“O Homem Que Não Tinha Idade”: um romance de Fernando Correia (artigo de Manuel Sérgio, 138)

Ética no Desporto 25-04-2016 17:24
O jornalista Fernando Correia (o jornalista da imprensa escrita e da rádio e da televisão) com a sua voz forte, viçosa e soberba e uma ironia compassiva diante das fragilidades próprias e alheias; sportinguista pela emoção e desportista pela razão e que espalha, com naturalidade, principalmente na rádio, a abundância do seu talento verbal, da sua finíssima intuição e da sua vasta experiência colhida numa vida intensamente vivida – o jornalista Fernando Correia é também um escritor profunda e inteiramente original e de qualidade literária que me apraz salientar.

O romance que vem de publicar, através de Guerra e Paz Editores, intitulado O Homem Que Não Tinha Idade, encantou-me, direi mesmo: emocionou-me. E não tenho receio em adiantar que nenhum amante de boa literatura deixará de reconhecer, neste livro, excelência estética. Recordo um outro livro do Fernando Correia, Natália Correia – de alma aberta (setecaminhos, Lisboa, 2006). Trata-se de um poema em prosa, que me deixou na ansiosa expectativa de novos livros deste autor e meu querido Amigo. É que a Natália, que nasceu da sua prosa poética, ora ensopada de lirismo, ora tangente com a sátira, ora a florir num sentimento indomável de ternura – a Natália que o Fernando sentiu e amou é poeta porque, acima do mais, é uma sublime mulher. Colhi no livro Natália Correia – de alma aberta o trecho seguinte de Rainer Maria Rilke: “Para escrever um simples verso é preciso conhecer muitas cidades, homens, animais, ter a alma aberta para o voo dos pássaros e ser capaz de perceber os gestos simples das flores ao amanhecer. Para escrever um simples verso é preciso estar preparado para encontros e desencontros. É preciso saber voltar a momentos da nossa infância, que até hoje não conseguimos compreender. É preciso recordar o que sentimos ao magoarmos alguém que sempre nos desejou o melhor possível. Para escrever um simples verso é preciso passar muitas noites ao pé de quem amamos” (p. 35).

Rainer Maria Rilke não conhecia o Fernando Correia, o locutor da Emissora Nacional, discípulo e colega de D. João da Câmara, de Artur Agostinho, de Maria Leonor, de Pedro Moutinho, nem o profissional da rádio, sempre de alma inteira em tudo o que faz, da RDP, do Rádio Clube Português, da Rádio Comercial, da TSF e da Rádio Amália; nem o diretor do Diário Desportivo e o redator e colaborador do Record, A Capital, O Diário, Gazeta dos Desportos, Jornal de Notícias, Diário Popular e Sporting; nem o comentador-residente da TVI, nem a ficção que a sua imaginação desbordante concebeu. Rainer Maria Rilke não conhecia o Fernando Correia, mas escreveu para pessoas com o nível espiritual e a sensibilidade moral e a plenitude poética do Fernando Correia. Aliás, o autor de O Homem Que Não Tinha Idade aprende, na sua obra literária, a aprender-se, porque todos os seus livros só poderiam ser escritos por um homem que muito sofreu, que muito amou, que muito viveu. Este romance assim começa: “João sentou-se na beira da cama (…). estava um pouco atordoado. Talvez mesmo sonolento. Como se dentro de si houvesse uma ausência de valores e, subitamente, tivesse tropeçado nos dias e rolado pela escada da incompreensão, do desassossego e da injustiça. A escada que conduz à noite sem fim, ao eternamente só, à humilhação de saber que os filhos tinham acabado de o depositar naquele lar de idosos, considerando-o incapaz, objecto sem valor, carne engelhada e osso roído, sem mente, sem valor, sem nada. João já não prestava, diziam os filhos, mas não dizia ele (…). Ali, naquele local onde o puseram, o lençol era branco, a colcha era branca. A vida é que deixava de ter cor”. Aos 83 anos era viúvo e os filhos empurraram-no para um lar de idosos, fingindo mesmo que, só depois de muito excogitar a melhor solução para o caso do pai, decidiram tomar tal decisão. Só que o “João tinha ainda nos seus sentidos a visão de coisas que não se esquecem e se traduzem na beleza infinita do horizonte distante”. E, para os filhos, “João estava a mais. E sabia-o” (p. 75). Resolveu então fugir, numa daquelas atitudes corajosas pelas quais passa o tempo com respeito...

Escondeu-se numa aldeia beirã, apoiado na cumplicidade e na compreensão de um velho amigo, o António Soares a quem confidenciou, desde logo: “Quero viver. Mas não quero que me obriguem a viver como eles querem. Se a Joana (a sua defunta mulher) fosse viva, nada disto aconteceria” (p. 79). Um mês depois, “dir-se-ia que João Ferreira não era a mesma pessoa. Tinha o cabelo branco revolto e uma barba simpática que lhe modificava, por completo, as feições. De Lisboa não chegavam notícias e até jornais ou televisões da especialidade não perderam mais tempo com o desaparecimento do João. Para os filhos era conveniente. Só que não podiam mexer na conta bancária do pai (…). O gerente da dependência do banco em Lisboa disse aos filhos que o sigilo o impedia de ir mais adiante (…). Por essa altura, João já tinha amigos na aldeola e já fora limpar, com a ajuda do amigo António e de uma prestável mulher da zona, a casa da ribeira para onde se iria mudar a seguir (…). Mudar de espaço. Movimentar o corpo. Plantar couves e alfaces. Encher a capoeira de pintos, coelhos. Até um casal de patos lhe enfeitou o quintal” (p. 83). Por intermédio do António, conheceu a aldeia, a gente da aldeia e o próprio pároco da aldeia – que já fora casado e buscara, na ordenação sacerdotal, a cura para um fundo desgosto, pela infidelidade da mulher com um dos seus melhores amigos. Depois de muitos anos, voltou a entrar dentro de um templo, onde borbulhavam as orações bichanadas por sumidas figuras de mulher. O Padre Albino (assim se chamava o pároco) assumiu mesmo, com êxito, a sua defesa quando, nem as autoridades, nem a família, compreendiam as razões da sua fuga e pretendiam amarrá-lo, de novo, num lar de idosos. Era ali, entre flores e frutos e sombras afetuosas e panoramas de muitas fisionomias, era ali que o João se sentia de peito desoprimido, de mente liberta, respirando luz e alegria, era ali que ele vivia livre e feliz. Foi ali que conheceu Alzira e dela se apaixonou – ele viúvo, ela desconhecendo o paradeiro do marido que foi ao Brasil e não mais voltou...

Depois de um baile, encontraram-se em casa da Alzira. “Abraçaram-se num abraço que durou até que a aurora viesse, entrecortado por palavras segredadas de um desejo tanto tempo guardado e pelo entrelaçar de dois corpos desejosos, ávidos (…). Como é que um homem sem idade consegue ser ele próprio, ultrapassando o convencionalismo do tempo? Por isso mesmo. Por ser um homem sem idade. Quantos anos tinha, agora, João? Ele sabia. Mas eram os suficientes para ser ele mesmo. Finalmente.!” (p. 119). Até que chegou o Natal! E as saudades da sua querida Joana e dos seus dois filhos homens e da Isabel, a sua única filha, assaltaram-no.

Inevitavelmente! Mas o homem sem idade sabia agora que, por não ter idade, era possível um Natal tão-só com o António e o Padre Albino e a Alzira – os quatro sonorizando em doces palavras a mensagem de Jesus de Nazaré. O crepúsculo adensava-se, mas o homem que não tinha idade, porque não tinha idade, aprendia e ensinava, uma vez mais, que não era reflexo do passado, mas projeto de um mundo possível; que nenhum passado pode considerar-se como fim último, porque todos os momentos da nossa vida são tarefas a realizar; que é Natal sempre que o ser humano quiser que Jesus nasça. Mas, voltemos ao romance do Fernando Correia: Naquela noite de consoada, nem o sacerdote, nem o António, nem a Alzira, nem o João esperavam por ninguém. “Ouviu-se uma voz feminina: Mora aqui o senhor João? Ao ouvir aquela voz, João levou a mão ao peito e ergueu-se lentamente da mesa. O Padre Albino pôs-se a seu lado. Caminharam ambos para a porta. Estava uma mulher ainda jovem, a tentar atravessar as sombras, com os olhos bem abertos, tendo a seu lado duas crianças e, mais atrás, estava um homem que tentava amparar a jovem. João gritou: Isabel! Isabel respondeu: Pai! E ficaram abraçados longamente, neste reencontro com o destino. Enquanto isso, o Padre Albino abria os braços em cruz e Alzira deixava rolar, pelo rosto, duas lágrimas de amor”. Assim termina o romance O Homem Que Não Tinha Idade. Há livros que não li e não gostei. Este li e gostei. Parabéns ao Fernando Correia.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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