Carta Aberta ao Dr. Rui Gomes da Silva (artigo de Manuel Sérgio, 139)

Ética no Desporto 03-05-2016 17:48
Por Manuel Sérgio
Querido Amigo: Como sabe, nem sou Benfica, nem Sporting, nem F.C.Porto - sou do C.F. “Os Belenenses e não tenho segundo clube! E, como sabe também, sempre o disse e não digo agora, por quaisquer intuitos inconfessáveis. O Belenenses era o clube do coração dos meus saudosos Pais. E será o meu, até ao fim dos meus dias!

O Benfica, o Sporting, o Porto são clubes de indiscutível grandeza e de um tal relevo sócio-cultural que os acompanho de coração em festa, sempre que as suas “performances” merecem admiração e aplauso do mundo todo do futebol. Há uma semana, na sessão de lançamento do último livro do Fernando Correia (voz inconfundível da rádio portuguesa e de uma invulgar clareza e elegância expositiva) eu encontrei o Pedro Gomes, um dos heróis da “Taça dos Vencedores das Taças” de 1964, um daqueles sportinguistas que o Sporting não deixará morrer nunca. Coube-me portanto a sorte de ouvir um grande mestre do futebol, ainda felizmente vivo, um antigo futebolista que, de leão ao peito, recordava os seus adversários, designadamente o Eusébio, o Torres, o Coluna e os que os acompanharam na mais célebre equipa portuguesa de todos os tempos, “com ternura e com saudade” (disse-me ele).

Ofereceu-me três livros da sua autoria. Num deles, Lances de Poesia, deu forma poética ao seu amor pelo Sporting Clube de Portugal e pelos jogadores e técnicos e dirigentes que melhor o souberam representar, ao longo dos anos. Mas deu também forma poética a um grande respeito e admiração pelos seus adversários que representavam diferentes bandeiras, falanges opostas à sua – porque afinal, sem adversários, não há competição desportiva. O adversário, no desporto, não pode ver-se, mesmo tão-só com verbosa impertinência, como um inimigo. Sem ele, não há competição; sem competição (fraterna) não há desporto. A competição em que o Pedro Gomes se empenhou com (não contra) jogadores doutros clubes não empanou, felizmente, as relações cordiais que os une. Pelo desporto, estes “homens do futebol” tornaram-se humanistas de boa estirpe.

Quando vejo humanismo no Pedro Gomes e noutros jogadores de futebol, não quero dizer que eles lêem Platão ou Aristóteles, ou Erasmo de Roterdão ou Montaigne. Saliento, sim, que vivem de um sistema de valores onde a competição não exclui, mas supõe, “fair-play”, respeito pelos outros e por nós próprios, transcendência visando a excelência e a promoção de competências intelectuais e éticas, através do desenvolvimento da literacia motora. Isto supõe, se não laboro em erro grave, que o dirigente desportivo saiba “dirigir”, usando discreta e firme influência, que amacie, em vez de agravar, os clássicos atritos criados pela competição que reproduz e multiplica as taras do economicismo ambiente. Isto supõe a incomensurabilidade entre duas linguagens, porque a linguagem é cultura: de um lado, o adepto só com enunciados emocionais; do outro, o dirigente e os seus assessores, o treinador e a sua equipa técnica, também com enunciados emocionais, mas com a racionalidade suficiente para que o seu discurso ganhe alguma credibilidade. O brasileiro Tostão costuna dizer que “craque é o que antevê a jogada, é o que pensa melhor e antes dos outros”.

O que fizeram o britânico Herbert Chapman, o austríaco Hugo Meisl, o húngaro Gustav Sebes, o srgentino Helenio Herrera, o italiano Arrigo Sacchi, os holandeses Rinus Michels e Johan Cruyff, o espanhol Pep Guardiola e o português José Mourinho (no meu modesto entender, os mais criativos treinadores da história do futebol) senão pensar melhor e antes dos outros? Sim, por vezes, a racionalidade não pode ser tudo. O próprio Meisl sublinhava que, em determinadas alturas do jogo, o futebol não tem qualquer sistema: é sobre o mais perspicácia, velocidade e surpresa. Mas, quando a irracionalidade é tudo, findam as condições favoráveis à emergência de uma racionalidade crítica e autocrítica e a vontade de concretizar, de viver, de experimentar as conclusões onde se chegou.

Li o seu artigo de 2016/4/28, no jornal A Bola. Em tudo o que escreve transluz um grande amor ao seu Clube, mormente quando se refere a estímulos, a vivências, a uma grande compreensão pela originalidade do sentimento que percorre o sentir da família benfiquista: “A onda vermelha continua e, com ela, o colinho dos adeptos, incansáveis no apoio à equipa, um verdadeiro 12º. Jogador (passe o lugar comum). Aqueles que conseguem criar um ambiente motivador e simultaneamente de grande pressão sobre a equipa adversária. Aqueles que, para isso, tantas vezes se sujeitam a intermináveis filas para conseguir o bilhete que lhes dá a possibilidade de apoiar a equipa. Aqueles ainda que, nos momentos mais delicados, nunca desistem, nunca esmorecem e que carregam e empurram literalmente a equipa. Os tais, os das largas centenas de quilómetros ou – ainda e tão-só explicável pela paixão ao Benfica – os que fazem esses mesmos quilómetros apenas para apoiarem a equipa, apesar de não terem bilhete. É esta união perfeita que temos de perpetuar até ao fim da época”.

É verdade: as vitórias, no alto rendimento desportivo, não resultam apenas da técnica e da tática e do treino, mas também de uma rede de relações (os antropólogos chamam-lhe “parentesco artificial”) que dá a convicção profunda ao atleta da sua pertença a um clã, a uma família, a uma identidade essencial. As canções, os aplausos, as palavras-de-ordem, lançados das bancadas pelos adeptos, reforçam a identificação clânica e tornam mais forte e mais corajoso e mais capaz de inesperadas surpresas o jogador de futebol. Cruyff, ao definir o célebre carrossel holandês, afirmou ao jornalista brasileiro Alberto Helena Júnior:”nós, os futebolistas holandeses, cultivamos o círculo como uma forma perfeita, quase mágica. O nosso futebol não poderia ser doutro modo. Transferimos para o campo a tradição e a espontaneidade dos nossos compatriotas. Por isso, podemos jogar com tanta fluência individual e coletiva. É como se estivéssemos dançando as danças e cantando as canções do nosso povo, cumprindo enfim o nosso destino como parte da nação”. E o que se passa nas bancadas e no relvado são aspetos litúrgicos da mesma “religião”.

Se estudarmos, mesmo superficialmente, a história do “desporto-rei”, dela se infere que o futebol nasceu e continua clubístico. Refere o Claude Lévi-Strauss, na sua Antropologia Estrutural (cfr. edição francesa, Plon, Paris, 1958) que “nada se assemelha mais ao pensamento mítico do que a ideologia política. Na sociedade moderna, a ideologia política substitui o pensamento mítico” (p. 231). Nos ulteriores Mythologica, Lévi-Strauss precisa o que entende por mito, na base das seguintes características: “ao contrário do pensamento científico, o mito não é um pensamento demonstrativo, analítico, etc., mas narrativo, fantástico, abrangendo principalmente as emoções e, globalmente, com menores ou nenhumas pretensões de objetividade. Encontra-se próximo da religião e da arte, do rito e da magia; a ciência, por seu turno, nasce em oposição ao mito, ou seja, como desmitificação e desencanto do mundo”.

Ora, porque muito vivi, no seio mesmo do futebol, sabendo embora que nada sei de futebol e nunca fui mentor de qualquer treinador de futebol, muito me foi dado, no entanto, ouvir, contemplar e pensar sobre o desporto em geral e o futebol em particular. E, porque a função da Filosofia é principalmente crítica, analítica e hermenêutica, ouso adiantar que, atualmente, o mito, no desporto é tão visível que ofende os olhos de quem o vê. E nem o mito, na política, me parece tão indiscutível, tão incontrolável, tão indomável. Por generosidade sua, não tenho receio de sublinhar que o meu ilustre amigo é um crítico desportivo de estudo planeado e cumulativo e de grande curiosidade intelectual.

E é também vice-presidente do maior clube português, o que o obriga a uma defesa permanente do bom nome e da história e das virtualidades do S.L. Benfica (que muitas são) mas não o dispensa de admirar no Dr. Rui Gomes da Silva um benfiquista isento e um desportista exemplar. Se o Benfica chegar à vitória, pela trigésima quinta vez, no Nacional de Futebol, o meu amigo está, com toda a certeza, na primeira linha, dos que mais lutaram, pela palavra falada e escrita, em prol deste enorme anseio do seu Clube – luta que não é fácil travar, por muitos motivos e porque, de facto, a equipa do Sporting C.P. tem indesmentível valia (que o meu amigo reconhece, tenho a certeza). Termino com o habitual abraço fraterno. Manuel Sérgio

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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