Formação: em série ou a sério? (artigo de José Antunes de Sousa, 37)

Espaço Universidade 12-03-2016 09:44
Por José Antunes de Sousa
Se quisermos ser rigorosos, e convém mesmo que o sejamos em matéria tão delicada, temos que a esta tão propalada formação – a prosósito de tudo se fala nela – tentar, antes do mais, arranjar-lhe uma morada – como a ética: convém que se implante em terreno firme! Nome de tão necessária morada: educação, enquanto arte de permitir que cada um seja o que está chamado a ser – e aqui se envolve o conceito de vocação, que nos meios mais laicos leva o nome de talento, «queda», ou, mais prosaicamente, jeito para qualquer actividade.

Primeiro, facilitar a busca emocionada de uma felicidade que se exprime ao ritmo da própria respiração – sim, educar para a felicidade é tudo o que à escola se pede! – e, na sequência de uma expressividade gestual e performativa, facultar a essa criança ou jovem que dê forma expressa ao que dentro do seu coração o enforma – eis a formação! Ela segue na peugada de um genuíno impulso criativo e não a partir de fora, de uma imposição paternal ou escolar – social. Assim no desporto e no futebol, em particular.

Sim, anda por aí meio-mundo a encher a boca com ela, se calhar por nela verem o «ovo de colombo», a solução óbvia e mágica para todas as desventuras de um futebol, capturado pela usura internacional e convertido em produto pornográfico – e seguramente mercantilista – oferecido a um povo alvar e ávido de emoções, geradas na zona a baixo do umbigo, por uns safados, rubicundos, mas sem réstia do único rubor que se imporia – o da vergonha: eles apoderaram-se, com a eficácia súbita de um David Coperfield, de uns tantos clubes que, a troco de um desafogo em dólares e da nem sempre correspondente refulgência em títulos – mas com o aceno de estrelas de intermitente brilho – abdicaram mansamente da sua alma.

Ora, face a este circuito de inflacção de preços, arrogância e despudor, uma espécie de condomínio dos ricos, para os outros, cada vez mais atirados para a periferia das favelas, a única forma de escapar à fatalidade da extinção é, acreditam, apostar na miraculosa receita da formação. Mas, que formação? Que o seja realmente – e não apenas formatação. Que se previlegie a liberdade da rua e do descampado em vez do aperto constrangedor da forja e do alinhamento acanhado e uniformizante da folha de excel.

Que todos os recursos didácticos e pedagógicos sejam mobilizados no sentido de um crucial objectivo – o de facilitar a genuína expressão do sublime ofício infantil de criar, que, antes do mais e acima de tudo, o jovem possa brincar com a bola: no dia em que a «redondinha» se torne utensílio obrigatório de um trabalho duro e penoso, nesse dia ter-se-á iniciado o trágico processo de deformação!

Formar futuros jogadores talentosos não se consegue imitando a produção industrial da alheira de Mirandela – não é cedendo à lógica do chouriço, em que se mete numa extremidade do tubo-forma uma massa feita dos diferentes ingredientes para sair, na outra, o produto final, esmerado, mas todos com o mesmo formato e com o mesmo sabor!

Há uns anos, a convite de responsáveis, visitei, com agrado e proveito, as Academias do Sporting e do Benfica, ambas na margem-sul do Tejo – e bem sabemos como persiste uma sibilina conotação negativa associada à margem esquerda, a ideia de que se trabalha na esquerda para encher a barriga aos que vivem na direita. Trabalha-se no duro no Seixal, por exemplo, para apresentar os frutos no mercado de Valência, La Coruña ou Madrid e, se ainda sobrar algo de jeito, talvez ainda se aproveite, mesmo que seja por pouco tempo, no mercado da Luz.

Aviso: também mora na margem-sul, por sinal bastante perto da Caixa Futebol Campus, uma das empresas modelo a laborar em Portugal, a Auto Europa. Com uma abissal diferença: enquanto o desígnio desta é produzir, formar em série, às academias (incluindo, claro, o Olival, que não conheço) cabe formar a sério! É, convenhamos, uma vertiginosa diferença: numa a linha-de-montagem, nas academias o desalinhamento criativo dos diferentes talentos!

Que é preciso repetir gestos? Sim. Que é preciso integrar modelos e um que outro estereótipo? Claro. Que é necessário que os jovens se habituem ao respeito pelas regras e por uma certa disciplina tecnico-táctica? De acordo. Mas nada disso é a verdadeira matéria-prima do prato que se quer apresentar – é apenas o condimento. Estes importantes aspectos são o tempero contextual da expressão criativa dos jovens.

Não se forma para servir um sistema, mas é este que adopta flexíveis formas para que a forma de jogador possa emergir natural e expressiva. Porque, afinal, constatamo-lo a cada passo: quando as coisas estão pretas, o sistema é atirado às malvas, porque soou a hora de o génio individual resolver. Sempre que é necessário um golpe-de-asa, o sistema, tão útil para o empate ou para as vitórias tangenciais, fica fora das quatro linhas!

Formar servos de um sistema, autómatos, é formatar, é desumanizar – é, enfim, condenar à inexpressividade, à irrelevância, à mediocridade – saem, prontinhos, trabalhadores da bola, mas não verdadeiramente jogadores. Saem elos de uma máquina, mas não maquinistas – robôs, de movimentos entranhados, à força de tanto repetir, num cérebro diligente, mas sem arrojo nem audácia criativa.

Porque, meus amigos, só se forma a sério, brincando, pois nada há de mais sério do que a brincadeira – para todos, mesmo para os adultos!
Deixem-nos, pois, ferver bem na cozedura do génio que cada um transporta, deitem-lhe, entretanto, uma pitada de sal e pimenta, talvez um pouco de colorau, do sistema – para que fique bem apurado!
E teremos um produto genuino, de primeira - a saber a Homem!

Brasília; 12 de Março de 2016

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília
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