Chilenos: uma lição de fé! (artigo de José Antunes de Sousa, 54)

Espaço Universidade 28-06-2016 20:54
Por José Antunes de Sousa
Foi uma noite de suspense e de agudo e teimoso sofrimento. Eu e meus amigos chilenos e também alguns brasileiros que apreciam a rija têmpera daquele povo, trocávamos ansiosas mensagens à medida que o apocalíptico impasse persistia - de Nova Jersey nenhuma novidade!

Uma antiga aluna e amiga chilena que, na véspera, tivera a gentileza de me felicitar pelo feito luso, no Euro 2016, e isto apesar da ascendência croata do próprio marido, enviou uma foto, uma selfie, e tardei em reconhecê-la: parecia uma mulher com anos para ser sua mãe, tal o tom lívido e macerado do seu rosto, espelhando a ânsia de morte que a possuía – a ela e a todos os chilenos, que, naquele país, todos gostam do futebol, por este se ter tornado veículo refulgente do verdadeiro orgulho nacional!

Querem saber o que mais me impressionou na equipa do Chile, que acaba de vencer pela segunda vez consecutiva a Copa América – esta, comemorativa do centenário da prova? A serenidade na fúria e na determinação: luta feroz, palmo a palmo, mas sempre na certeza de que a balança do destino acabaria por pender para seu lado: daí o modo clínico e empenhado como cultivavam e faziam render os hiatos do jogo, na maior parte dos casos, ostensivamente provocados – como se soubessem, desde sempre, que tudo se resolveria naquele mágico e furioso pontapé da marca de penalidade – por sinal, executado pelo mais anónimo dos seus atletas, um tal de Silva: com tal nome que, na sua inexpressiva irrelevância que pica, quase é nome de ninguém, ele poderia ser de qualquer lado, inclusive português! Mas não, este Silva encarnou e concitou na ponta da chuteira toda a fé de um povo em sobressaltada vigília às portas do céu. Uma vigília épica, de quase um século, mas sem acusar qualquer desfalecimento!

Olhando para o espírito cavalgante e épico desta equipa laboriosa e crente, o que verificamos é, antes de mais nada, que ela contraria e, de certa forma, dinamita os consabidos conceitos, que são mais bem preconceitos, da eficácia e da humana eficiência, assentes na pura aritmética da força – física e do talento individual: uma boa equipa não é o resultado de uma boa soma, mas sim do modo como essa soma se faz, a ponto de já soma não ser, mas, antes, uma verdadeira multiplicação. Mais apropriadamente ainda: uma potenciação. Eles apregoaram, com a sua crença operária, que uma constelação de estrelas não faz o céu.

É o estado de consciência colectivo - de todo um povo - que determina o modo como a intenção e o desejo caem realmente no campo da efectiva experiência – estado que unifica os diferentes actores – todos - numa única realização sentidamente vivenciada. Daí aquele aspecto de segurança e convicção que todos os jogadores chilenos exibiam em campo!

Tudo isto em contraste com a palidez dos argentinos, fartos em talento e a transbordar de medo – o medo que a memória da persistência teimosa do desgosto do insucesso inelutavelmente neles gerava – e, à medida que o tempo passava mais o espectro da reedição da desdita se avolumava, espectro de que o clamoroso falhanço de Gonzalo Higuain funestamente preanunciava: a estatística do insucesso, justamente porque como indício significativo é pelo grupo assumido, ela torna-se numa força de bloqueio mental e motivacional e acaba por condicionar realmente a experiência colectiva – que vemos, sempre, fora o que criamos dentro!

Ah, que Messi estava algo diminuído, que Pastore, Lavezzi e Gaitán estavam lesionados e eram baixas importantes! Sim: quando o moral das tropas está em baixo até os obuses encravam! A aparente conspiração objectiva dos acontecimentos não resulta da intervenção maléfica de uma qualquer entidade caprichosa, mas exprime o resultado da projecção do íntimo estado mental do grupo.

Os meus amigos repararam no peso que caiu sobre os ombros do mago, Messi, que não suportando mais os acenos carregados da tempestade que se avizinhava, chutou com raiva a bola para as bancadas – como se quisesse ver-se livre daquele tenaz pesadelo? E vê-lo prostrado, derrotado e e de olhar vazio de crença, sentado e ausente daquele inferno pintado de céu para os outros, causou pena e dó!

O ano passado, já os chilenos tinham dado provas de valentia: não se assustaram com os ares do céu e ousaram ser felizes na sua própria casa – ao contrário de uns simpáticos rapazes do «jardim à beira-mar plantado» que, sempre com essa mania de que somos apenas isso, jardim, que ornamenta e não a própria morada da felicidade, em 2004, à hora de lançar as bolas do seu destino começaram a tremer das mãos – e dos pés!

Os chilenos, ao contrário de nós, não só não se assustaram com o clima do céu, como lhe tomaram o gosto, eles não se contentaram com espreitar a festa do vizinho pelo buraco da fechadura – eles armaram a tenda e todo o arraial no seu próprio quintal.

A selecção chilena está-se afirmando como um verdadeiro “estudo de caso”, ao fazer a prova viva do primado da consciência sobre a mera consideração cumulativa dos clássicos ingredientes mensuráveis do sucesso.

Quando nos referimos à Argentina, imediatamente nos acodem à mente os nomes de Messi, Di Maria ou Aguero, mas quando nos referimos ao Chile a imagem que se súbito se nos impõe é a de um pelotão de soldados dos comandos – eis a diferença entre a exibição e a coroação!

Chile: uma verdadeira lição de fé madrugada dentro: uma fé feita de muitos elementos sincréticos, sem dúvida, mas uma fé com uma qualidade imbatível – a da sinceridade!

José Antunes de Sousa é Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, Professor Visitante na Universidade de Brasília e Professor Convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
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