Henrique Calisto e o livro do seu desassossego (artigo de Manuel Sérgio, 154)

Ética no Desporto 30-07-2016 21:33
Por Manuel Sérgio
Quando nos deitamos ao estudo da velha filosofia e do que mais profundamente define o ser humano, não é preciso desbaratar horas sobre horas, para concluir que, na nossa tradição, na filosofia ocidental, se considera que a vida contemplativa é bem superior à vida ativa. Perante a perplexidade de alguns intelectuais, em infatigável vibração com o passado, Hannah Arendt diz precisamente o contrário, a ação, ou seja, ”a interação entre os humanos e a sua tomada de decisões, em relação à vida comum, isto é, a política”, é bem superior à vida contemplativa. Também eu já escrevi, há muitos anos, que a prática é mais importante do que a teoria e a teoria só tem valor, se for a teoria de uma determinada prática. Se bem que todos tenhamos um fim, todos somos seres “luciferinos”, quero eu dizer: que dão e disseminam luz.

E é pela “práxis”, com uma pessoa a investir-se inteira, que a luz surge, em todos os dimensionamentos da condição humana. Teorizar tão-só, mesmo com argúcia e bom senso, não chega para transformar... sem a prática. Sempre que vou ao Porto, quer para lecionar num seminário, quer para proferir uma conferência, o Dr. Lourenço Pinto. presidente da A.F.Porto, o Prof. José Neto e ainda os professores Neca e Henrique Calisto não deixam de “estar” na assistência, para escutar-me e (generosamente) criticar-me. Neste mundo, não existem ideias, existem pessoas com ideias – ideias que nascem principalmente das nossas memórias. É verdade: nós somos principalmente memória e, muito raramente, profecia. Somos a memória do que lemos, do que amámos, do que vivemos. O professor Henrique Calisto, pela sua abertura à novidade, traz sempre, com ele, um livro. E justifica-se, com um ligeiro sorriso: “É o livro do meu desassossego”. E continua, com uma ironia arguta: “Cada livro que leio é mais um motivo de desassossego porque, após a leitura, são muitas as questões que ficam a nadar, no mais íntimo de mim mesmo”.
De facto, o que distingue as ciências da ideologia é o método que, nas ciências, não cessa de questionar. Depois, no âmbito das ciências hermenêutico-humanas, onde o desporto se situa e onde portanto há mais compreensão do que explicação, um uso afoito do modelo matemático, típico das ciências ditas “exatas”, parece nem sempre adaptar-se à imprecisão da complexidade humana, que escapa, frequentemente, às certezas do cálculo. O professor Henrique Calisto, um homem com “mapas-mundi” na alma, pois que já trabalhou no futebol de terras para mim, lisboeta de Belém, Ajuda, Cais do Sodré, Chiado, Campo Grande e Benfica, quase ignotas – o professor Henrique Calisto, sacudido como um golpe de vento, tem sempre tempo para questionar-me: “Qual é então o paradigma científico da prática desportiva?”. Igual pergunta já a escutara ao Fernando Vaz e a José Maria Pedroto. De facto, sem ela, o desporto não se entende. Ainda há doutores, na área do desporto, que julgam, lá do alto da sua sapiência, ou seja, vendo tudo a seus pés, que o paradigma científico da prática desportiva é a fisiologia. Ora, quem já trabalhou num departamento de altíssima competição desportiva, ou já dialogou com os que aí trabalham, sabe que é a “condição humana” e não apenas a fisiologia o paradigma científico do desporto. Ainda não cicatrizei todas as feridas que me fizeram aqueles que, no país inteiro, passaram a olhar-me como a um hereje-sem-um- arrependimento-da-derradeira-hora, logo que lhes chegou a notícia do meu doutoramento. Nas provas públicas, para doutor, eu tive a “desfaçatez” de sustentar que, para mim, não havia, nem educação física, nem preparação física pois, em ambos os casos, quando se educa ou se treina o físico, também o ser humano, na sua complexidade, se educa e se treina, inevitavelmente. Mesmo que não se queira...
Mas, dizia eu que o professor Henrique Calisto já andou por mares e montes onde poucos portugueses chegaram. E com um sucesso só reservado aos que merecem generalizado respeito e admiração. Depois de treinar, em Portugal, o Boavista, o Salgueiros, o Braga, a Académica, o Varzim, o Rio Ave, o Leixões (onde jogou, na formação e como profissional), o Penafiel, o Chaves, rumou até à Tailândia e ao Vietnam. Neste país, onde trabalhou dez anos com a seleção nacional vietnamita, conseguiu uma vitória que é um marco luminoso, na história do Vietnam: ganhou a Taça do Sudeste Asiático de Futebol. Nunca, antes e depois dele, ninguém conseguiu igual vitória. O seu nome tem um lugar de honra, nas mais felizes lembranças da vida daquele país. Nos cursos de Desporto do Vietnam, ele foi “mestre dos mestres”. Ouviam-no com tanto interesse que goza ainda de memória impressa no livro dos ilustres da nação. Falando de Henrique Calisto, cumpre lembrar também que foi um dos fundadores da Associação Nacional de Treinadores, com Pedroto e Fernando Vaz. Foi mesmo o seu primeiro presidente. Remexendo no seu currículo, ainda o encontramos, sempre com um desejo enorme de mudança, na Comissão Nacional do Partido Socialista, partido que representou e viveu, em muitíssimas outras funções e situações. Para mim, já o digo há muitos anos, a transcendência é o sentido da vida. Quem não se transcende, quem não luta por superar os seus medos, as suas limitações, as suas inseguranças, os seus condicionalismos físicos, intelectuais e morais – já não vive! Esta é, para mim, a grande certeza. O professor Henrique Calisto subscreve também esta minha ideia. Para ele, o descanso resume-se ao reagrupar de amigos e de forças, para subverter a situação injusta. Daqui se deduz que nunca nele senti qualquer renúncia da consciência crítica, nem a transferência, para outrém, da frontalidade e do risco. É, sob muitos aspetos, uma “avis rara” o professor Henrique Calisto.

Relembro agora o livro do desassossego (Tinta da China, Lisboa, 2016) do Fernando Pessoa: ”Muitos têm definido o homem e, em geral, o têm definido em contraste com os animais. Por isso, nas definições do homem é frequente o uso da frase: o homem é um animal e... um adjetivo. Ou o homem é um animal que e... diz-se o quê. O homem é um animal doente, disse Rousseau, e em parte é verdade. O homem é um animal racional, diz a Igreja e em parte é verdade. O homem é um animal que usa ferramenta, diz Carlyle, e em parte é verdade. Mas estas definições, e outras como elas, são sempre imperfeitas e laterais” (p. 431). De facto, um ser humano é sempre mais do que tudo o que possamos dizer dele. Trata-se de um ser aberto à transcendência: quando julgamos conhecer demasiadamente bem uma pessoa, cedo chegamos à conclusão como são precárias ou mesmo um puro equívoco as nossas opiniões a seu respeito.

No entanto, sabendo embora da minha imperícia a retratar o professor Henrique Calisto, permito-me escrever, sem receio, que a sua curiosidade intelectual (o seu desassossego) parece não ter limites e a sua honestidade, a sua generosidade não parecem tocados pelo ódio ou pela indiferença. Por fim, a sua segura formação crítica diz-nos que não se desperdiça o tempo, quando o escutamos, atentamente. “Todo um homem”, nas palavras de Unamuno.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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