Quando as dificuldades são possibilidades (artigo de Manuel Sérgio, 149)

Espaço Universidade 01-07-2016 19:57
Por Manuel Sérgio
Camões cantou, nos Lusíadas, os seus heróis e homens de fama imorredoura. Eu, na minha pequenez, procuro realçar os feitos, que atravessam o mundo todo, da nossa seleção nacional de futebol. E escrevo com uma diferença grande, em relação ao Camões: porque a Revolução dos Cravos me ofereceu a liberdade, este meu modesto texto não precisa do “nihil obstat” de qualquer censura.

Os Lusíadas, ao contrário, precisaram da autorização do Santo Ofício. E foi o frade dominicano Bartolomeu Ferreira que a redigiu: “Vi, por mandato da santa e geral Inquisição, estes dez cantos dos Lusíadas. Somente me pareceu que era necessário advertir os leitores que o autor, para encarecer a dificuldade da navegação e entrada dos portugueses na Índia, usa de uma ficção dos deuses dos gentios. E ainda que Santo Agostinho, nas suas Retratações, se retrate de ter chamado nos livros que compôs: de Ordine às musas deusas, todavia, como isto é poesia e fingimento e o autor, como poeta, não pretenda mais que ornar o estilo poético, não tivemos por inconveniente ler esta fábula dos deuses na obra (…), embora todos os deuses dos gentios sejam demónios (...)”. Enfim, tempos que o Estado Novo procurou reavivar e oxalá não voltem mais! Mas, escrevia eu, que pretendia realçar “os feitos, que atravessam o mundo todo, da nossa seleção nacional de futebol” que, psicologicamente, moralmente não teme cotejo com qualquer outra equipa. Uma crítica sagaz da personalidade futebolística de cada um dos jogadores da “equipa de todos nós” é o que é mais especificamente humano que dela ressalta.. Atualmente, tendo em conta o economicismo que nos governa (e que o futebol profissional, demasiadas vezes, reproduz e multiplica) “ninguém ganha porque vale, mas vale porque ganha” (a frase é de Cornelius Castoriadis). Mas, na seleção portuguesa, há bem mais do que o estímulo do dinheiro. É evidente!

Para mim, o Desporto (repito-me: o futebol profissional é Desporto) situa-se no âmbito da motricidade humana, quero eu dizer: do movimento intencional e em equipa da transcendência. Mas uma transcendência que não é, unicamente, física, porque no desporto de alto rendimento não está um físico tão-só, está a complexidade, a totalidade humana – está o homo faber e o homo ludens, a memória e a profecia, o corpo e a alma, Permitam-me que volte a folhear um dos 50 livrinhos, de que sou autor, Algumas Teses sobre o Desporto: “Admirar um atleta de qualidades motoras inigualáveis, de uma espantosa expressão corporal, de um rigoroso empenhamento competitivo – bem é, conquanto tal não signifique (como acontece tantas vezes) nivelamento por baixo de todas as manifestações críticas e criadoras do ser humano e anestesia e sonolência, no trabalho de transformação da sociedade injusta estabelecida. O espetáculo desportivo, ao quantificar, imediatizar, uniformizar, pode robotizar e embrutecer” (p. 13). E mais adiante: “Só como prática humanizante, movimento em direção à transcendência, o Desporto é salutar. Um Desporto, físico tão-só, não é salutar, porque o ser humano é corpo-alma-natureza-desejo-sociedade. Não há saúde, se à componente empírica do anátomo-fisiológica, do orgânico, não se acrescentam outras componentes, elementos do mesmo todo” (pp. 13/14). Pela sua formação moral, tanto o engenheiro Fernando Santos, como o dr. Ilídio Vale e afinal a equipa técnica, no seu todo, que lidera a seleção, traduz, no seu comportamento, a consciência de que o Desporto não é só uma atividade física e não perde ocasião para o salientar. Tenho dialogado, muitas horas, com treinadores de futebol, ou seja, muito tenho aprendido com eles. Até o meu querido Amigo, Dr. José Mourinho, não se esquece do seu velho professor (e, hoje, um dos seus mais modestos discípulos) e faz o favor de enviar-me, de quando em vez, mensagens de conteúdo intelectualmente riquíssimo. Enfim, sempre que dialogo com algum treinador de futebol, não é a tática, nem a preparação física, o que mais os preocupa, na preparação das suas equipas...

A nossa seleção nacional de futebol, presente no Euro2016, não mostra ser o prémio económico o seu principal objetivo. A riqueza moral de um jogo de futebol reside, principalmente, na sua subordinação a valores que vale a pena corporizar e viver. O desporto é, ao mesmo tempo, jogo e agonismo mas com fair play porque, sem fair play, sem “jogo limpo”, deixa de ser desporto. O que mais me entristece, numa equipa de futebol, não é não alcançar determinados objetivos, é não tê-los! O ser humano, ao contrário dos outros animais, sabe que é um ser incompleto, inacabado, imperfeito. Precisa portanto de, com lucidez e coragem, transcender-se, o que exige a crença em valores de forte caráter antropológico. Quando o Ricardo Quaresma afirmou, com um brando lirismo a sair-lhe dos lábios que, no jogo Portugal-Polónia, ao correr para a bola, na marcação do “penalty” como que sentiu sobre os ombros o peso de um povo inteiro, o português, resumiu as emoções que o dominam e que não se confundem, principalmente, com a frieza metálica do dinheiro. Toda a competição desportiva é uma prática que requer valor e exige valores. E “a equipa de todos nós” tem valor (não é por simples acaso, ou por sorte, que se atinge as meias-finais de um Europeu de Futebol) e tem valores, como o manifesta em campo e nas suas entrevistas à Imprensa. A coragem, que nos permite transformar as dificuldades em possibilidades; a vontade de superar obstáculos; a perseverança, ou um esforço que não se cansa, que não desiste, que não desanima diante dos obstáculos que se erguem diante de nós; a disciplina, ou a autoexigência baseada em valores em que se acredita; a saúde física porque é psíquica e psíquica porque é física; a alegria, a humildade, a confiança, a solidariedade – tudo isto eu descubro no comportamento, dentro e fora do campo, dos nossos jogadores. E com isto eles aproximam-se, cada vez mais, do jogo final do Europeu.

Estou a escutar um leitor deste meu artigo que, de olhos cravados na minha velhice, ironiza: “Mas sem tática, sem metodologia do treino, você quer ganhar Europeus de Futebol?”. É evidente que não posso falar do que não sei. Na rádio, na televisão, nos jornais são às dezenas os especialistas nestes assuntos. Eu, hoje, só quero manifestar a minha alegria (e a minha gratidão) pelo comportamento de uma equipa de futebol que tem valores e os vive, em campo e fora dele, na representação de todo um povo. E assim vem transformando as dificuldades em possibilidades. E assim é bem capaz de conquistar o Euro2016. Mas aquele leitor deste meu artigo, insiste ainda: “E a tática é ou não necessária?”. É, de facto, necessária, imprescindível. Mas só com tática não se ganham jogos. E eu, que respeito os que muito sabem de tática, relembro que os jogadores profissionais, quando falam de futebol, normalmente não se ocupam da tática. Por que será?... Mas deixem-me saudar, aplaudir a seleção nacional de futebol! Vi tanto português feliz com o desempenho da “equipa de todos nós”! Ao lado da calma impassível do Ricardo Quaresma que, serena e vitoriosa, antevê uma vitória inesquecível de Portugal. Relembro o que já escrevi dezenas de vezes: o desporto é o fenómeno cultural de maior magia, no mundo contemporâneo. O que equivale a dizer que o desporto é mais do que desporto e uma vitória, no campo do desporto, representa bem mais do que uma esbelteza alada, ou muitas dezenas de chutos, numa bola de futebol.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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