O Rafa e a rifa (artigo de José Antunes de Sousa, 59)

Espaço Universidade 25-08-2016 16:39
Por José Antunes de Sousa
Começo com uma confissão: era sobre o mais recente feito do Futebol Clube do Porto que, à partida, me propunha falar: a sua ousada travessia do Rubicão sob as ordens de um general que, desafiando as leis de uma lógica defensiva, conquistou Roma e, à semelhança de Júlio César que, no seu aguerrido confronto com Pompeu, inaugurou, em boa medida, o futuro Império Romano, este novo General, Nuno, de seu nome, através da irónica e simbólica decapitação de Roma, está, quem sabe, a restaurar um império que ameaçava desmoronar-se.

E não é deste feito luso que quero falar porque as minhas previstas referências ao lendário gesto incendiário de Nero ou qualquer alusão a um abalo com epicentro em Roma provocado pelo recital em pleno estádio olímpico chocam indecorosamente com a trágica realidade de um devastador sismo que, horas depois do desgosto dos romanos, reduziu a escombros cidades de perfil medieval, não muito distantes da capital e sob os quais encontraram a morte centenas de seres humanos – e perante tão brutal tragédia soaria a obsceno qualquer glosa a partir do feito do Porto que, claro, se saúda, mas que, neste contexto, cede toda a prioridade à cadeia de solidariedade que se impõe.

Mais: e em que o próprio mundo do futebol, fazendo da sua bélica coreografia instrumento de humanização, deveria empenhar-se activamente canalizando algumas das gigantescas receitas que produz para a urgente e imperativa campanha de socorro às vítimas e de ajuda à reconstrução das cidades atingidas. Porque se o futebol se quiser identificar apenas com a pirâmide do lucro que gera perderá definitivamente o já pálido e macilento rosto de um defunto anunciado – ele tem que teimar em manter um mínimo de fisionomia humana!

Neste breve e fugaz texto, o que pretendo é dobrar-me respeitosamente e desdobrar-me – numa sentida homenagem a todos os que foram atingidos, pela calada da noite, por tão terrível cataclismo e num veemente apelo: que a acção do futebol não se fique pelo registo, pobre e encolhido, da pura reacção protocolar, consubstanciado no dúbio, desvalorizado e, já agora, quase sempre mal contado minuto de silêncio. O grito abafado da calamidade reclamam mais, muito mais – não apenas a reacção, mas uma efectiva e edificante proactividade!

E, neste particular, convém ter presente o efeito mimético e replicativo que um gesto claro e significativo de solidariedade produz junto das massas que seguem apaixonadamente as incidências do mundo do futebol – e que, ao menos por uma vez, os adeptos possam discutir animadamente não sobre quem gasta mais em sonantes contratações, mas quem dá mais para acudir a quem sofre. Para que as Fundações não sejam nos clubes apenas um ingrediente de maquilhagem comercial e propagandística!

E, a propósito de contratações, uma breve referência à telenovela “Rafa” que não há maneira de lhe vislumbrarmos o desfecho: tudo acertado entre os clubes e entre clube comprador e o jogador – mas ninguém que se disponha a colocar a famosa rúbrica na não menos famosa minuta. Porquê? Ao que se diz, simplesmente porque ninguém quer pagar a percentagem prevista para a intermediação, isto é, ninguém está disposto a robustecer com um milhão e seiscentos mil Euros a conta bancária do Senhor Araújo – talvez por acharem que o seu papel não justifica tão avultada cobrança, por considerarem, digo eu, que, afinal, o que ele fez foi limitar-se a deixar que o Rafa se exprimisse criativamente nos relvados e que, assediado, optasse pelo Benfica.

Dizem-me que está previsto que seja o clube vendedor a arcar com esse apendicular pagamento, mas, talvez por achar demasiada a esmola, o certo é que tarda a satisfação dessa cláusula. Mas o que esta rábula parece traduzir é que, lá no fundo, ninguém morre de amores pelos chamados agentes, empresários, que vieram, reconheça-se, engrossar as fileiras do comensalismo argentário no interior da FIFA e, com isso, tornando ainda mais complexa a teia de interesses que a domina.

Rafa, na gigantesca e por vezes exibicionista quermesse em que a indústria do futebol se converteu, é uma daquelas raras rifas por que todos se esmifram, na demanda de um negócio sortudo, por encontrar – ele é a rifa que paga a festa anual lá da santa terrinha – com vira do Minho e tudo!

E por ser tão valioso, descomunalmente valioso para o burgo, ninguém quer ver tal bolo amputado de tão descabelada e importante fatia em favor de alguém que, em tudo isto – acreditam os envolvidos – se limitou a fazer o que Deus lhe permite: respirar!

Solução? O tempo: dia 31 de Agosto, esta quermesse fecha!

José Antunes de Sousa é Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, Professor Visitante na Universidade de Brasília e Professor Convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
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