A canela do Elias (artigo de José Antunes de Sousa, 52)

Espaço Universidade 19-06-2016 16:42
Por José Antunes de Sousa
Em maré de desgraça, qualquer adversário poderia ter assumido o papel de protagonista em mais uma tragédia grega – o papel de fustigar, com açoites de horror, a casa encantada dos sonhos do seu altivo contentor: desta vez, coube ao Perú o cruel feito de liquidar, num literal e mortífero golpe de mão, a esperança da glória, antecipadamente anunciada, do Braasil.

Naquele domingo, plúmbeo e aziago, todos os elementos da natureza, todos os orixás do firmamento xamânico, parecem ter-se unido no obscuro fito de tramar este «esplêndido Brasil» (Agostinho da Silva) – e, desde cedo, pareceu claro não haver forma de penetrar no inexpugnável território dos Incas, que, pareciam, por seu lado, como que inebriados, embebedados de uma crença que os parecia envolver num transe colectivo – empenhados na missão épica e exconjurante de quebrar finalmente o enguiço de décadas de jogos contra o terrível Adamastor, apesar de dulcificado pelo terno amarelo de suas camisolas (camisas, aqui no Brasil).

Nada parecia suficiente para derrubar a peruana crença no milagre – e não foi mesmo! A escassos instantes do final, em plena fase de descontos (acréscimos), o jogador brasileiro, Elias, que já se exibiu em Alvalade, na cara do golo, num esgar último tentando forçar o destino, num gesto acrobático de uma ínvia rendição, estica a perna para empurrar a bola para a baliza (gol), mas eis que lhe bate na canela e sai como uma bala pela linha de fundo – e aí se afundavam definitivamente as últimas réstias de esperança dos brasileiros e, assim, com o apito final do árbitro, se consumava mais uma imprevista (?) descida aos infernos duma selecção que parece ter amolecido, não se sabe ao certo se por um estranho fenómeno de superabundância que gera o embaraço e o equívoco na escolha, se por confiança a mais na espontaneidade criativa de seus executantes, esquecendo que a disciplina e organização, se bem que dentro de um conceito de complementariedade, constituem ingredientes indispensáveis a uma certa cultura de vitória. É que Deus pode ser que seja brasileiro, mas, mesmo assim, Ele precisa da intenção dos humanos para concretizar o Seu poder.

Mas, sejamos sinceros, se a canelada do Elias tivesse dado em golo – e por muito pouco (que é toda a distância do mundo) que não deu – e se, por esse golo, o Brasil tivesse seguido em frente e, nos jogos a eliminar (mata-mata), o Brasil fosse ganhando, com mais ou menos canelada, mas sempre no susto do limiar fluido do precipício, sem fulgor sem grande organização, mas com a estrelinha da sorte de seu lado, e acabasse por conquistar a Copa América, (nada, aliás, que não estivesse nas cogitações da maioria de analistas e de adeptos), eu, desde logo, não estaria aqui a escrever este texto exequial e todos, quase de certeza, estaríamos, em uníssono, a exaltar as extraordinárias qualidades da selecção canarinha.

É assim o mundo das sombras: a forma é volúvel e, por via do seu teor ilusório, voamos nas asas da tangencialidade letal, caminhamos trémulos sobre as alcantiladas arribas que bordejam o precipício – sempre na iminência de um pé mal colocado nos atirar para a boca do inferno.
É assim na vida, é assim também no futebol: o sucesso e a glória estão a uma mão-travessa do infernal precipício – como o ilustra aquela dramática final da Champions League, creio que de 1999, entre o Bayern e o Manchester United, quando, a escassos segundos do apito final, o Bayern estava no céu e, nos instantes finais, a golpes certeiros de guilhotina, o MU fez a equipa bávara e seus adeptos descer ao inferno.

Esta verificação, a da contingência volátil do sucesso, deve constituir-se em freio de uma exaltação paroxística quer de parte de dirigentes, atletas, como da massa adepta, e permitir que haja espaço para uma atitude de um desejável equilíbrio, relativizando a torrente inebriante de uma vitória, que, não tardará, será rendida pelo abatimento, pela frustração de uma derrota, saída do nada – ela poderá demorar mais ou menos, mas não falhará!

Na verdade, por um fio se tece o nosso destino. E a canela do Elias custou a cabeça do Dunga. E nem o facto de ser nome de profeta grande que venceu Baal em ígnea refrega no Monte Carmelo, nem isso, lhe valeu – nem ao próprio Elias, nem ao desamparado Dunga. Como lhes não valeu o esotérico discurso inflamado do inefável e enigmático “engenheiro” que, tratando-se de profetas, parece ter uma particular devoção a Jesus!

Dunga: mais uma vítima desta nossa cultura do efêmero: só o que gera prazer imediato tem valor. Por isso não há tempo para esperar pelos frutos do trabalho: preferimos a pílula da felicidade rápida!

José Antunes de Sousa é Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, Professor Visitante na Universidade de Brasília e Professor Convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
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