Redondo (des)acordo (artigo de José Antunes de Sousa, 51)

Espaço Universidade 13-06-2016 16:46
Por José Antunes de Sousa
Acabo de ter o privilégio de viver, com lusíada emoção, o dia de Portugal, de Camões e das Comunidades nos jardins engalanados da nossa Embaixada aqui em Brasília – um momento em que para mim se tornou ainda mais claro o que de há muito venho sentindo: na substância de Portugal algo há que suscita o afecto!

Já Jaime Cortesão, que por estas paragens espalhara afectos, falava na condição «amorável» do português. Mas entendidos que estamos acerca do teor afectivo da nossa condição e da amorosa tonalidade da Língua que nos forjou, convém que ponhamos os pontos nos ii.
É que pelo facto de sermos afectuosos não quer dizer que sejamos trouxas e que nos façam «o ninho atrás da orelha».
Por isso temos sobrevivido: quando nos apertam ou nos pisam os calos saltamos!
O pior e mais crítico é quando nos estão a comer de mansinho, isto é, quando sob o pretexto ou a aparência de nos estarem a acudir na aflição, nos estão tramando – como parece estar a acontecer com o tão falado fenómeno da espanholização da Banca (o que espanta é que só agora, que o território já foi tomado, se fale nisso), ou, como foi recentemente com a venda da E.D.P. aos melífluos chineses que nos vão levando à certa com o seu proverbial sorriso amarelo.

Ou como foi – e é – com o famigerado acordo ortográfico. Num dos programas que acabo de gravar para serem difundidos na celebração da importante efeméride dos vinte anos da CPLP a ocorrer no âmbito da Feira do Livro de Brasíla, aprazada para meados de Julho, tive oportunidade de denunciar o acto violentador de uniformização a que se está sujeitando a Língua, que é, recordemo-lo, um organismo vivo – ou, pelo menos, esse parece ser um dos principais, se não o principal argumento dos seus defensores. Só que há um pormenor – essencial, diga-se: o desígnio da vida é a diferenciação! A Língua Portuguesa sobreviverá na sua diversidade de matizes e nunc , aposto, na sua forçada uniformização. Mesmo que eu venha a ter razão postumamente!

E um critério seguro de viabilidade expressiva de uma língua, qualquer que ela seja, é o da fidelidade às origens, da preservação dos sinais das suas raízes e da sua história semântica e existencial: uma língua que abdique do seu pergaminho genético e etiológico e se vote avidamente a um mero funcionalismo, acaba, por sacrificar no altar de um pragmatismo banalizante a sua própria personalidade. Ou seja, a nossa Língua acaba por ver dissolvida a sua identidade num movimento ventoso de igualitarização – e o que é igual a tudo nada é!

Querer uniformizar quando já está de há muito consolidada a diversidade é como um imprudente maquinista que quisesse à viva força impor uma inversão de marcha ao omboio em movimento. À língua de nada vale querer uniformizá-la, que não há medida que lhe sirva: quando o uniforme lho vestem à força ela perde o seu jeito, o seu ar, a sua graça, enfim, o fascínio da sua polissemia! Se qualquer estudante de Biologia sabe que uniformizar é travar o processo da própria vida, a que se deve esta fúria uniformizante? – perguntar-se-á.

Não sei, mas a suspeita anda por aí: será que ilustres linguistas, na sua boa fé e certamente nas suas boas razões, se prestaram a um frete – o da globalização da facilidade? Custa a crer que tudo não tenha passado de um piedoso pretexto para mascarar o desígnio de um pragmatismo globalizante – em que a linguagem codificada e esquelética do Google alimenta um novo sistema magmático de comunicação instantânea e superficial. Um passo gigante na evacuação da alma e na robotização do homem.

Meus amigos e compatriotas da nossa amada Língua, a diversa modulação da Língua Portuguesa, sobretudo em relação ao sotaque do Brasil, é um valor, não uma ameaça. Vejamos o sugestivo exemplo do futebol.
O Ti Manel , lá dos lados de Penalva do Castelo, habituado, de transistor encostado ao ouvido, ao gongorismo do circunspecto Ribeiro Cristóvão ou ao classicismo de um Fernando Correia, a princípio estranha, mas depois se entranha, eufórico, no relato espectacular, esdrúxulo, de um Nilton Leite, de um Jader Rocha, de um Júlio Oliveira ou do impagável Daniel Pereira nas segundas de Futsal: «que é isso, meu garoto, presta atenção no serviço!». Exemplifiquemos:

«O garoto Gabriel de Jesus vai pra cima da marcação e, oh, galera, faz uma caneta encima do zagueirão do Grêmio, o pobre Geromel, que acaba beijando o gramado – mais um abusado! – e, em frente do goleiro, chuta para a arquibancada, onde estão os torcedores do time tricolor gaúcho. Tiro de meta! Oh, não, afinal, a arbitragem está dando falta por impedimento do volante do Santos, time que, depois de ter, em mais uma rodada do Brasileirão, tomado mais um gol contra, quando o zagueiro, na tentativa de enviar para escanteio, dá uma furada e coloca a bola no seu gol, está acusando o desfalque de Lucas Lima que é quem pensa o jogo da equipa que assim vai optando pelo chutão e não tanto pelo seu habitual toque de bola».

Aposto que nenhum dos meus leitores precisou de esforço suplementar para entender este imaginário trecho. Por isso insisto: respeitemos a riqueza da expressividade da nossa Língua, em vez de tentar aprisioná-la. O que vale é que os seres vivos são seres transgressivos e inventam sempre formas de diferenciação – como a língua. O futebol é um território particularmente favorável à plasticidade da nossa Língua: é um bom exemplo da inconsequência uniformizadora da Língua empreendida por alguns «pedreiros do futuro».

Porque o que nos caracteriza é a nossa aptidão para lidar com as incógnitas da vida: «o que torna o português importante no mundo é que ele é muito variado» (Agostinho da Silva). O Futebol tem destas coisas: às vezes é exemplo para a própria Academia que, por sua vez, faria bem não o desdenhar tanto!

José Antunes de Sousa é Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, Professor Visitante na Universidade de Brasília e Professor Convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
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