Marcelo Rebelo de Sousa: O Futebol ao Serviço dos Portugueses… (artigo de Gustavo Pires, 32)

Espaço Universidade 02-04-2016 16:08
Por Redação
O futebol é o futebol e as outras modalidades são o que são. E a Federação Portuguesa de Futebol, sem verbas públicas, sem crédito bancário, sem desvios orçamentais e sem dinheiros públicos, para além da cedência dos terrenos do Jamor, conseguiu uma proeza inimaginável há alguns anos e inaugurou a Cidade do Futebol, um centro de estágio de alto gabarito de apoio às seleções nacionais. Os responsáveis estão de parabéns e fazemos votos para que, no futuro, saibam, em benefício do País e dos portugueses, gerir a estrutura que conseguiram pôr de pé.

E o Presidente da República, como refere a comunicação social, na cerimónia de inauguração, defendeu que a Cidade do Futebol “será aceite e apoiada se contribuir para cultivar valores. Porque, deverá ser “um passo inquestionável para o reencontro nacional".

Quer dizer, a Cidade do Futebol não é um fim em si mesmo. Seria um erro profundo considerar a Cidade do Futebol como um fim, na medida em que, como se depreende das palavras do Marcelo Rebelo de Sousa, deve ser um meio ao serviço do País e dos portugueses.

O futebol é o futebol e as outras modalidades são o que são, por isso, também não queiram agora os dirigentes das mais de oitenta modalidades desportivas imitar o futebol. O futebol é uma realidade desportiva, económica, social e política impar. O maior erro que os dirigentes desportivos podem fazer é pretenderem imitar o futebol; é desejarem ser como o futebol; é tentarem absorver a sua cultura e os seus procedimentos. Porque, depois, como não conseguem ser aquilo que o futebol é, entregam-se ao desânimo e, geralmente, o lamento mais à mão com que expressam o seu desalento elege a comunicação social como “bode expiatório”. E dizem: “Quando ganhamos uma medalha num campeonato do Mundo ou da Europa “A Bola” nada diz na primeira página. Reserva-nos umas linhas no fundo do jornal. Coitadinhos de nós”. Contudo, antes de arranjarem “bodes expiatórios”, deviam compreender que cada desporto tem as suas características técnicas, a sua cultura e um quadro condicionante que deve ser considerado na medida em que determina as condições positivas e negativas relativas ao desenvolvimento da modalidade. Se não compreenderem isto não há Bola que os salve.

Por isso, quando o jornal satírico “Inimigo Público” com o seu habitual “humor sarcástico”, diz que “enquanto os jogadores da Seleção Nacional estagiarão na Cidade do Futebol, os praticantes de desportos amadores podem estagiar num bairro social ao lado onde a polícia se recusa a entrar” está, tão só, à sua maneira, a chamar a atenção para a “camisa-de-onze-varas” em que os dirigentes políticos e desportivos estão metidos, se não encontrarem solução para que as restantes modalidades desportivas não passem a ser uma espécie de subúrbios do futebol, se é que já não são, ou o “desporto para todos” não passe a ser uma espécie de subúrbio do Programa de Preparação Olímpica, se é que já não o é.

Há erros que vêm do passado recente que urge serem corrigidos. Quiseram transformar o Desporto Federado (que era o motor do desenvolvimento) na “galinha dos ovos de ouro” das medalhas olímpicas e colocaram o desenvolvimento do desporto num “beco sem saída”. Se os praticantes de elites são fundamentais para a visibilidade do desporto, sem praticantes de base não existe desenvolvimento que absorva aquela visibilidade. E quando assim acontece a comunicação social não presta a mínima atenção. E faz bem na medida em que ela não é uma espécie de “bodo aos pobres”.

Entre as medidas que vêm do passado que mais estragos está a causar ao desporto, porque estruturante e sistémica é, certamente, a instituída a partir de 2004/2005 em que, à revelia do Movimento Desportivo se alterou uma lógica de desenvolvimento do desporto nacional que funcionava a partir da competência técnica das Federações Desportivas e a capacidade operacional dos Clubes. Em alternativa, numa lógica de desenvolvimento do desporto sem qualquer racionalidade desportiva e económica, em prejuízo dos Clubes tradicionais e sem que as Federações Desportivas alguma vez tivessem sido consultadas, foi desencadeado um processo sustentado na institucionalização por todo o País de Centros de Alto Rendimento de dedicação exclusiva (hoje, o número aproxima-se de 30) e, concomitantemente, a fim de tirar partido dessa medida, foram atribuídos milhões de euros ao Comité Olímpico de Portugal (COP) que, em publicação no Diário da República, se comprometeu a ganhar umas quantas medalhas olímpicas. A partir de então, o COP, cuja missão é promover a educação olímpica e a preservação dos seus valores, passou a cumprir funções que tradicionalmente competiam às Federações Desportivas no domínio do alto rendimento e a substituir a Administração Pública no processo de controlo das atividades desenvolvidas. A fim de suportar e estimular este modelo de desenvolvimento, entre outros aspetos, foi alterada a legislação que confere prémios pecuniários aos atletas em que os atribuídos aos campeões olímpicos passaram a ser de um montante superior ao usufruído pelos campeões mundiais o que, do ponto de vista da “cosmética desportiva” pode ter alguma lógica mas, do ponto de vista desportivo, não passa de uma aberração.

A partir de então, os responsáveis pelo atual modelo de desenvolvimento, sustentado no rendimento desportivo tendo em vista a conquista de medalhas olímpicas, proclamaram o desporto como um “desígnio nacional”, quer dizer, uma espécie de “cereja no topo do bolo”.

Agora, numa visão holística do fenómeno desportivo, o Presidente da República, relativamente à “Cidade do Futebol”, veio chamar a atenção para o facto de que “os portugueses apenas compreenderão a nova realidade se ela tiver mesmo como função servir Portugal. Para um País que não é rico, esta Cidade do Futebol será apreciada e apoiada se contribuir para cultivar os valores do País”, se for uma “ponte entre o mundo rural e o citadino, como forma de diálogo interclassista, como modo de lazer e como elemento de agregação nacional”. Nem mais…

Ora bem, o que depreende das palavras do Presidente da República é que o futebol, enquanto desporto que é, deve estar serviço do País e não o contrário. Até porque, à semelhança daquilo que se passava nos países da esfera de influência da União Soviética, especialmente na RDA, transformar o desporto num desígnio nacional não contribui em nada, antes pelo contrário, para o “diálogo interclassista” preconizado pelo Presidente da República. Recordo que, imediatamente antes da queda do Muro de Berlim”, podiam ver-se nas manifestações cartazes que diziam “abaixo os privilégios dos artistas e dos desportistas”. Assim sendo, o desporto enquanto “desígnio nacional” só pode servir para criar clivagens sociais entre os portugueses.

Por isso, seria muito bom e útil que o plano estratégico para o desporto, anunciado pelo Secretário de Estado da Juventude e Desporto - João Wengorovius Meneses, a partir das palavras do Presidente da República, desencadeasse uma verdadeira “nova agenda para o desporto” prometida pelo Partido Socialista no próprio Programa de Governo, abandonando o famigerado modelo de desenvolvimento do desporto instituído em 2004/2005, contranatura, pelos governos (PSD/CDS) e, em alternativa, colocasse o desporto efetivamente ao serviço do País e da generalidade dos portugueses, sobretudo dos mais desfavorecidos, através da reanimação e responsabilização das verdadeiras células e órgãos que suportam o desenvolvimento do desporto que são, respetivamente, os Clubes e as Federações Desportivas.

O futebol é o futebol e as outras modalidades são o que são. Os Clubes e as Federações Desportivas não podem ser transformados numa espécie de subúrbio do desporto. O importante é que se deixem de inventar desígnios bacocos e sejam capazes de enquadrar o desporto num projeto inquestionável de reencontro nacional.

Gustavo Pires é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana
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