Atlético de Madrid: assalto ao Olimpo (artigo de José Antunes de Sousa, 45)

Espaço Universidade 05-05-2016 20:38
Por José Antunes de Sousa
Depois de mais uma épica jornada, agora na fortaleza, sintomaticamente batizada de Arena, do todopoderoso Bayern de Munique, que mais se poderá dizer desta equipa do Atlético que se não tenha dito já? Talvez o óbvio, mas que, até aqui, poucos ousariam arriscar: esta equipa madrilena, que o Real teima em considerar dos subúrbios, pode perfeitamente ganhar esta edição da Champions League.

Vejamos: na balança do movediço, mas a que tantos se agarram, cálculo das probabilidades, o que é sociologicamente mais expectável – e, certamente, o mais provável – é que seja o Real Madrid a ganhar o troféu, mas, para mim, o mais certo é que seja o Atlético a ganhá-lo.
Porquê? - perguntará o meu estimado leitor. Se o modelo de análise e de previsão fosse aquele que o paradigma materialista apregoa – o da mensurabilidade – claro que seria o Real a ganhar: bastaria medir o volume dos milhões que o astronómico (parece que se fala menos de galáctico) plantel carrega.

Só que é bem diferente o clima que tonifica e incuba as vitórias – ele caracteriza-se pela imprevisibilidade, pelo caos criativo. Ou seja, temos que assentar num novo modelo de causalidade: não nos chega o modelo clássico de uma causalidade linear – só o de uma causalidade «entrelaçada», «circular», «hierarquizada», também conhecida como «hierarquia unificadora» (Goswami, 2008), nos pode amparar neste nosso engodo pelos vaticínios.

A «cadeida do ser» não se confina ao que dele é apenas o segmento mais rude: há mais realidade do que aquela que podemos constatar através da actividade elementar dos cinco sentidos. E, no desfecho de um jogo, intervêm aspectos de ordem emocional e espiritual que escapam à métrica de uma previsão determinística.

De facto, no seio da comunidade científica, é cada vez mais pacífica a necessidade de se passar do espartilho da clássica objectividade forte – assim designada não por ser mais verdadeira, mas por estar baseada na aparente rigidez do mundo físico e na fortaleza da mera verificação sensorial e que dá a ilusão de uma separação entre o sujeito que observa e o objecto que é observado – para aquilo que Bernard D`Espagnat (1983) designou de «objectividade fraca», em que sujeito e objecto se afectam mutuamente, como, por seu turno, bem demonstrou Werner Heisenberg. De resto, em 1970, o famoso físico Fred Alan Wolf declarou ousadamente: «nós criamos a nossa própria realidade», isto é, a nossa percepção é o veículo criativo e determinativo da nossa própria realidade, na peugada do axioma de George Berkeley, – somos responsáveis pelo que somos!

É por isso – e reportando-nos ao mundo prosaico (mas importante) do futebol – que, aqui no Brasil, o Audax, por exemplo, discute, palmo a palmo, o título de campeão no campeonato paulista com o Santos de Pelé, o América o campeonato mineiro com o popular Galo, o famoso Atlético e o modesto Juventude tenta bater o pé ao poderoso Internacional no campeonato gaúcho. Para não falar do Vasco da Gama que, apesar de ter descido de divisão, foi autor talvez do melhor desempenho, entre todas as equipas, na segunda volta do Brasileirão e, já esta época, além de ser o clube há mais tempo invencível, está em vantagem sobre o Flamengo na disputa do título de campeão carioca, depois de já ter ganho a Taça Guanabara em rija disputa com o Fluminense.

Mas voltemos ao Atlético de Madrid, que foi por causa desta flamejante equipa que ousei incomodar o meu fiel leitor com algumas breves e insuficientes considerações de carácetr epistemológico, pelo que espero ser contemplado com a sua benevolência. Mas era importante fazer tais observações – que isso exige o fenómeno calchonero que parece escapar a todas as sensatas previsões. V

Vejamos: Há nesta equipa de guerreiros, no limiar de uma colectiva alucinação, muito mais poder do que aquilo que parece indicar a mera consideração aritmétca do seu poder relativo, isto é, medido à luz de um critério meramente quantitativista e sociológico – porque sobra sempre aquela porção misteriosa, sempre fugidia a qualquer tentativa de a definifir, e que pode determinar o curso dos acontecimentos.

Não quero, atenção, de modo algum insinuar que o valor do Real Madrid se fixe exclusivamente nos limites do físico, do tecnico-táctico e do valor individual dos seus atletas – também no Real há mais qualquer coisa. Só que, no Atlético, parece haver bem mais dessa qualquer coisa – à falta de outras coisas que o Real parece ter em abundância, sobretudo dinheiro para contratar os melhores.

Mas a presença do Atlético de Madrid na final da Champions (inédito: duas equipas repetirem a final e duas equipas do mesmo país e da mesma cidade) encerra, ínvia embora, uma auspiciosa mensagem: os mais pequenos (o Atlético tem vindo a conquistar a pulso um estatuto de uma grandeza inesperada) também podem ser felizes – é a democratização do sonho!
O Olimpo não está, afinal, exclusivamente nas mãos de uma oligarquia.
O Atlético de Madrid, com o seu feito, com o seu democrático assalto, veio provar que o Olimpo não é mais um condomínio fechado – só de ricos.
Os partidários do sonho devem, por isso, todos, torcer, no dia 28, pelo Atlético.

Eu, desde os tempos (década de sessenta) em que lá jogou o Jorge Mendonça – quem se lembra? – que nutro uma indisfarçada simpatia por este clube que lembra, nas suas camisolas, o pano riscado com que a minha avó fazia os colchões.

Todos devíamos estar gratos ao Atlético de Madrid por ter conseguido desmontar a lógica determinística da glória – afinal, equipas com orçamentos mais contidos podem também aspirar à coroa!
Com um importante alerta: exige-se-lhes o heroísmo da fé!

José Antunes de Sousa é Doutor em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, Professor Visitante na Universidade de Brasília e Professor Convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
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