O milagre português (artigo de José Antunes de Sousa, 56)

Espaço Universidade 17-07-2016 16:47
Por José Antunes de Sousa
No espaço de uma curta semana dois títulos europeus – o último em hóquei! Com uma enorme, abissal, diferença, porém: desta vez, ninguém saiu à rua com bandeiras e cachecóis. Por isso, se impõe uma primeira nota: que coisa tão especial tem o futebol que atira para a rua e para as praças multidões em delírio, desde Melgaço a Dili, em contraste com um mesmo título do stick e sobre rodas, com o natural entusiasmo confinado ao espaço acanhado do pavilhão do feliz evento?

Que é por ser um desporto improvável e transgressivo, ao jogar-se com a parte mais surpreendente e negligenciável do corpo, os pés? Sim, claro. Que é por ser uma modalidade cuja normatividade constitutiva se faz de regras que todos conseguem entender à primeira? Também.
Mas o que tem o futebol, para além disso, que o transforma em elemento catalisador tão impressivo de identidade – uma identidade para lá do marco jurídico das diferentes nacionalidades?

Será a sua antropológica ressonância bélica que induz a uma incontida e inebriante projecção de um ínvio poder que se impõe pela via de um aluvião de emoções? Talvez seja por isso tudo – e muito mais: algo excedente que se furta, porém, a uma qualquer tentativa de análise racional! E é por ser do domínio do irracional, do lado dionisíaco de nós, que nos surpreendemos nessa doce dependência estetico-agonística desse fascinante jogo do pontapé na bola que se torna em redondo ingrediente de prazer e êxtase quando o herói logra introduzi-la no espaço mágico da definitividade – a baliza.

É talvez o facinante e intrigante arsenal gestual do futebol conjugado, no caso português, com a sua real e efectiva aptidão para conseguir vitórias, isto é, gerar manifestações de poder, que mexe com a alma de todo um povo, potenciando espaços de pertença que uma história de fraternal convívio propicia. De facto, ao observar o planetário eco da recente vitória de Portugal em França, o que impressiona e interpela até os mais cépticos e distraídos é o seu índice de apropriabilidade, isto é, a quantidade de povos que sentiram essa vitória com também sua!

Trata-se de um caso único no mundo e talvez devamos buscar algumas hipóteses de explicação no desapego que caracteriza as relações deste país, atlântico, mediterrânico e continental, que espreita o mundo muito mais com o desejo de dar-se do que com avareza de pilhar. E, depois, tem essa particularidade: a doçura e encanto dos pequeninos. Enfim, Portugal é demasiado pequeno no tamanho e na ambição para gerar suspeita, medo ou ódio: Portugal é muito mais uma feliz ideia, uma emoção, uma egrégora espiritual, do que um território, que o é apenas como locus de uma saudade do mundo todo e do céu, como era o caso de Bartolomeu dos Mártires.

Há de facto algo de miraculoso na história deste pequeno e «amorável» país: desde logo, é milagre a improvável sobrevivência desta nesga do ibérico torrão à fúria anexante de Castela, como miraculoso parece ter sido o percurso de guerrilheiro furtivo nesta disputa do campeonato de Europa: a equipa em vez de voar alto, exposta aos radares e artilharia anti-aérea dos adersários, adoptou um voo rasante, um voo subctrativo, furtando-se à acção prevenida dos radares dos oponentes – e, assim, quando deram por nós, estávamos acampados com todas as nosssa armas em pleno «Estádio de França».

Mesmo o terceiro lugar no grupo, facto pouco encorajante ajudou a alimentar o low profile da nossa selecção e a aumentar o efeito surpresa. Ao mesmo tempo que nos desviava da rota dos tubarões – uma navegação tranquila e serena. Mais: o alarmante episódio da lesão do nosso General, em vez de lançar o pânico nas tropas, provocou o toque a reunir – e as fraquezas se tornaram a nossa inexpugnável fortaleza.
Os milagres só acontecem quando neles se acredita, porque o real autor da maravilha não é uma qualquer entidade sentada nas nuvens, quase sempre surda aos nossos gemidos e gritos: o autor é cada um de nós – como o foi Fernando Santos, um homem de fé.

Aqui, talvez seja útil um paralelo com 2004: porque então também houve muita crença. Com uma decisiva diferença, porém. Nessa altura, o seleccionador pôs todo o país de bandeirinha na mão e nas janelas – um país em festa antecipada que exigia a pé junto o caneco: as expectativas vinham de fora para dentro e os jogadores sentiam o insuportável peso dessas expectativas e da responsabilidade de corresponder ao clamor popular. E bem sabemos o que acontece quando todas as expectativas são colocadas sobre os nossos ombros: arreamos.
Ou seja, enquanto em 2004 a motivação foi exógena, de fora para dentro, desta vez ela foi endógens – foi o técnico e jogadores a acreditar, mesmo quando escasseavam motivos que tal crença alimentassem.

Os jogadores, em vez de se sentirem pressionados pelo entusiasmo popular, eram ele mesmos a fonte abastecedora desse entusiasmo: estavam estabelecidos e garantidos os requisitos intencionais para que o milagre acontecesse – e aconteceu, através de um outro imprevisto e solitário crente: Éder! Nós admiramo-nos que os milagres possam acontecer porque confiamos só na ponta dos nossos dedos e nos nossos olhos: mas «os olhos ninguém os vê» (Vergílio Ferreira) e «vê mal quem só vê o que se vê bem»!

Este «Europeu» talvez tenha tido o condão de despertar os incautos e os cépticos para o valor acrescentado que seria de facto para os clubes integrar na sua estrutura um Gabinete de Inteligência Competitiva que acolhesse no seu seio um coach, ou assessor motivacional.

O Benfica ensaiou a experiência, mas infelizmente achou que havia outras prioridades.

Mas, meus amigos, a prioridade das prioridades tem um único nome: consciência!

A confiança e certeza no resultado foi o verdadeiro responsável pelos cinco penaltis marcados contra a Polónia.

José Antunes de Sousa é Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, Professor Visitante na Universidade de Brasília e Professor Convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
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