“Quem não arrisca não petisca” (artigo de José Antunes de Sousa, 43)

Espaço Universidade 23-04-2016 00:00
Por José Antunes de Sousa
Este ditado, tantas vezes invocado, é, afinal, a versão popular, pindérica, dirão alguns, do aforismo latino «audaces fortuna juvat» (a sorte favorece os audazes), imortalizado pelo fantástico poeta latino, Virgílio, na Eneida,X, 284 e que, entre nós, a tropa dos “Comandos” adoptou como lema de vida.

E é bem certo que assim é – como foi, acreditem, o que aconteceu num recente jogo de futebol a contar para o campeonato paulista, o popular paulistão, entre o nóvel clube (fundado em 2004), o Grêmio Osasco Audax e o todo-poderoso São Paulo. Resultado? Um verdadeiro enxovalho para um clube com o invejável palmarés do colosso S. Paulo: o Audax (também conhecido carinhosamente como o audax(c)ioso) atropelou literalmente um conjunto de rapazes atónitos e que passaram boa parte do encontro a ver como os «garotos» audaciosos do pequeno clube trocavam entre si a bola, numa visível e genuína manifestação de gozo, de um prazer lúdico que a todos contagiava: 4 – 1- categórico e retumbante! E, com isso, o modesto clube - em meios, que não na audácia - se apurou para as meias-finais da competição, enquanto o São Paulo foi, inapelavelmente, apeado dessa sua legítima ambição, vendo-se agora, se quer salvar a face, obrigado a virar as suas flageladas energias para as agruras da altitude de La Paz, onde precisa de, pelo menos, empatar com o The Strongest para seguir em frente na Taça Libertadores.

Sejamos justos: deste tipo de surpresas ainda se vai tecendo o ainda, mas cada vez menos, romântico futebol brasileiro, sobretudo ao nível dos campeonatos estaduais – como foi agora o caso.

Recuperemos um pouco do filme do jogo: lá atrás, os defesas (laterias e zagueiros) do Audax trocando calmamente a bola entre si e, não raro, com o guarda-redes (goleiro), ainda por cima, suplente que, dando provas de nervos de aço, mas sobretudo de um prazer próprio de desportos radicais perante o perigo, driblava avançados contrários, mesmo junto ao risco fatal – simplesmente incrível! Eu, habituado ao modelo europeu de um futebol cerebral, esquemático, geométrico e calculista, confesso que nunca tinha visto semelhante dose de alarde e desplante à beira do precipício – um imprevisto exercício funicular capaz de provocar uma apoplexia às claques (torcidas). Mas ali, não: todos desfrutavam com a posse fluida e acariciante da bola – ao contrário do que é usual ver nestes lados mais frios do mundo da bola, em que um jogador entra em pânico cada vez que o companheiro tem a triste ideia de lhe endossar a redondinha, ali todos denotavam um indisfarçável prazer em tê-la nos pés: a equipa, toda ela, se exprime em campo através de um lascivioso engodo pela bola – e esta converte-se no objecto do afago colectivo. E, por isso, o jogo resulta (pelo menos naquele caso resultou) tão agradável de seguir.

Eles jogam à bola, divertem-se, antes de tudo o mais, e só acessoria e subsidiariamente se organizam também: a organização não como fim em si mesmo, mas como meio para melhor se jogar. Primeiro, a arte – e não há arte sem a ludicidade que a possibilita – e , só depois, a ciência. Enfim, o primado da arte sobre o esquema!

Primeiro, promover (trabalho sobretudo do treinador) um efectivo estado de contentamento –pessoal e colectivo – e, só depois, (não se trata de uma sequência cronológica, mas de uma diversidade de acções em espiral e entre si implicadas), impor os necessários limites à «hubris», ao devaneio. Primeiro, permitir e até encorajar que todos se divirtam e, só depois, que trabalhem também – que só o que se faz por gosto se faz suficientemente gratificante e realmente eficaz.

Um grupo unido na audácia de ser feliz, àquem da insuportável pressão de ter que sê-lo, isto é, de à viva força ter que ganhar – eis o segredo do Audax na sua estrondosa vitória sobre o gigante São Paulo.

Uma vitória que, apesar dos termos com que aqui tão grosseiramente a descrevo, foi tão admirável que, ao dia seguinte, o audacioso e inovador treinador desta equipa da Grande São Paulo, não teve mãos a medir, tantas eram as solicitações dos diferentes órgãos de comunicação social, interessados em ouvir do próprio a revelação de tão mágico segredo. E, pelo menos num dos principais canais de televisão, esteve em directo. Toda a gente ficou realmente boquiaberta, desde logo pela façanha em si, mas sobretudo pelo modo airoso, festivo e até brincalhão como a vitória fora obtida: Fernando Diniz eis um nome a reter.

Pois é, não é a primeira vez que abordo este tema neste espaço de reflexão: as equipas felizes ganham mais vezes – e a felicidade requer desapego e faz-se da lei do menor esforço: as aves não se esforçam para voar, simplesmente voam. Ou seja, a preparação física e mental são-no ao mesmo tempo e de forma integrada, em clima de alegre interacção.
A disciplina tecnico-táctica é, sem dúvida, necessária, mas não é nem suficiente nem um absoluto: o Manchester United ganhou, a 26 de Maio de 1999, uma dramática final da Champions contra o Bayern, com as duas equipas ao monte na área de Oliver Kakn, com dois golos nos descontos, enquanto, na outra área, o Peter Schmeichel celebrava o milagre com acrobáticos mortais à rectaguarda!

Caro treinador que tem a generosidade de me ler, se conseguir que os seus jogadores entrem em campo na firme disposição de se divertirem, as hipóteses de acabarem o jogo contentes são drasticamente superiores às daqueles que, com atitude sisuda, circunspecta e preocupada, abordam uma partida que, de modo nenhum, podem perder.

A obrigatoriedade constrange e paralisa: só o amor e a alegria libertam!
Terminemos com uma sugestão – de Platão: a do ideal da Beleza à volta do qual importa que nos organizemos. Sinceramente: acho mesmo uma óptima sugestão!

José Antunes de Sousa é Doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, Professor Visitante na Universidade de Brasília e Professor Convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile
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