Reino (Re)Unido (artigo de José Antunes de Sousa, 55)

Espaço Universidade 05-07-2016 14:55
Por José Antunes de Sousa
Ao ver os jogos Inglaterra-País de Gales e Gales-Irlanda do Norte, acasalamentos que nem o mais hábil político haveria podido sugerir e muito menos garantir, eis que dei comigo a pensar como é realmente anglófono (e, como veremos, anglófilo) este Euro 2016 , ironicamente, a realizar-se em França, que, na sua clássica aliança com Berlim, forma o tradicional Eixo Continental que, ao longo da história, se tem perfilado como desafio e ameaça para a potência marítima, a Ilha Britânica, e que tanto preocupou (e, pelos vistos, continua a preocupar) políticos e a ocupar insignes historiadores, como foi o caso de Arnold Toynbee, por exemplo.

E há ainda a Irlanda (Eire), que fala também inglês, e cuja capital Dublim, tudo faz para exibir o contraste com Belfast, acentuando o crucial pormenor de uma independência que os irlandeses ostentam garbosamente, mesmo que, por alguma inadvertência na gestão dos custos dessa solidão soberana, tenham, às vezes, que amargá-las, como aconteceu recentemente com a dolorosa intromissão da Troika.

O Reino apresentou-se em campo numa providencial manifestação de edificante fidelidade à Rainha. E, nesse sentido, o sorteio foi politicamente significativo, cirúrgico, mesmo. Bastou, porém, que, pelo meio, acontecesse um referendo sobre a permanência ou saída do Reino Unido da União Europeia para esta aparente sinfonia celestial se converter numa incómoda e incomodativa cacofonia. É que, perante o hábil e insinuante Brexit, uns optaram por sair mesmo (caso de Inglaterra e País de Gales) enquanto que a Irlanda do Norte e Escócia (a única ausência em Paris) bateram o pé e gritaram bem alto: daqui não saímos, daqui ninguém nos tira!

E eis como num jogo dos oitavos, temos, de um lado, um País de Gales, com cerca de três milhões de habitantes para uma superfície de 20.799km2, país, que apesar de sua ascendência céltica, parece ter ganhado, com o tempo, esse jeito mole para amochar, e, com uma cerviz dúctil, já um pouco olvidado porventura do ancestral orgulho do sangue celta, optou por seguir a maioria da potência anexante, batendo com a porta, contagiado, sei lá, pelo insular orgulho dos britânicos, do outro, uma Irlanda do Norte, caldeada em ígnea e cruenta contestação, aproveitou a consulta para, num gesto de desafiante afirmação, se expressar no sentido contrário do dono que teima em manter a canga protectora e proteccionista.

Facto assinalável: apesar destes acontecimentos politicamente relevantes e da arqui-rivalidade entre estes dois contendores, as bancadas vestiram-se de uma festa colorida, elegante e cavalheiresca e, no final da rija peleja, todos os jogadores se fundiram num abraço, traduzindo uma afectuosa solidadariedade, território virginal de uma sã convivência humana, aquém da sobreveniência de quaisquer escaramuças politico-militares.

Talvez seja este um indício suficientemente sugestivo de que, no fundo de nós, no pulsar do coração sem o veneno do ódio, nos anima uma inclinação para o bem – o problema é quando, do lado escuro e lunar de nós, se solta o lobo faminto, acossado pela culpa e pelo medo.
O futebol, dada a sua duplicidade psicoemocional, pode, sem dúvida, propiciar momentos de trégua e calorosa convivência, como pode, com as paixões à solta, desencadear guerras, como a que aconteceu, nos anos oitenta, entre Honduras e El Salvador.

No caso que nos ocupa, o Reino Unido foi, de algum modo, desunido por via de desígnios políticos, mas, neste moderno espaço de planetário convívio em que o actual estádio de futebol - e que deixou de sê-lo apenas disso, de futebol – se converteu, pôde acontecer um certo milagre, o da re-união dos que a política desunira.

Apesar de não ser imune, bem pelo contrário, aos tortuosos atalhos da Geopolítica, o futebol preserva um elevado índice de genuinidade agonística e de uma certa elevação cavalheiresca que o converte, em certos momentos, em catalisador de imprevistos entendimentos entre povos, até ali desavindos, como o ilustra eloquentemente o caso bósnio, e, na manifestação exuberante das peculiaridades culturais, de um diálogo que, no mínimo, classificaria de auspicioso.

O futebol mal-grado seus obscenos excessos argentários e mercantilistas – a sua mais negra ameaça -, ainda teima em salvaguardar uma certa aptidão, promissora, sem dúvida, para promover humanidade – ainda há nele espaço para o fair play e para o abraço.

Há nele, apesar de seus desmandos, motivos de esperança. Porque o seu actor é também o seu destinatário: o Homem. Por favor, que os homens não matem o Homem que ainda mora neste fantástico jogo.

Uma nota final: já eu tinha dedilhado este pequeno texto, quando aconteceu um imprevisto doloroso: um minúsculo, vulcânico e enigmático país, por sinal um país que segue com paixão o futebol da Premier League, a Islândia, com uma desenvoltura quase cruel, acaba de despachar a Inglaterra, confirmando-a nessa sua mania de estar sempre de saída da Europa – até que, agora e quando menos o desejava, saiu mesmo e pela porta dos fundos: já fora o Brexit, agora foi o Eurexit!
Ou seja: A Terra Gelada gelou a acalorada jactância britânica!

José Antunes de Sousa é Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, Professor Visitante na Universidade de Brasília e Professor Convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
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