Prognósticos: uma certa (meta)física (artigo de José Antunes de Sousa, 57)

Espaço Universidade 31-07-2016 14:24
Garanto que foram mais de cem as vezes que, em diferentes e insuportáveis programas de tédio, ouvi: dos três, quem acha que parte em vantagem para este campeonato 2016/2017? Sob a comovente confissão de que «não sou bruxo», lá se vão entretendo todos, horas a fio, num exercício sincrético, que integra ínvios princípios de uma aritmética gaguejante, de uma psicologia de trazer-por-casa e claro, de uma certa fezada, bem ao gosto do Bandarra que todo o português se considera. E, ao fim, alguém terá acertado – claro!

Que o Benfica parte com a vantagem psicológica de ser tricampeão, mas também isso pode, quem sabe, revelar-se uma desvantagem, a que resulta da pressão adicional de ter que conseguir algo inédito, o tetra, além da dificuldade em suprir a sangria a que a equipa foi sujeita, com a perda de elementos influentes. E argumentos a favor e contra abundam e contemplam todos os gostos – como os pareceres jurídicos: só dependendo de quem os encomenda!

O exemplo da época passada é bem sugestivo: todos, mas rigorosamente todos, davam o Benfica como arredado da conquista do título: tinha perdido para o rival do outro lado da rua o seu treinador triunfador e, como se isso não bastasse, tinha cedido ao fascínio argentário de uma digressão peregrina, bizarra e autofágica. Neste caso, os argumentos dos sofistas paineleiros pareciam irrepreensíveis e imbatíveis – e a verdade é que o clube da Luz pareceu, em dado momento, morto e definitivamente apeado do seu pedestal. O que só prova que para o sucesso concorrem também, eu diria sobretudo, outros elementos, de uma outra dimensão, que não apenas os que uma métrica silogística pode identificar e elencar – muitos outros!

À partida para mais uma maratona futebolística, todos se interrogam, uma vez mais: quem parte em vantagem?

Se nos ativermos aos critérios positivistas que esses comentadores costumam alardear, nenhum – que todos tem que partir da mesma linha de partida. Aceitam-se apostas – algumas mais arriscadas que outras: por exemplo, há quem inclua no lote o Sporting de Braga!
Mas será que algum parte mesmo com vantagem? Sim, embora não necessariamente aquele que os nossos preconceitos elegem – como o caso do Benfica da última época bem demonstra.

Eu, por mim, insistindo em que há elementos que os apostadores encartados ignoram ou ostensivamente negligenciam, era capaz de refugiar-me num certo critério, o que foi exposto pelo meu professor de Física na sua primeira aula – elementar, caro Watson!

Vejamos: O Futebol Clube do Porto, que os adeptos de uma certa filosofia oriental dirão que está a pagar o karma de desmandos em tempos de impunidade, tem em Galileu um bom mestre que explica a sua queda: o plano inclinado – e no sentido descendente dá-se a aceleração da queda do corpo animado da força gravitacional. A dificuldade do Porto é dupla, portanto: suster a queda, isto é, contrariar a lei da gravidade, e promover a inversão do sentido da marcha, agora ascensional no referido plano inclinado, o que implica necessariamente uma desaceleração. À cautela e, quem sabe se por algum acto de contrição, os dirigentes não se limitaram a invocar o (Divino) Espírito Santo – contrataram os seus criativos e inspirados serviços. Mas como Deus nada faz sem o intencional concurso humano, cá estaremos nós para ver se foi suficiente a acção do Espírito Santo.

Travar a descida louca da montanha e travar a tempo de evitar o precipício – eis o que se exige ao FCP a quem espreita a trágica sina do mito de Sísifo!

O Sporting Clube de Portugal: afinal esteve tão perto! Tão perto que parecia já lá ter chegado. Todos neste clube pensam que só falta um pequeno passo para entrar no céu – e falta. Mas há um pormenor que faz de tal passo um passo de gigante: ao Sporting não cumpre apenas dar o pequeno passo que parece faltar para a glória, não se trata só de percorrer resolutamente a pequena distância para o umbral da felicidade, não: a distância, por muito curta que pareça ser, o clube de Alvalade terá inevitavelmente que percorrê-la carregando com o peso insuportável de todas as decepções acumuladas – e da venenosa memória de tudo isso! E bem sabemos como é pérfido o papel da memória que tende à compulsiva reedição do que os sulcos neuroquímicos do cérebro registam e guardam. Para dar este pequeno passo de gigante não basta o jeito para ler bem o jogo – que há uma outra escrita que carece de alma para ser devidamente decifrada.

Falta o Sport Lisboa e Benfica: vantagem?

Mas que pode ser engolida, num hausto autofágico, pelo medo de não ser capaz de corresponder a tamanho desafio de um inédito tetra. Voltando à minha primeira aula de Física: o mais difícil não é ter subido até ao alto, mas, uma vez lá, lá se manter em perfeito estado de equilíbrio. O que ao Benfica se pede é a difícil arte do funicular – a arte do aramista! A ameaça da lei da gravidade, sendo obviamente comum a todos os corpos, leia-se clubes, ela é particular gravosa no caso do Benfica – pelo que o trambulhão poderá implicar: e quanto de mais alto se cai maiores os danos sofridos.

A imagem é-me sugerida pela volta a Portugal em bicicleta: todos demandam o alto da montanha do sucesso: mas, depois do cimo alcançado, todos descem ao baixio, leia-se à linha de terra – que o hotel é cá em baixo.

José Antunes de Sousa é Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, Professor Visitante na Universidade de Brasília e Professor Convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
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