A demasia (artigo de José Antunes de Sousa, 53)

Espaço Universidade 25-06-2016 15:40
Começo por declarar o encanto que sinto por esta palavra – ela diz bem da hubris que caracteriza o pathos lusitanus, desta nossa excessiva maneira de ser várias coisas, sendo que o que queremos realmente ser é esse tudo fugidio mas irresistível e que nos fascina.

Somos um pouco como Bartolomeu dos Mártires de quem Frei Luis de Sousa, referindo o rubor presistente do seu rosto, dizia que ardia com saudades do céu – sim, nós somos bons na saudade de um paraíso que se nos escapa, mas que não desistimos nunca de demandar! E a nossa proverbial tristeza vem-nos dessa lonjura a percorrer – somos fiéis peregrinos de uma felicidade quimérica, apenas insinuada na linha ténue do horizonte. E sentimos um vago prazer nesta saudosa demanda do futuro : o nosso caminhar é circular – a cada passo em direcção de um passado lânguido e pastoso corresponde um passo em frente, na direcção do futuro radioso. O fado, canção-ícone da alma lusitana, espelha justamente esse paradoxo da nossa impenitente emotividade – sempre de mãos dadas com o mistério!
Não admira, por isso, que a língua portuguesa seja fértil em situações de polissemia, isto é, palavras que significam várias coisas – bem ao jeito variado de ser português, esta nossa «manha», como do Magriço referia Camões, de lidar com várias incógnitas, essa nossa incrível habilidade em fazermo-nos ao desconhecido e, por esta via, dar mais mundo ao mundo.

Todo este balbuciante arrazoado por causa de uma palavra - demasia - que, em Lisboa (uma das razões do meu encantamento), no lugar da fruta da esquina da rua de Campo de Ourique, para o Ti Manel que, depois da tropa, vindo lá da Cova da Beira, se fixou à custa de muito suor e muitas aflições na capital, é, antes de tudo, o troco que tem que devolver ao cliente sempre no encalço de hortaliça e legumes frescos. Ou seja, demasia que, no contexto geral do universo lusófono, significa excesso, exagero, desmesura, na capital, sobretudo nos seus bairros mais tradicionais (como recordo essa palavra na boca do senhor António, figura diáfana e simpática no avio das freguesas da drogaria de meu tio, ali na Rua da Bempostinha, junto ao Largo do Mitelo!) ela significa o montante que quem vende tem que devolver a quem compra sempre que este entrega um valor que excede o preço fixado para o produto adquirido: trata-se de uma nuance semântica, um dos muitos localismos que enriquecem a nossa língua. Quem compra dá em demasia, cabendo a quem vende devolver o que a mais recebeu: demasia sinónimo de troco.
E no futebol, neste incomensurável e cada vez mais louco mercado de activos desportivos – sim, activos?

As academias de formação viraram fábricas de produtos esbeltos, de marca registada, que só por si, desencadeia a gula predadora dos clubes que gastam rios de dinheiro com mercadoria de boa marca; mas o que mais impressiona é que gastam e fazem gala nesse obsceno gosto de gastar!
Por estes produtos de primeira os magnatas pagam verbas astronómicas – em demasia – mas, em boa verdade não é bem a essas potenciais vedetas que eles estão comprando mas a paixão uniforme e acrítica das massas de adeptos que se alimentam da emotividade desenfreada e da correspondente estupidificação mental. O dinheiro em excesso que se dá pelo jogador não é tanto para premiar os méritos do atleta como sobretudo para excitar a curiosidade das massas e promover a incondicionalidade de uma cega adesão: o jogador como ingrediente de um planetário exercício de marketing – e assim se dá a pura funcionalização do jogador, de mãos dadas com a sua desumanização.

Mas há mais, que é de mais o que o termo demasia nos sugere: o problema da súbita transição de um pobre mendigo de uma glória de longe apenas vislumbrada para o olimpo moderno dos novos ídolos – só que, de súbito, carregando um descomunal saco de ouro e de vã presunção!
O problema está na dissonância, ao nível da consciência, entre o facto brutal de uma riqueza súbita que, assim, se torna demasiada para quem se julgara ter nascido com a sina intransponível de ser pobre – como pobre era o meio em que nasceu e cresceu.

Está psicosociologicamente estudado que alguém, com estrutura mental sintonizada com a experiência de pobreza, a quem saia a lotaria, por exemplo, volvidos dois ou três anos, não descansa enquanto se não liberta e desembaraça desse fardo espúrio e pesado de uma fortuna que a sua consciência não reconhece como própria e pertinente – é um apêndice, um ornamento, um adereço que não sabe como usar: o pobre que sempre vestiu fato-macaco lá na oficina da esquina não suporta o ambiente de luxo do hotel de cinco estrelas, nem o fraque que o querem forçar a vestir.

Dito de uma maneira mais assertiva: a riqueza só contempla quem já é mentalmente rico – e bem sabemos como é raro esse sincero sentimento de auto-merecimento.

Alçados, de forma abrupta e imprevista, a uma grandeza excessivamente desalinhada com o estado íntimo de consciência, muitos actores do fenómeno desportivo mergulham de cabeça no mundo de sombras e ilusões, um mundo postiço, artificial, criando, com isso, um penoso estado de desajuste íntimo – e que os psicólogos designam como estado de dissociação, isto é cada vez mais distantes do centro de si mesmos!
Mas há ainda mais: esses craques da bola, alcandorados de forma meteórica à condição de estrelas, passam, quase sempre, a confundir o brilho momentâneo desse luminoso risco no vazio galáctico, com o brilho de sua própria essência – esse, sim, perene e imortal!

E eis como tantos sucumbem no fatal regresso à «quotidianidade enxovalhante» (Fernando Pessoa), resignados ao passeio anónimo em tardes soalheiras de nostalgia para baixo e para cima na Rua Augusta – a rua mais democrática do país: o general e o reformado da Lisnave acotovelam-se no meio de multidão, ululante unificada no mesmo caminhar para lado nenhum.

E são tantos os atletas de alto rendimento que, terminada a fase da ilusão, se encontram sós e nus em plena rua, sem saber para onde ir!
Pois é: sic transit gloria mundi!

PS: recomendação ao Sindicato dos jogadores: a par do gabinete jurídico para ajudar a reclamar salários em atraso, impõe-se um gabinete de acompanhamento psicológico para o crucial regresso dos jogadores ao território agreste da realidade, depois de tão acostumados ao clima da ilusão!

José Antunes de Sousa é Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, Professor Visitante na Universidade de Brasília e Professor Convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
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