Hóquei em Patins: campeões europeus! (artigo de Manuel Sérgio, 152)

Ética no Desporto 21-07-2016 18:45
Derrotando todos os adversários por concludentes resultados, incluindo a Espanha (6-1) e a Itália (6-2), Portugal voltou a subir ao primeiro lugar do pódio desta modalidade, no âmbito do continente europeu.

O Ângelo Girão, o João Rodrigues, o Hélder Nunes, o Reinaldo Ventura, o Diogo Rafael, o Ricardo Barreiros, o Gonçalo Alves, o Henrique Magalhães, o José Rafa Costa, o Nelson Filipe fizeram-me regressar á minha mocidade, quando eu julgava invencíveis o Emídio, o Raio, o Sidónio, o Jesus Correia, o Correia dos Santos, o Olivério, o Edgar. E, já depois, as equipas onde pontificaram o Cruzeiro, o Lisboa e o Perdigão, o Adrião, o Velasco e o Bouçós e aquela onde o Livramento atingiu alturas não atingidas ainda por ninguém. De facto, Livramento foi, para mim, inexcedível na prática do hóquei em patins. Mas, na história desta modalidade, em Portugal (uma rua coalhada de letreiros luminosos) passaram a ter lugar os selecionados pelo dr. Luís Sénica (um treinador douto e fecundo, sei-o bem), todos eles atletas de prodigiosa estatura técnica, todos eles com relâmpagos de génio e sagazes e penetrantes no modo como corporizavam a tática.

O Senhor Presidente da República atribuiu aos jogadores e treinadores a Comenda da Ordem de Mérito. Inteiramente merecido o grau de Comendador da Ordem de Mérito por este grupo de jovens, de aprumo impecável, passo conquistador e fervorosa devoção na defesa do bom nome de Portugal. Compreende-se portanto o arroubo de mística laica, em cada um dos jogadores, na cerimónia da sua condecoração, em Belém. Daqui a muitos anos, relanceando o olhar pelos papéis e pelas fotos das suas mais vivas lembranças, os atuais campeões europeus de hóquei em patins poderão volver os olhos contemplativos, para o dia 20 de Julho de 2016, e exclamar: Que saudade!...
No aperto do programa a cumprir, sob a férula do protocolo, o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa ainda encontrou tempo para frisar que “não há modalidades de primeira, segunda, terceira e quarta, em termos de sucesso nacional e de orgulho dos portugueses. Há só modalidades de primeira. Celebrou-se porque os campeões mereceram e merecem. E não se iria deixar de celebrar por haver uma coincidência de calendário”. João Rodrigues, o melhor marcador do Europeu, com 14 golos, disse aos jornalistas: “É um ano muito feliz para mim, a nível pessoal, sobretudo após passar momentos muito difíceis, A certa altura da época, se alguém me tivesse dito que viveria isto tudo, duvidava. Sinto-me muito feliz e só espero voltar para o ano, ainda mais forte, para viver tudo isto, outra vez”. Ricardo Barreiros formulou assim a sua alegria: “É nesta altura que sentimos muito orgulho de sermos portugueses, porque sentimos da parte do povo o carinho e a alegria que as nossas exibições lhe proporcionaram. Ficámos com a ideia que o dia da nossa vitória no Europeu foi um dia muito especial para todos os portugueses”. Com o tom solene dos compromissos de honra, o selecionador Luís Sénica declarou: “O nosso limite é o céu, graças a estes atletas. A partir de agora, estamos mais seguros do nosso caminho. Este grupo é fantástico”. João Rodrigues, cujos olhos pareciam voejar em torno de Luís Sénica, continuou: “Estamos a viver um momento alto. Mas já falámos do Mundial que queremos ganhar também”.

Agraciados, presencialmente, com o grau de Comendadores da Ordem do Mérito, os campeões europeus de hóquei em patins mostraram que os seus êxitos desportivos fazem prever uma nova consciência da “arte de ser português”, usando palavras de Teixeira de Pascoais. O Doutor Délio Nobre dos Santos, que foi meu professor na Faculdade de Letras de Lisboa, tem, a propósito, uma curiosa opinião: “O que muitos consideram uma fraqueza (a suposta ausência de pendor filosófico) é antes o resultado de uma força interior irradiante e firme, consciente e poderosa. A filosofia portuguesa é muito mais rica e muito mais variada do que suspeitam aqueles que não têm contacto com ela, através das obras dos próprios autores. A sua característica fundamental, a que lhe dá unidade, é a tendência humanista e espiritualista, que se revela no pendor para valorizar o humano, na sua globalidade, e no respeito pela hierarquia dos valores morais” (Actas do Congresso Nacional de Filosofia, 1955, pp. 728-729). Ora, as vitórias desportivas, nomeadamente as de maior retumbância, têm uma índole histórica, social e dialética, que pode concorrer à revitalização da nossa filosofia e deste orgulho enorme de sermos portugueses. Existe, na nossa História, um copioso caudal de tradições e de cultura, que pode ser matéria-prima (ao lado dos demais elementos da metodologia do treino) na preparação de uma “equipa de todos nós”, em qualquer modalidade desportiva. Por outro lado, também o vocabulário filosófico se enriquece, com as grandes vitórias desportivas, como a que Portugal conseguiu, no Europeu de Hóquei Patins disputado em Oliveira de Azeméis.

Ao Dr. Hermínio Loureiro, presidente da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis e à direção da Federação Portuguesa de Hóquei em Patins, que não quiseram vestir a farda reluzente dos vencedores, mas que “estão”, de forma indissolúvel, nesta vitória muito especial, são devidos agradecimentos, pois que tudo fizeram para que nada faltasse aos hoquistas portugueses. Pela televisão embora, descobri, no Dr. Hermínio Loureiro e nos dirigentes federativos, uma viva satisfação íntima, que o rosto denuncia. Estão todos de parabéns. Os jogadores-comendadores mostraram saber que o desporto pode ajudar-nos a recuperar a grandeza de alguns valores demasiado esquecidos da nossa cultura que é, francamente, de tendência humanista e espiritualista. A nação portuguesa apresenta uma história, no seio da história universal. Onde cabem as vitórias desportivas. O ser humano é essencialmente um ser histórico. Segundo esta perspetiva, o complexo científico, literário, artístico, religioso, desportivo, militar, sócio-económico e político da nossa história manifesta uma personalidade espiritual que singulariza também a prática desportiva, designadamente a de altos rendimentos. Há portanto um laço profundo entre os portugueses e a sua cultura e o seu desporto que é preciso teorizar e praticar. Para uma cabal compreensão das nossas vitórias desportivas...

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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