Jogos Olímpicos: O Importante é Participar (artigo de Gustavo Pires, 42)

Olimpismo 10-08-2016 23:39
Por Gustavo Pires
Telma Monteiro acabou por ganhar a medalha olímpica que, com toda a justiça, há muito, ambicionava. Parabéns. Devemos ficar felizes por ela.

- Não pelo País porque nos Jogos Olímpicos não participam países mas atletas.

- Não pelo Governo na medida em que quanto menos o Governo se meter no Movimento Olímpico tanto melhor.

- Não pelos treinadores que mais não fazem do que cumprir a sua profissão com brilho e proficiência.

- Não pelos dirigentes que devem estar ao serviço dos atletas e não os atletas ao seu serviço.

Devemos ficar felizes pelos resultados que, a título individual, os atletas obtêm nos Jogos Olímpicos porque eles representam uma extraordinária capacidade de superação, deles e das suas famílias. Por isso, a judoca brasileira Rafaela Silva dedicou a medalha de ouro conquistada, não a Temer o presidente do Brasil, não a Nuzman o presidente do Comité Olímpico Brasileiro, não ao Comité Olímpico Brasileiro ou até ao Brasil, mas “às crianças da Cidade de Deus”. Nem mais.

O desporto e o Olimpismo, como diria Marcelo, também devem ser envolvidos em afetividades. Por exemplo, a afetividade que levou o judoca português Sergiu Oleinic, antes de partir para o Rio de Janeiro, a afirmar querer conquistar uma medalha nos Jogos Olímpicos a fim de retribuir aos portugueses tudo o que recebeu desde que chegou da Moldávia, o seu país natal. Não conseguiu. Que importa? O desporto não se faz só de vitórias. Faz-se de sentimentos, de solidariedades e de boas intenções.

A este respeito, a comunicação social também informou que a judoca Joana Ramos saiu do “tatami” desfeita em lágrimas e disse: "Dei tudo para honrar o meu país". O que aconteceu foi que a Joana Ramos perdeu com a chinesa Yingnan Ma, 5ª do ranking e, mesmo assim, acabou por ficar num extraordinário nono lugar. Parabéns. Não tem de se lamentar nem de se desculpar. Perante ninguém e, muito menos, dos portugueses que só podem estar orgulhosos dela. Se assim o entender, como o fez a Rafaela Silva, até pode dedicar o seu extraordinário e honroso nono lugar a quem lhe seja mais querido. Afetividades.

Os atletas nos países democráticos não podem ser colocados numa situação de pressão psicológica tal que se consideram na obrigação de se desculpar quando os resultados desportivos não são os mais desejados. Não podemos aceitar a institucionalização de uma cultura desportiva idêntica à da Coreia do Norte em que o halterofilista Om Yun-Chol, por não ter ficado em primeiro lugar, apressou-se a pedir desculpas ao querido líder Kim Jong Un. Aceitar tal, é pôr de lado todos os valores morais que devem presidir ao Movimento Olímpico.

A Joana Ramos foi extraordinária e é assim que ela se deve sentir.
Por isso, receio que, a partir de um inapropriado “nacional olimpismo” cujo objetivo é transformar o desporto num “desígnio nacional”, se possam estar a fazer, mesmo que inconscientemente, autênticas “lavagens ao cérebro” aos atletas. Mas receio ainda mais que o Presidente da República, profundamente mal aconselhado, também esteja a contribuir para uma cultura coletiva de alienação pelo desporto nunca sequer vista ao tempo do antigo regime.

Em matéria de desporto, não são admissíveis políticas públicas que:

- Coloquem os atletas, tal qual serviço militar, a competirem ao serviço da pátria.

- Conduzam os atletas a terem de demonstrar o seu patriotismo através da conquista de resultados desportivos.

- Cultivem rituais exorcistas que obrigam os atletas a, publicamente, penitenciarem-se pelos resultados desportivos menos conseguidos.

- Permitam a apropriação pelo Estado, ou por qualquer outro organismo público ou privado, dos resultados desportivos dos atletas.

- Promovam um histerismo patrioteiro coletivo, alienando os portugueses dos seus verdadeiros problemas, bem como dos do País.

- Desencadeiem uma inversão de valores relativamente àquilo que verdadeiramente é importante para os portugueses e o País.

Nos Jogos Olímpicos podem-se até ganhar muitas medalhas. Elas têm um extraordinário significado pessoal. Contudo, não é por isso que as políticas públicas deixam de estar profundamente erradas. E, entre nós, de há vários anos a esta parte, as políticas públicas em matéria de desporto estão profundamente erradas. Em termos potenciais, têm todos os ingredientes para que o desporto possa vir a causar graves problemas.

Mas o maior problema é que os dirigentes políticos, obcecados pelo imediatismo, estão profundamente enganados. Deviam começar por perceber que não têm de responder pelas medalhas olímpicas, têm é de responder pelas políticas públicas que, em matéria de desporto, são capazes de desencadear ao serviço da generalidade dos portugueses entre eles os que desejam evoluir na via do alto rendimento, desde que demonstrem condições para isso.

Quando se anuncia a possibilidade de poderem vir a ser conquistadas seis medalhas nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (2106) devia também ser explicado como é que isso é possível. Como é possível, ao cabo de oito anos de profunda crise económica, financeira e social, poderem, eventualmente, ser conquistadas seis medalhas olímpicas. Como é que tal é possível quando em Londres (2012) foi obtida uma única medalha; em Pequim (2008) duas medalhas; em Atenas (2004) três medalhas; e em Sydney (2000) duas medalhas?

A resposta é simples. Diversos estudos, produzidos por académicos e por centros de estudos de grandes empresas, concluíram que, em países pouco desenvolvidos ou numa profunda crise de desenvolvimento, é tão só necessário um pequeno incremento financeiro em determinadas modalidades do Programa Olímpico para que daí possam, com grande probabilidade, advir resultados nas competições internacionais. Em conformidade, sabendo-se que as verbas para o desporto têm vindo a diminuir, conclui-se que o financiamento do alto rendimento e da preparação olímpica foi reforçado à custa de verbas que, naturalmente, deviam ser aplicadas na promoção e generalização da prática desportiva. Acresce ainda que, num país com graves problemas no âmbito do desemprego jovem, infelizmente, a opção desportiva passou a apresentar-se como uma saída de vida para muitas vidas sem saída nenhuma à vista. E como a formação académica dos atletas é, em grande percentagem, de nível superior, a tarefa da preparação olímpica acaba por ficar facilitada. Porquê? Em termos de analogia, diremos que, tendo-se constatado que, nos cenários de guerra, quanto melhor era a formação académica dos soldados melhor eles suportavam as dificílimas condições de combate, assim também, nos cenários de alto rendimento desportivo, quanto mais elevada for a formação académica dos atletas, melhor eles suportam as cada vez mais exigentes condições das diversas variáveis do treino dirigido para o alto rendimento desportivo. Em conformidade, os resultados desportivos extraordinários conseguidos nos três últimos anos, se em termos individuais só podem ser objeto de admiração, em termos sociais devem ser observados tendo em atenção a conjugação virtuosa de um certo número de variáveis profundamente negativas.

O que está a acontecer é que, à margem não só da Constituição da República Portuguesa como da própria Carta Olímpica, estão a ser aplicados recursos para o alto rendimento que, em termos de equidade social, deviam estar a ser aplicados na promoção da prática desportiva de base, sobretudo entre as populações com maiores carências. Segundo os últimos dados do “Eurobarometer”, 64% dos portugueses afirmam não ter qualquer prática desportiva ou simples atividade física o que significa uma das piores taxas da Europa. E este resultado, desde 2009, tem vindo a piorar. Em consequência, os dirigentes das Federações Desportivas, enquanto assistem impotentes, por um lado, à incrível longevidade de muitos atletas de alto rendimento e, por outro lado, ao definhar do número de praticantes das suas modalidades desportivas, ensaiam ultrapassar tal problema que hoje assume contornos no domínio da moral pública, com a obtenção de medalhas olímpicas que, ao “alegrarem o povo”, alimentam a comunicação social e acabam por mascar o problema.
Infelizmente, hoje, o “espírito olímpico” está condicionado aos ditames da política e do dinheiro. Só vale quem rende lugares de pódio e o desespero da Joana Ramos representa bem o estado de espírito em que os atletas podem estar a ser colocados. Ora, o desporto não é isto. O desporto, na sua seriedade, deve ser um constante estado de alegria e não de angústias existenciais.

Por isso, seria bom que os dirigentes desportivos e políticos voltassem ao pensamento de Pierre de Coubertin que, nos tempos que correm, cada vez se revela mais atual. Dizia ele: "o importante na vida, não é o triunfo, mas o combate; o essencial não é ter vencido, mas ter bem combatido. Espalhar estes preceitos é preparar uma humanidade mais valente, mais forte, portanto, mais escrupulosa e mais generosa". Nesta perspetiva, não faz qualquer sentido que um atleta de gabarito, depois de ter participado num competição justa nobre e leal venha pedir desculpa a quem quer que seja por não ter atingido os resultados almejados.

Esta divisa ficou-se a dever a Ethelbert Talbot, bispo da Pensilvânia (EUA), que a proferiu num sermão dirigido aos atletas que participavam nos Jogos de Londres (1908). Disse ele: “o importante nos JO não é ganhar mas sim participar, tal como o essencial na vida não é conquistar mas lutar bem”. Coubertin referiu-se à metáfora do Bispo Talbot no discurso proferido a 24 de julho, aquando do banquete de encerramento dos JO de Londres (1908).

E porque é que tanto o Bispo Talbot como Pierre de Coubertin fizeram tal proclamação?

Para explicar aos atletas ingleses e americanos que participavam nos Jogos Olímpicos de Londres (1908) que a luta chauvinista em que se envolveram nas competições desportivas, para além de não ter qualquer sentido, estava profundamente errada.

Os Jogos Olímpicos são muito mais do que a vitória desportiva pelo que os atletas não têm de se sentir culpados quando, na ausência dos favores da deusa Nike, não conseguem a almejada vitória.

Nunca existirão vencedores sem que exista um espírito de participação que deve ser conseguido por meio de políticas públicas em que o alto rendimento, através do “efeito de ídolo”, esteja integrado na base do Sistema Desportivo.

Políticas públicas que permitem que os atletas sejam submetidos, por quem quer que seja, a autênticas “lavagens ao cérebro”, levando-os, na sua ingenuidade, a assumir responsabilidades que não lhes competem, mesmo que se ganhem muitas medalhas olímpicas, não são dignas de países democráticos.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
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