Jorge Jesus na idade da sofística (artigo de Manuel Sérgio, 160)

Ética no Desporto 08-09-2016 20:26
Por Manuel Sérgio
Nós vivemos uma nova idade da sofística. Recordo que, em 1961, frequentava eu, como trabalhador-estudante, o primeiro ano do curso de Filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa, quando o saudoso Padre Manuel Antunes, professor de História da Cultura Clássica, nos aconselhava a leitura do livro (que nós alunos, comprávamos em tradução castelhana do Fondo de Cultura Economica) de Werner Jaeger, Paideia, los ideales de la cultura griega.

Tenho esse livro diante de mim e posso citá-lo: “os sofistas consideravam a sua arte, a retórica, como a coroa de todas as artes” (p. 274). Daí, a celebérrima frase de Protágoras: “o homem é a medida de todas as coisas”. O mesmo sofista que acrescentava não poder provar-se a existência de Deus. E nasce assim uma oralidade desbordante, a indiferença por qualquer noção de Absoluto, o ceticismo, o relativismo epistemológico. Será de não esquecer, neste interim, que a Grécia Antiga desconhecia a distinção moderna entre cultura e religião. Repito: nós vivemos uma nova idade da sofística. Como nos adversários acrimoniosos de Sócrates: a mesma forma luxuriante a mascarar falta de conteúdo; o mesmo desnorte diante da “infinita” complexidade do real; o mesmo nivelamento social onde morrem o respeito e a admiração; a mesma patética afirmação do mais atrevido individualismo; a mesma cultura sem raízes.

E, daí, os instintos à solta da vontade de poder, de um sensualismo sem freios, da mais frontal agressividade. E a mesma demagogia (hoje, ampliada pela publicidade e a propaganda) geradora de alienações sem conta e de todo o tipo de conformismos sociais e mentais. E uma questão se levanta, imediatamente: será possível, assim, informar com rigor, num tempo, como o nosso, onde a celeridade e o volume da Informação se vai transformando (pela impossibilidade de construção de um adequado conhecimento categorial) em sub-informação?

É possível informar segundo a verdade num tempo, como o nosso, onde a mentira, a parcialidade e a hipocrisia são poder e levantam restrições constantes à informação correta das ideias e dos factos? É possível acreditar na Informação, “tout court”, quando se desvaloriza o pensamento e a teoria para dar realce a jogos de opiniões, designadamente de indivíduos de muita conversa e pouco estudo e nulo saber? Como os sofistas da Grécia Antiga, também vivemos em democracia (e bem mais ampla e sólida do que a deles). Mas não é certo que hoje, mais do que nunca, o amor do sensacionalismo e do escândalo, a necessidade de “vender papel a qualquer preço”, a força dos interesses estabelecidos e o surgimento de uma nova ordem cultural, polarizada, pouco no livro e na reflexão, e muito no computador e na televisão permitem o nascimento de um tempo “pós-filosófico”? Não se põe em causa o progresso que representam o computador e a televisão, mas que não se confunda, sistematica e propositadamente, o pensamento com a conversa, com a banal opinião.

O problema, atualmente, não se situa em condenar o progresso, mas em criticar o que ele silenciou ou reprimiu. Trocar a reflexão pela comunicação, ao serviço do partido ou do clube, representa uma capitulação do pensamento diante da folclórica opinião ou conversa. Tudo o que o ser humano sente e pensa incorpora-se no mundo das palavras. Ora, no mundo das palavras de alguns comentadores (desportivos, por exemplo) não se descobre a incerteza típica de quem investiga, de quem estuda. Descobrem-se, de facto, as falsas certezas, as falsas seguranças de quem não investiga, de quem não estuda. Por isso, o ardor belicoso das palavras, em relação aos adversários, e os elogios hiperbólicos aos dirigentes e aos atletas dos seus clubes. “Pouco a pouco, começa a desenhar-se uma nova racionalidade, na qual probabilidade não quer dizer ignorância e ciência não se confunde com certeza”, disse-o Prigogine, em Les Lois du Chaos.

O Jorge Jesus é inegavelmente um treinador de futebol que conhece muito de futebol e muitíssimo dos jogadores de futebol, a sua astúcia, a sua matreirice, a sua “malandragem”, usando um brasileirismo. O Dr. Bruno da Carvalho, licenciado em Gestão e Mestre em Gestão das Organizações Desportivas, pela Faculdade de Motricidade Humana, modelo inexcedível de presidente que se sente adepto, em todas as circunstâncias das suas atuais funções no Sporting, sem manifestar qualquer sapiência “ex cathedra”, mas de perspicácia invulgar, escolheu o Jorge Jesus para treinador da principal equipa de futebol do seu Clube. Numa encruzilhada de dúvidas, diante de um feixe de treinadores que lhe ocorriam, escolheu o treinador certo, na hora certa. Sou, de facto, amigo de Jorge Jesus que muitas vezes o pudor me proíbe adjetivar, por isso mesmo.

No entanto, não escondo que um treino liderado por Jorge Jesus é das coisas belas que podem contemplar-se no futebol e onde colhi ensinamentos que me deram uma visão do futebol – que não teria, se o não tivesse conhecido. E com a proximidade que teve a bondade de permitir-me! Antes dele, conheci (e com eles muito aprendi também) José Maria Pedroto, Artur Jorge e (com um currículo inigualável) o Doutor José Mourinho. No que ao José Mourinho diz respeito, não tenho receio em adiantar publicamente que percebeu o que eu pretendia dizer com a minha tese sobre a “motricidade humana”, muito antes de alguns “doutores” que o mais cego gregarismo impede de ver claro e de ver longe. “Hic et nunc” (no mundo do futebol e agora) no meu modesto entender, dificilmente terá par, como treinador de futebol. Mas eu ocupava-me do Jorge Jesus que soube fazer uma síntese prático-teórica do futebol de indiscutível originalidade e eficácia. À sua maneira, isto é, partindo da sua prática profissional transformou-se num dos mais fecundos e engenhosos treinadores que o futebol português produziu.

Diante das horas e horas, vividas por Jorge Jesus a praticar e a teorizar o futebol, estranho que haja tantos intérpretes das palavras do treinador do Sporting, cientes de que retratam, com fidelidade, o seu pensamento. E pessoas (nem sempre, logicamente) sem a qualidade-mestra de quem, verdadeiramente, investiga e estuda: a desconfiança na facilidade em improvisar e concluir. Que o Sporting Clube de Portugal é o próximo campeão nacional?... Pode ser, de facto! Até os meus discretos censores, sobre este assunto, pensam como eu. Pode ser! E aqui começa a imprevisibilidade da previsão!

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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