana não é unicamente psicofisiologia do indivíduo, mas expressão concentrada de um itinerário onde está o homem todo e todos os homens.

O desporto pratica-se em função de uma vivência da complexidade humana, digamos mesmo: de uma consciência social. Por isso, pensá-lo supõe ciência e filosofia, dado que, no pensar, se encontra a realidade histórica onde radica. Sempre que se estuda ou investiga o desporto, há que ter em conta um horizonte de fundamentação, muito para além do que propugna o positivismo que proclama a neutralidade do desporto, liberto portanto das “contaminações” do contexto social e político. Não há desporto (como não há conhecimento) neutro, já que todo ele, esteja onde estiver, deverá contextualizar-se histórica, social, politicamente… para ser verdadeiramente entendido!

Acompanho Ortega y Gasset, quando assinala que a vida humana é a realidade primordial a definir, pois que nela se encontram enraizados os problemas essenciais que diante do ser humano se levantam. É, assim, a possibilidade do “conhece-te a ti mesmo” que se alcança mais como sabedoria do que saber. A vida nunca é computável ou medível e, sem especulação filosófica, nem dela podemos falar. Com efeito, o desporto não se resume a uma Atividade “Física”, constitui-se verdadeiramente como uma Atividade Humana. Faço minhas as palavras sibilinas de Heraclito de Éfeso, respondendo a um grupo de presumidos curiosos: “aqui também moram os deuses”. E por isso o desporto, mais do que princípio, é fundamentalmente resultado – resultado do que o ser humano é, como indivíduo e como pessoa.

Em Le jeu des possibles, editado pela Fayard, François Jacob criticava “a ideologia marxista, segundo a qual o indivíduo se encontra inteiramente moldado pela sua classe social e pela educação (…). Assim desaparece (comentava ele) toda a diversidade, toda a diferença de ordem hereditária, nas aptidões e nos talentos do indivíduo. Só contam as diferenças sociais e as diferenças na educação. A biologia e os seus constrangimentos detêm-se diante da sociedade. Esta forma extrema de analisar o indivíduo é simplesmente insustentável” (pp. 120/121). Com efeito, não pode ainda determinar-se, com rigor, as relações entre a hereditariedade biológica e a sociedade e a cultura. Todos somos biologia mas nem por isso tudo em nós se decide, única e exclusivamente, por fatores biológicos.

Se bem me lembro, Vygotski, notável psicólogo soviético dos anos 20, defendia uma conceção “histórico-cultural do psiquismo”, dando igual lugar de relevo, na análise do ser humano, tanto à biologia como à sociedade. Neste ponto, acompanho à letra o psicólogo soviético. De facto, todos somos também historicamente produzidos. Sem a generalização da educação para todos, ao longo da vida, como será possível erradicar a pobreza absoluta, como promover eficazmente os valores democráticos, como construir sociedades do conhecimento? Sem um contrato natural que faça do Homem, não o dono e senhor da natureza, mas o seu depositário, como poderemos acabar com a exploração criminosa dos recursos naturais? Sem a redefinição das exigências éticas, subjacentes ao próprio ideal dos “direitos do homem”, como lançar as bases de uma cidadania planetária e até de um desporto novo? E… Deus existe, como fundamento último de tudo o que se faz? Uma questão ainda: é inteligente ser religioso? Aqui, a inteligência não está na crença em Deus (ou no Absoluto) mas no modo como se crê.

Não esqueço o juízo de Sartre: “Se um anjo, um dia, vier falar comigo, com uma mensagem divina, como saberei eu que ele é um anjo?”. De facto, são muitas as dúvidas sobre o fenómeno religioso e as nossas relações com Deus. No entanto, é para mim evidente que existe uma ordem implícita no universo (desde a partícula mais elementar até às galáxias) oculta na mutabilidade incessante do real. E que esta ordem me aproxima de Deus! Relembro Teilhard de Chardin: “Em cada partícula, em cada átomo, em cada molécula, em cada célula de matéria, vivem escondidas e atuam, incógnitas, a omnisciência do eterno e a omnipotência do infinito”. Quando tiveram a bondade de convidar-me para Provedor da Ética no Desporto, logo perguntei quem era o diretor do PNED (Plano Nacional de Ética no Desporto) e qual o ramo do saber em que se especializara. Responderam-me que era o Dr. José Lima, um teólogo.

Dias depois, no âmbito da operosidade que o anima, à frente do PNED, conheci então no José Lima, para além de um “homo fraternus” (expressão tão do agrado do socrático e sagacíssimo Prof. José Eduardo Franco, também meu amigo fraterno) um obstinado e vígil lutador por um desporto com ética pois que, sem ética, não há desporto. Pensar não é memorizar aquilo que os outros pensam e, quando se fala em ética desportiva, dificilmente se descobre, em Portugal, um mínimo de saber e de imaginação até.

O saber só existe como pluralidade de saberes: não surpreende assim a presença, em lugar de direção, de um teólogo, no PNED. Com o José Lima, temos a certeza que, no nosso país, há Filosofia no Desporto e pode criar-se um espaço, sem os clássicos atritos da vida universitária, onde se pense a possibilidade de nascer em Portugal uma Filosofia do Desporto, como saber universitário.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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