É preciso passar da religião à fé (artigo de Manuel Sérgio, 133)

Ética no Desporto 29-03-2016 16:04
Por Manuel Sérgio
O terrorismo islamita, vem atacando, com ferocidade, a Europa, designadamente a França e a Bélgica (a Bélgica onde se situa o coração da Europa). Não surpreende que a Bélgica seja o país da União Europeia onde os terroristas mais se movimentam. Em linguagem militar, é na capital belga o “quartel-general” desta gente, em território europeu.

Os atentados de 13 de Novembro de 2015, em Paris, foram pensados e planeados em Bruxelas; agora, em 22 de Março de 2016, foi mesmo em Bruxelas, onde habita uma ampla comunidade muçulmana, que o Estado Islâmico atacou, feriu e matou. Que o ISIS é o principal responsável pela islamofobia, que cresce na Europa toda, não deverá surpreender-nos também. De facto, o ISIS dá do Islão uma ideia que me recuso classificar. Eu não acredito no Islão, mas acredito em muitos dos que acreditam no Islão. E que, pela sua generosidade, pela sua bondade, pelo seu amor, muito poderão contribuir ao aperfeiçoamento da minha fé em Deus. Para mim (não sei se vou dizer uma tremenda asneira) as religiões tendem a separar e a fé a unir. É pela fé no Deus de Abraão, Isaac e Jacob e não por dogmas inamovíveis, que um muçulmano e um cristão podem orar em comum. De facto, trata-se de uma problemática cercada de dúvidas, o que me parece absolutamente normal. O Infinito, pensado por um ente finito, nunca se pode justificar. A falta de uma evidência objetiva dificulta o nosso conhecimento de Deus, seja o Deus do Islão, seja o Deus do cristiamismo. E só pela Razão Deus surge como um estranho de que se pode prescindir. Os “mestres da suspeita” assim o provam. Feuerbach, Marx, Nietzsche, Freud, Bloch, sendo tão diferentes uns dos outros, têm uma ideia em comum: são ateus e de um ateismo total e radical. Para Karl Marx (e não me refiro aos outros) a Religião, o Estado, o Direito das nossas sociedades são superestruturas do modo de produção capitalista e, assim, ao serviço (unicamente ao serviço) da classe dominante (cfr. os Manuscritos Económico-Filosóficos, de 1844)...

Todos estes filósofos podem fazer sua a célebre afirmação de Nietzsche: Deus morreu! Aliás, Nietzsche faz do anúncio da morte de Deus o maior acontecimento dos tempos modernos. Todavia, a pergunta por Deus continua,na História, tão viva e angustiante, como em tempos idos. Vivemos um mundo que se fez e programou, como se Deus não existisse. De acordo (assim se diz) com os preceitos e as normas da Razão. E os gestos secos e terminantes dos políticos e os racicínios dos economistas, com o corte e a precisão das fórmulas matemáticas e a oratória sóbria dos filósofos – nem dão, nem acrescentam felicidade. Depois de satisfeitas todas as necessidades materiais e intelectuais, de ordem individual e social, mesmo de forma indefinida, a pergunta por Deus não se extingue, os grandes motivos para viver não se apagam nunca. É mais fácil passar sem sexo do que sem motivos para viver! A psiquiatria assim o confirma! Albert Camus salienta n`O Mito de Sísifo que “só há um problema filosófico verdadeiramente importante: o suicídio. Julgar se a vida vale a pena ser vivida é responder ao principal problema da filosofia”. Só com a Razão não se entende Deus, nem o próprio homem se entende, ou melhor: a ciência e a filosofia, atuais, não os entendem. Demais, “o que o nosso tempo nos revela, se quisermos olhar com atenção, é que o modelo civilizacional que adoptámos não tem já condições de existência. As ideologias deixaram de responder às perguntas que, tantas vezes no meio da maior agonia, continuam a ser formuladas” (António Alçada Baptista, Peregrinação Interior, Vol. II, pp. 25/26). E, mais adiante, diz o mesmo autor:”A verdade é que há uma espiritualidade crescente, que se desenvolve à margem dos velhos deuses, uma sofreguidão de espírito que revela como, conscientes ou não, todos estamos famintos” (p. 29).

Nem tudo se explica nesta vida. O Cristiano Ronaldo talvez possa explicar-se, mas o Messi é bem dificil. Acontecia o mesmo com o Garrincha. Nelson Rodrigues, no seu livro À sombra das chuteiras imortais (Companhia das Letras, São Paulo, 1993) descreve assim o mistério que o Garrincha era, referindo-se a um Botafogo 2 – Fluminense 1: “Ontem, só houve em campo um nome, uma figura, um show – Garrincha. Os outros três campeões do mundo também lá estavam. Mas Didi, Zagalo e Nilton Santos pertencem à miserável condição humana. São mortais e suscetíveis de todas as contingências da carne e da alma. Jogaram por conta da firma e por um dever contratual. Estavam exaustos e no extremo limite de suas resistências emocionais e atléticas. Garrincha, não. Garrincha está acima do bem e do mal. O problema da forma física e técnica não existe para ele, nunca existiu (…). O futebol era nesta terra um esporte passional. O torcedor já entrava em campo, vociferando: Mata! Esfola! Ontem, porém, no Botafogo x Fluminense, sentiu-se uma curiosa reação: Garrincha trazia para o futebol uma alegria inédita. Quando ele apanhava a bola e dava o seu baile, a multidão ria, simplesmente isto: ria e com uma saúde, uma felicidade sem igual (…). Foi-se assistir a um jogo e viu-se Garrincha. No fim, já as duas torcidas queriam apenas que o Garrincha apanhasse a bola e começasse a fazer as suas delirantes fantasias (…). E no entanto vejam vocês: porque não o entendiam, chamavam este homem de retardado! Só agora começamos a fazer-lhe justiça e a perceber a sua superioridade (…). Garrincha não pensa. Tudo nele se resolve pelo instinto, pelo jato puro e irresistível do instinto. E, por isso mesmo, chega sempre antes, sempre na frente, porque jamais o raciocínio do adversário do adversário terá a velocidade genial do seu instinto” (pp. 62/63).

Garrincha não pensava. E Messi pensa? Como Garrincha, Messi joga o que é – que é muito mais que pensamento! O Iniesta vê-se que pensa, todo o jogo do Barcelona está em si. O Neymar e o Suarez são jogadores de extraordinária classe..O Messi, não! O Messi é um mistério que não parece caber numa compreensão racional logicamente elaborada. Há nele, com toda a certeza (embora verdadeiramente só ele o saiba) aquilo a que Rahner chama “experiência transcendental”. Messi não é um problema que possa compreender-se, é um acontecimento que só pode descrever-se. Por isso, diante dele, como diante do Garrincha, o clubismo doentio esvai-se, desaparece. Não há adversários, porque os espectadores todos contemplam uma realidade superior à simples competição. Também, diante de Deus, não há lugar só para o quadriculado de uma religião, mas para o espaço infinito da fé, onde o cristianismo e o islamismo se encontram integrais e superados.

Manuel Sérgio é professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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