O Desporto como Ciência e como Filosofia (artigo de Manuel Sérgio, 136)

Ética no Desporto 13-04-2016 17:01
Porque o ser humano se movimenta intencionalmente, o desporto é para mim um dos aspetos da motricidade, se leio bem o que a fenomenologia nos ensina. Não me sinto, por isso, um herético, ou um revolucionário, simplesmente alguém, “minimus inter pares”, que tenta criar. Para mim, explico-me: a motricidade humana é o movimento intencional e em grupo da transcendência (ou superação) – movimento intencional visível no desporto e no jogo desportivo, na ginástica, na dança, na ergonomia, na reabilitação, no circo, na motricidade infantil, etc.). Nenhuma teoria científica pode proclamar-se, “urbi et orbi”, como inteiramente, indiscutivelmente objetiva. O próprio Newton se enganou, ao defender que os conceitos e as leis fundamentais da ciência não constituíam criações do espírito humano, mas tão-só deduções, a partir da experiência. A teoria residia, para ele, nos fenómenos. A imaginação não contava no conhecimento científico. Não se nega que a prática é o critério da verdade, numa descrição objetiva dos fenómenos. O que se diz é que, antes da prática poder confirmar, a imaginação foi necessária. Aliás, o ser humano está todo em tudo. Não é possível pensar só com a razão, excluindo a imaginação, os sentimentos e o corpo. No mundo humano, há sempre subjetividade na objetividade. Não há total objetividade, portanto. Por isso, Bachelard (a quem muito devo, na minha formação epistemológica) ensinava que é preciso desconfiar tanto de um racionalismo ingénuo como de um materialismo mecanicista: aquele que acredita na ciência “a priori” dos seus estudos, do seu deambular incansável pelas livrarias, pelas bibliotecas e por aulas magistrais; este, ao desconhecer que a prática só verdadeiramente se entende também com o contributo indispensável, da psicologia e da sociologia e da antropologia cultural.

“Uma das contribuições mais fundamentais da epistemologia histórica atual, tal como vem sendo desenvolvida, após as inovações de G. Bachelard, consiste em mostrar que a categoria de Verdade não pode ser mais concebida como o cimento das teorias do conhecimento. Porque tanto as ciências como as filosofias e as demais formas de saber estão convencidas de que, no término de suas investigações, não é “a verdade” que irão encontrar, mas tão-somente “verdades” descobertas após um penoso e longo processo de produção histórica” (Hilton Japiassu, Questões Epistemológicas, p. 29). Ora, um dos pilares onde assenta a epistemologia histórica é o “primado teórico do erro”, o que significa que a história das várias ciências é um percurso inacabado de verdades provisórias e não o caminho infalível e triunfal da Verdade. Nesta perspetiva, a minha teoria da motricidade humana não é um dogma, mas um simples processo histórico. “Por isso, a renovação do seu conhecimento é diretamente proporcional à presença do erro” (idem, ibidem, p. 32). Recordo L. Althusser, no seu célebre Filosofia e Filosofia Espontânea dos Cientistas, que pôs em causa o caráter científico das ciências humanas. Eu baseio-me na célebre distinção de Dilthey, que divide as ciências em “ciências da natureza” e “ciências do espírito” e que não deixa de inspirar ainda uma legião enorme de estudiosos. A eflorescência da tosca fraseologia pseudo-científica, que domina o mundo do Desporto; a preocupação doentia pelos métodos quantitativos, que parece consumir e fazer perder o apetite de alguns cientistas desta área, como se os métodos compreensivos e hermenêuticos não existissem – mais dificultam o desenvolvimento de uma ciência autónoma de que o Desporto seja um dos sub-sistemas. Para quem, como eu, já dialogou (e principalmente aprendeu) com dezenas de treinadores desportivos e integrou uma equipa técnica (no futebol do S.L. Benfica) sabe, com alguma nitidez, que as “ciências do desporto” continuam atualmente numa constante busca de si mesmas. Mas que só como ciências hermenêutico-humanas é possível estudá-las com algum rigor!

José Eduardo Franco, um Intelectual e um Mestre, que me dá a honra de ser meu Amigo, escreveu que “quanto mais distante é o período histórico, mais imaginação, diria mesmo: mais capacidade criativa precisa o historiador, para ligar os cacos ou as ruínas do passado, entre si, e suprir o vazio do que definitivamente se perdeu, a fim de apresentar um vaso, ou o edifício do passado, com forma plena, total. Este escopo historiográfico de apresentar uma narrativa credível e coerente, ligando as pontas e os muitos pontos omissos de um dado assunto histórico, só é possível realizar com o recurso à especulação, à imaginação, à intuição” (Brotéria, Março de 2014, pp. 264/265). Seja como for, podemos adiantar que a Educação Física é um dos produtos do racionalismo moderno, onde o corpo deveria submeter-se aos imperativos da razão. A Educação Física, no século XVIII, destinava-se à mecanização do corpo-instrumento, do corpo-objeto e não ao desenvolvimento da motricidade, ou do corpo-sujeito no movimento intencional da transcendência. E, porque corpo-instrumento, onde a fisiologia (e não a complexidade humana) era a ciência-mãe, era o único radical fundante, era o pilar fundamental. Eduardo Lourenço afirmou que “povos e indivíduos só têm o passado à sua disposição. É com ele que imaginam o futuro” (A Nau de Ícaro seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia, Gradiva, Lisboa, 2007, p. 61). Assim, na História da Educação Física e do Desporto, designadamente à luz do racionalismo então dominante, o quantitativo predomina sobre o qualitativo; o corpo era matéria e pouco mais. No seu património cognitivo, permanece ainda o dualismo antropológico cartesiano, bem visível nas expressões Atividade Física e Educação Física e Preparação Física, etc., etc. E, como Wittgenstein não deixa de insistir: os limites do meu mundo são os limites da minha linguagem...

A Filosofia, no quadro dos saberes universitários, tem a seguinte e nobre missão: fundamentar, inter-relacionar e complementar. No meu modesto entender, fundamentar, inter-relacionar e complementar todas as formas de conhecimento, mormente o conhecimento científico. Para o Sartre (cfr. O Existencialismo é um Humanismo, na tradução portuguesa de Vergílio Ferreira, p. 218): “O homem é uma paixão inútil”. O Desporto, por seu turno, toma como suas as palavras do Blondel de l`Action: “O homem é aquilo que ele próprio se faz”. Logo na introdução deste seu famoso livro, Blondel começa por perguntar-se: “Sim, ou não, a vida humana tem sentido?”.

Inter-relacionando o Desporto e a Filosofia, o Desporto ensina à Filosofia que a transcendência é o sentido da vida. E o Desporto diz ainda à Filosofia: é preciso passar da Filosofia do Ser e do Logos à Filosofia do Ato e da Relação. A motricidade é o ser humano em movimento intencional. Ora, se bem interpreto o Lévinas: “a intencionalidade é essencialmente o ato de emprestar um sentido” (En découvrant l`existence, avec Husserl et Heidegger, Vrin, p. 27) – o desportista empresta à vida o sentido da transcendência, porque sem vontade de transcendência não há desporto. A Filosofia fundamenta o Desporto: (e sirvo-me do Teilhard de Chardin do Fenómeno Humano): “Quanto mais o Homem chegar a ser Homem tanto menos aceitará mover-se noutra direção que não seja aquela que leva ao interminavelmente, indestrutivelmente novo” (p. 257). Mas, nesta inter-relação Filosofia-Desporto, a Filosofia descobre a transcendência, como Ómega, ou “fecho da abóboda” de toda a existência humana. O filosofar pergunta pelo Desporto, numa perspetiva de fundamentação da prática desportiva mas, ao fundamentar, fundamenta-se, porque na transcendência tudo o que é humano encontra a significação e o sentido.
Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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