Mais Olimpismo, Mais Futebol, Mais Futuro… (artigo de Gustavo Pires, 40)

Olimpismo 21-07-2016 22:08
As perguntas que se colocam são simples: O que é que os portugueses devem esperar do Comité Olímpico de Portugal (COP)? Quais são, verdadeiramente, os serviços que o COP deve prestar aos portugueses e ao País?

Ora bem, os serviços que o COP deve prestar aos portugueses e ao País, para além do estatuído na Carta Olímpica, estão expressos na Lei de Bases da Atividade Física e do Desporto (Lei nº 5/2007 de 16 de Janeiro).

E o que é que diz a Lei? No nº 2 do artigo 12º a Lei diz o seguinte: “O Comité Olímpico de Portugal tem competência exclusiva para constituir, organizar e dirigir a delegação portuguesa participante nos Jogos Olímpicos e nas demais competições desportivas realizadas sob a égide do Comité Olímpico Internacional,…”. Assim sendo, a constituição da Missão Olímpica portuguesa aos Jogos Olímpicos é a função principal que, de acordo com a Lei de Bases da Atividade Física e do Desporto, o Estado Português, em regime de exclusividade, confere ao COP.

Ora, perante o que se está a passar com o futebol, em que cerca de quarenta jogadores, no seu pleno direito, recusaram ser selecionados a fim de fazerem parte da Missão Olímpica, qual é a conclusão que os portugueses podem tirar. Claro que, de acordo com a tradição, a conclusão politicamente correta é a eterna: a responsabilidade é do futebol, dos malandros dos presidentes dos clubes e dos futebolistas que não têm vontade própria. E, depois, concluiu-se “com chave de ouro”: O Comité Olímpico Internacional (COI) e a Federação Internacional de Futebol (FIFA) que resolvam o problema. A partir de então, todos ficam de consciência tranquila. No entanto, é importante que se apurem as razões que conduziram a tal situação.

A primeira participação olímpica portuguesa foi em Estocolmo (1912). Desde então, os portugueses competiram no futebol nos JO de Amesterdão (1928) (5º), Atlanta (1996) (4º), e Atenas (2004) (14º). Mais recentemente, durante o corrente século, o futebol não falhou nenhuma fase final de um Europeu ou Mundial, contudo, só esteve presente nos Jogos Olímpicos de Atenas (2004). Por isso, é perfeitamente razoável perguntar: Porque é que o futebol nacional, ao longo de tantos anos, só esteve presente por três vezes nos Jogos Olímpicos? A resposta é muito simples: Porque, de há muito tempo a esta parte, a generalidade dos dirigentes olímpicos, ao contrário do próprio Pierre de Coubertin, está convencida que tem “sangue azul”. Em consequência, o futebol é considerado a “ovelha ranhosa” da famigerada “família olímpica” que não gosta de ser incomodada com os problemas da bola.

O futebol é um jogo simples. Todavia, há muitos anos que, no domínio do Movimento Olímpico, se sabe que o futebol não é uma questão fácil. Nem de tratar, nem de resolver. Sempre assim foi nos mais diversos países. No próprio COI já se considerou a possibilidade de excluir o futebol do Programa Olímpico. No entanto, não é por isso que não se deve fazer um esforço competente a fim de encontrar soluções para problemas que, há muito, estavam identificados.

Assim sendo, para além das alegadas justificações pessoais, é necessário encontrar uma explicação para a recusa dos jogadores de futebol de fazerem parte da equipa olímpica uma das maiores honras que um atleta pode apresentar no seu currículo desportivo. Ora, as explicações só podem ser encontradas ou na Federação Portuguesa de Futebol (FPF) ou no COP. Quer dizer: Cumpriu a FPF as suas obrigações? Cumpriu o COP as suas obrigações?

O que se sabe é que, ao contrário do passado, a FPF cumpriu com êxito a sua missão ao obter os resultados desportivos que permitiram ao COP integrar na Missão Olímpica aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (2016) uma equipa de futebol. Quer dizer, o trabalho da FPF, eminentemente técnico, acabou por ser coroado de êxito.

O problema é que da parte do COP que, como diz a Lei, é a única entidade a quem compete “constituir, organizar e dirigir” a Missão Olímpica, não existiu a competência necessária para fazer o “trabalho de casa”. Quer dizer, não houve quem desenvolvesse os necessários trabalhos de âmbito político junto da FPF e dos clubes a fim de, numa estratégia de desenvolvimento do futebol nacional, evitar a humilhante situação em que a Missão Olímpica aos Jogos do Rio de Janeiro (2016) foi colocada. Em consequência, a responsabilidade da constituição, organização e direção da equipa olímpica de futebol, inacreditavelmente, acabou por cair sobre os ombros de Rui Jorge o selecionador que, segundo o semanário “Expresso”, dos 57 telefonemas que, em regime de urgência, foi obrigado a fazer, só conseguiu obter 18 respostas positivas! E tudo isto aconteceu sob o silêncio sepulcral do COP.

Por isso, as perguntas que se colocam são as seguintes: Como é possível o presidente do COP ter deixado um problema de tal gravidade e há muito conhecido, acabar pessimamente resolvido e na praça pública? Com é possível o presidente do COP não ter conseguido encontrar uma solução com um mínimo de dignidade, quando teve mais de três anos para o fazer? Como é possível o presidente do COP não ter encetado um diálogo com a FPF e os principais clubes a fim de, através de um protocolo, garantir, com um mínimo de dignidade, a constituição de uma equipa olímpica de futebol?

A resposta parece-me óbvia: Porque o presidente do COP ao desencadear um conflito com o SL Benfica, o maior e mais prestigiado clube português, quebrou toda e qualquer comunicação baseada na confiança com os clubes portugueses.

O que aconteceu foi que uma das primeiras atitudes do presidente do COP, depois de ter sido eleito em 2013, foi a de, escusada e injustamente, criticar o SL e Benfica e, em consequência, provocar um conflito com o presidente do Clube! Então, Luís Filipe Vieira, profundamente ofendido, expressou o seu sentimento, exigindo a demissão do presidente do COP que, infelizmente, à boa portuguesa, fez orelhas de mouco. Quer dizer, não percebeu que se devia demitir uma vez que não havia sido eleito para, a título privado ou institucional, criticar o SL e Benfica ou qualquer outro clube mas para constituir, organizar e dirigir a Missão Olímpica aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (2016).

Perante a provocação ao SL e Benfica pode perguntar-se: Que necessidade tinha o presidente do COP de provocar um conflito absolutamente inútil com o SL e Benfica? E, por extensão, com os demais clubes portugueses.
Podem existir muitas explicações, todavia, para nós, não acreditamos que o conflito atiçado pelo presidente do COP se tenha tratado de um descuido de incompetência ou como, com toda a acuidade, recorda José Augusto Rodrigues dos Santos, de uma das suas já antigas contradições politico-ideológicas.

Pelo contrário, tratou-se da confirmação de uma perspetiva neomercantilista que, desde 2004, ao tempo dos governos de Durão Barros e, depois, de Santana Lopes, enquadra a opção estratégica para o desenvolvimento do desporto em Portugal, suportada nos Centros de Alto Rendimento vocacionados para o rendimento desportivo em detrimento dos clubes tradicionais vocacionados para a promoção da prática desportiva.
O presidente do COP, com a sua atitude para com o SL e Benfica, mostrou que, para ele, os clubes tinham pouca importância. Ao fazê-lo, perdeu toda e qualquer capacidade para dialogar com os clubes porque ficou em causa o princípio da confiança. E, em resultado, os jogadores de futebol, no seu pleno direito, enquanto funcionários dos respetivos clubes, recusarem a sua participação na equipa olímpica.

Talvez o presidente do COP tenha aprendido que, sem o empenho dos clubes, não há Missão Olímpica. Já o devia saber antes de ter ocupado o cargo. O problema é que, o que se está a passar é, não só, uma vergonha nacional como internacional. Por isso, enquanto principal responsável pela triste situação em que colocou a Missão Olímpica espera-se que, simplesmente, se demita. Claro que não o fará. Nem lhe ficava bem.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
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