A síndrome do dragão (artigo de José Antunes de Sousa, 50)

Espaço Universidade 04-06-2016 10:23
Por José Antunes de Sousa
Foi o que toda a gente estava a ver: o Porto arrebatou ao tetracampeoníssimo Benfica o ceptro de campeão nacional em basquetebol! E, para começo de conversa, a eterna questão do costume: foi o Porto que ganhou ou o Benfica que perdeu? A resposta também é a mais usual e a que menos comprometedora se revela para quem a dá: as duas coisas!
Bom, admitindo que sim, que as duas coisas ajudam a explicar o conhecido desfecho, eu creio que foi sobretudo o Benfica que perdeu, ressalvando embora o voraz apetite que os dragões manifestaram, sobretudo na fase decisiva da prova.

Eu estive lá dentro, lidei mui de perto com atletas, técicos e dirigentes e sinto-me minimamente habilitado a formular aquele que cheguei a designar pelo “complexo azul” – por tabela, até com o Belenenses as equipas do SLB experimentavam estranhas dificuldades.
Por isso, todos se recordam do grito histérico de uma alegria incontida que varreu as hostes da Luz quando os pupilos de Carlos Lisboa naquela luta de titãs, na época, se não estou em erro, de 2011-2012, provocaram um inesperado estado de apoplexia nos altos dirigentes portistas – ao ponto de, em plena pista, terem decretado a dissolução da equipa.

De facto, num derradeiro e brutal arreganho de uma alma que se recusava a sucumbir uma vez mais, num espasmo final de uma improvável auto-extasiação, numa tentativa desesperada para forçar a abertura da fechadura da porta do céu, eis que aquele miraculoso e, sejamos claros, irrepetível, cesto de três pontos, quase do meio da quadra, do irrequieto e indefectível Hugo Carreira, cravou uma venenosa lança no coração do Dragão que, a sangrar de tão dilacerante ferida no seu orgulho, empreendeu, ali mesmo, uma descida aos infernos do lixo e da decomposição, para, a partir do saguão da vergonha e da humilhação, aos poucos, passo a passo, pé-ante-pé, se reerguer e reaparecer flamejante, até transformar aquelas cinzas em que, por desespero, mas também por vontade própria, se convertera, em fogo irresistível.

De um lado, fora a excepção que empurrara o Benfica para a passarela de um ilusório passeio de superioridade num caminho aliviado da presença assombrada do inimigo devorador, e, de outro, fora uma descida desgostosa ao purgatório da humildade e da redenção – e, agora, um, o Benfica aparece cansado de um sucesso fácil, viciado na mecânica arte de passear, e o FCP surge reapossado das suas virtudes do passado, e parece ter recuperado o vício de ganhar em duelos de morte – esse clima favorável à glória dos mortais!

Enquanto o Futebol Clube do Porto fazia a sua “via crucis”, o seu caminho de auto-regeneração, do purgatório na direcção do céu, eis que o Benfica, qual Dioniso, se embevecia no autocomprazimento da sua imagem de aparente invencibilidade. Porém, mal assomou à boca-de-cena o velho inimigo, eis que todo aquele verniz, postiço, está bem de ver, feito de uma glória induzida e ilusória, deu de si e começou a estalar por todos os lados. Não foi no confronto directo que a derrocada aconteceu – bastou a simples notícia de que o tenebroso monstro vinha a caminho para pôr o ninho da Águia em aflição e desalinho, invadido por toda a sorte de fantasmas.

O grupo da Luz foi traído – e quem o não seria? – pelo encandeamento de um brilho intenso mas artificial, minado e carcomido insidiosamente pela espondilose de um sucesso fácil, sem espinhas, isto é, sem o ascético mas magnificente exercício de ter que dobrar de vez em quando a espinha: faz bem, faz fortalecer as dobradiças da nossa humanidade. Dá toda a ideia que quem mergulha no pó da sua humildade e empreende a subida da escadaria de retorno a uma grandeza, assim redobrada de apelo, chega categoricamente ao sucesso – a uma reconquistada glória. Ao menos é o que parece ter acontecido com a equipa de basquetebol do FCP.

É certo que a equipa nortenha deu, desde o início, fartos indícios daquilo ao que vinha – ganhar! Mas insisto na minha: foi muito maior o susto do Benfica do que a certeza do Porto. É verdade que o dragão exibiu ameaçadoramente as suas fauces ávidas de sangue, mas essa fera ameaçadora quem a criou foi a mente amedrontada do grupo de Lisboa, em pânico perante a possibilidade de reedição de velhas histórias de dor e desengano.

Que é forte a equipa? Tanto ou mais do que a do Benfica, certamente. Necessitada e empolgada pela hipótese de salvar a honra portista enxovalhada no lamaçal de uma época rasa de mediocridade? Também!
Mas não fora a ajuda decisiva do medo benfiquista e as coisas teriam sido diferentes: foi o medo encarnado a chave da vitória azul – e sabemos bem que temer uma coisa é plantá-la no nosso próprio quintal.
Sugestão: mais importante do que contratar bons jogadores é fazer uma sessão colectiva de exorcização da fobia ao azul – afinal, é a cor do céu!

José Antunes de Sousa é Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, Professor Visitante na Universidade de Brasília e Professor Convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
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