Benfica: morte ou glória? (artigo de José Antunes de Sousa, 39)

Espaço Universidade 24-03-2016 16:47
Por José Antunes de Sousa
Mal foi conhecido o veredicto das famosas bolas que há quem afirme à boca cheia que apresentam oportunas oscilações de humor – umas «calorosas», outras mais frias, senão mesmo ásperas – um sentimento unânime varreu as hostes do clube da altiva águia: só nos resta rezar para não sermos esmagados pelos tanques germânicos.

Pois é: mas uma tal reacção nem sequer é um pedido de clemência, mas, antes, uma sentença de morte: já que é certa a morte que, pelo menos, possamos morrer com o menos sofrimento possível – e como se Deus a quem se reza fosse esse ser caprichoso e piegas que se deixa impressionar e comover com a nossa gritaria!

Que o Bayern é física e economicamente mais forte? Sem dúvida. Mas, atenção, que pode muito bem não sê-lo na crença! Mas, sendo, à luz de todas as evidências, mais forte, isso que prova? Uma coisa apenas: que tem mais probabilidades de vencer o seu antagonista mais fraco – a não ser que este se não considere como tal!

Nestas circunstâncias, impõe-se-nos sempre, com a contundência de um penhasco, o exemplo proverbial do famoso episódio bíblico de David, minorca, que consegue derrubar o gigante Golias – com crença e imprevistas doses de astúcia e manha!

Mas o Benfica tem na sua própria história um luminoso e mágico exemplo – de que, criando como realmente criamos a nossa própria realidade, nós e o nosso mundo são, nem mais nem menos que o resultado das nossas próprias escolhas.

Em Maio de 1961, aquando do embarque da equipa no aeroporto da Portela com destino a Berna, quando o repórter da RTP, o saudoso José Amadeu de Freitas, perguntou a Bella Gutman «e o Barcelona, que pensa do adversário?» - como dizendo que chances acha que tem uma equipa como o Benfica contra um colosso que acaba de eliminar, na semi-final, o todo-poderoso Real Madrid, o crónico e abusivo conquistador de tão almejado troféu, eis que a resposta surgiu, pronta como um repuxo, da boca do desconcertante mago húngaro: «não nos preocupa o Barcelona, só pensamos em nós e no nosso valor». Alguém que revolva os arquivos da RTP e faça o favor de mostrar ao Rui Vitória este exemplo de lucidez e ousadia criativa.

Sim, o Benfica, após uma razia movida pelos ventos da surpresa, quando deu por si estava imprevistamente às portas da glória: e que fez, então? Decidiu entrar, sem medo, como alguém que entra em sua própria casa – como o viria a fazer, uns anos mais tarde, o Futebol Clube do Porto, quando, em 1987, no Praterstadion de Viena de Áustria, venceu precisamente o mesmo adversário que agora tanto temor e pânico parece inspirar – e aquele golo de calcanhar, quase de desdém, do mágico argelino, Madjer, é bem a metáfora do estado de familiaridade mental com a glória que a equipa portista tão impressivamente exibiu! Sim, que a dificuldade e o drama está todo e só nisto: que alguém que se sabe, mais, se sente pobre e como tal se vê e experiencia, possa achar-se com direito a participar no banquete dos ricos.

Também agora, com alguma surpresa, eis que o Benfica está, uma vez mais, a bater à porta da glória - e duas atitudes pode adoptar: ou, hirto e paralisado por um temor de regelar, um invernoso calafrio, bate levemente à porta e, cego pelo tremor, nem repara em quem lhe abre aporta - «desculpe, que me enganei no número da porta, não é esta a morada» - e certamente que não será mesmo, que o céu exige a coragem decisiva de nele se acreditar. Quando na cabeça se leva um tugúrio, não se consegue enxergar a sumptuosidade do palácio que se mostra. Ou, a outra atitude, a do exemplo do Gutmann e FCP: chegado ao umbral do palácio dos convivas da glória, abre resolutamente a porta e entra com o desembaraço convicto do comensal – sim, que para se aceder à glória é preciso que nos habituemos ao seu cenário.

Permitam-me uma breve e despretensiosa anotação – sem que, com isso, queira apontar o único caminho, pois que o ser humano é demasiado complexo para poder ser metido «na caixa» de uma definitiva explicação. O famoso «modelo de interferência» poderia, por exemplo, vir ainda em nossa ajuda, mas é preferível, neste contexto jornalístico, dispensar os seus serviços, não vá aumentar a confusão no espírito de quem tão generosamente nos lê.

Contentemo-nos com o seguinte: não há dúvida que nós somos memória dos nossos fiascos – mas também das experiências bem sucedidas, de nossas vitórias, que criam, ao seu modo, sulcos e trilhos neuroquímicos no nosso cérebro. E, nessa medida, estamos, a cada momento, confrontados com o que, na Psicologia, se conhece como a «inibição cruzada», sempre divididos entre a insidiosa memória do gostoso que é, por tantas vezes o ter sido, o cozido e a sugestão dietética de uma substanciosa e saudável salada - e a equação dilemática das nossas escolhas pode paralisar-nos.
Só vislumbro um caminho para romper e superar o impasse – dar um passo em frente: atravessar «o rubicão» da dúvida e do acanhamento, instaurando, com isso, novos trilhos de felicidade – até dela nos tornarmos íntimos.

Por favor, não vejam nisto presunção, mas tenho uma certeza: o Benfica tem realmente hipóteses. Como? Se real e sentidamente acreditar que pode – sem se deixar minar pelo intimidante cálculo das probabilidades – é salutar ignorá-lo, como David ou Bella Gutman. E foi, muito provavelmente o que terá acontecido também com aquele famoso «cantinho do Morais»!

O Benfica se escolher sentir a emoção de ter ganho ganhará. Se escolher a via cautelosa, amedrontada e pelintra de uma qualquer aritmética exploração das escassas possibilidades, perderá – inapelavelmente.

Mas, atenção, e que fique bem claro: porque isso foi a sua escolha!
Oxalá o Benfica escolha ser feliz!

Braília; 25 de Março de 2016

José Antunes de Sousa é Doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, Professor Visitante na Universidade de Brasília e Professor Convidado na Universidade Pedro de Valdívia, no Chile.
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