Mário Moniz Pereira - o poeta do desporto! (artigo de Manuel Sérgio, 135)

Ética no Desporto 07-04-2016 19:28
Por Manuel Sérgio
Mário Moniz Pereira, para além de um desportista sem mácula, foi, sem sombra de dúvida, o maior treinador de atletismo de todos os tempos e em todos os países.

O dr. David Monge da Silva, professor de educação física na Escola Secundária “Camões”, visitou os principais centros desportivos (refiro-me à alta competição) da antiga União Soviética. E prestes reparou que o nome de Moniz Pereira despertava uma extasiada atenção da parte dos seus cicerones, figuras cimeiras do desporto soviético. “Conhece o Moniz Pereira?”. E Monge da Silva a estuar de gratidão: “Foi meu professor, no Instituto Nacional de Educação Física e é um nome que todo o Portugal repete e não me refiro só aos desportistas portugueses, porque é respeitado no país inteiro”. E eles, adiantando uma convicção: “Para nós, é o primeiro dos treinadores de atletismo, em todo o mundo”. E explicavam a causa da sua afirmação: “Normalmente, no atletismo, um treinador de nomeada faz um atleta excecional. Ora, quantos não fez ele?”. E acentuavam, martelando as palavras: “Para nós, o Mário Moniz Pereira é uma das figuras marcantes da História do Atletismo”.

Eu próprio, que acompanho com atenção o desporto nacional, já fiz a mim mesmo esta pergunta: por que será que o Mário Moniz Pereira, ao contrário doutros treinadores, fez campeões da esmagadora maioria dos atletas que orientou e foram muitos, de há sessenta e setenta anos a esta parte? Porque tem e estuda mais compêndios de atletismo do que os seus pares? Alguns treinadores que pensam saber muito e nunca fizeram nada de relevante, perfilam-se no vazio, mas asseveram: “Não, ele não sabe mais do que os outros!”. Então, por que será que esses críticos vêem tudo escuro à sua volta, sem uma luz, ténue que seja, do desempenho espetacular de um dos seus atletas? É tarefa árdua e sempre aberta a ulteriores correções a interpretação que faço da carreira extraordinária, no desporto de alta competição, designadamente no atletismo, no voleibol e até no futebol, do Prof. Mário Moniz Pereira. No entanto, eu avanço: ele foi um treinador de méritos invulgares, sob muitos aspectos incomparável, porque era também um poeta, um compositor ou, se se quiser, numa palavra só, um artista!

No desporto, como afinal na própria ciência, o sábio criador é também poeta e artista. E assim eu levanto uma questão que julgo ser original: Moniz Pereira foi de facto um grande treinador, ou um grande poeta e compositor (repito-me: um artista) transviado? A sua obra, como treinador, é efetivamente original e até inigualável. Não se trata de simples logorreia, denunciada por si própria, pela sua ineficácia. Mas o que a distingue das demais é que o seu autor não é um racionalista, ou um positivista, que anacronicamente pensa que o desporto, cientificamente falando, se resume a números e a experiências laboratoriais. As nossas Faculdades do Desporto (embora o papel primacial que vêm desempenhando, na renovação que o nosso desporto atravessa) regurgitam de cientistas que não sabem treinar quem quer que seja. Porquê? Porque lhes falta imaginação, sensibilidade, poesia, arte. O treinador, verdadeiramente criativo, é um poeta, é um artista, mesmo que pareça, aqui e além, barroco, dionisíaco, excessivo, como um doutor em Desporto, que todos conhecemos, chamado José Mourinho. Há anos falava eu com o ex-treinador do F.C.Porto, no (já extinto) Hotel Tivoli da mesma cidade, e questionava-o: por que é você um treinador diferente? E ele encarando-me com o afeto que dedica a um seu velho professor: “Porque sou um homem diferente!”

A veemência do ideal e do entusiasmo, que ressaltava do Mário Moniz Pereira, foi o chão onde cresceram e frutificaram as suas vitórias desportivas, foi a motivação suprema dos seus atletas. O que acima de tudo ele prezava não era o frio esplendor da ciência, mas o culto do dever, o escrúpulo da honra profissional, o sentimento vivo de comunhão com a própria vida dos seus atletas. O estudo é necessário, indispensável; vivemos em plena Sociedade do Conhecimento, donde deverão ressaltar a eficiência, a inovação e a informação - mas é o ímpeto da vontade e a criação artística e a honestidade num trabalho constante, que transformam em prática inovadora o que é simples teoria, mesmo que, por alguns, muito declamada, muito retórica e, demasiadas vezes, pouco vivida.

Quem mantinha um diálogo com Mário Moniz Pereira e tocava em determinados temas, como a sua vida familiar, ou desportiva, o seu clube de sempre (o Sporting Clube de Portugal), a sua poesia, a sua música, os seus fados encontrava uma alma enamorada de tudo o que era belo e bom e poético; contemplava um homem que não continha as lágrimas, sempre que uma conversa ou uma melodia o arrebatavam; percebia por que é preciso ser, como dizia o José Mourinho, um homem diferente, para ser um treinador diferente. No caso de Mário Moniz Pereira, ele ensinava também que não se pode entender o desporto sem o amar e que o amor é a armadura psicológica e moral de todas as vitórias. Digamos mesmo, sem medo de errar: o amor é o coração da própria vida!

No livro Valeu a Pena, do jornalista e escritor (e, deixem-me acrescentar: excecional “homem da rádio”) Fernando Correia, pode encontrar-se uma síntese de rigoroso conteúdo documental da vida do Doutor Mário Moniz Pereira. Da leitura deste livro se conclui que o conhecido professor e treinador e poeta e compositor nunca se deixou prender no consabido “in médio stat virtus” do velho Aristóteles, ou na tranquila mediocridade de Horácio. Ele viveu para transcender e transcender-se; só quando superava e se superava, ele se sentia vivo e fiel aos princípios em que acreditava. Não cabe num simples artigo de jornal o “curriculum vitae” de Mário Moniz Pereira e as vitórias e os galardões que o encimam. Digamos a terminar que ele será, ao longo dos anos, um exemplo.

O passado é passado, bem o sabemos, mas vive em nós todos como herança. E a herança de Mário Moniz Pereira não honra só a ele, mas a todos os que a lembrarem, com curiosidade e respeito e veneração. Trabalhei no INEF, no ISEF, na FMH, no Fundo de Fomento do Desporto, na Direção-Geral dos Desportos, no Centro de Medicina Desportiva, no C. F. “Os Belenenses” e um ano, um ano só, no S.L.Benfica; conheci verdadeiros desportistas, com relâmpagos de talento, como “agentes do desporto”. Poderia invocar os nomes de Moniz Pereira, Salazar Carreira, Armando Rocha, Aníbal Costa, Acácio Rosa, Teotónio Lima, Eduardo Monteiro, Alberto Freitas, Pinto de Magalhães. Para mim, Moniz Pereira, pela idade, retirado hoje das pistas e dos estádios, não deixa ainda de ser ofuscante no seu crepúsculo…

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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