Diego Simeone: o grande motivador (artigo de José Antunes de Sousa, 35)

Espaço Universidade 28-02-2016 00:33
Por José Antunes de Sousa
Deixem-me, caros amigos, começar com uma importante advertência, uma ressalva: escrevo estas linhas nas horas que antecedem o flamejante e rijo “derby” madrileno “Real-Atlético” – e, claro, faço-o desconhecendo em absoluto o resultado de tão escaldante desafio. Mas, seja ele qual for, em nada afectará o que aqui se afirma: Diego Simeone é, hoje por hoje, o mais entusiasmante exemplo de líder verdadeiramente motivador no actual panorama do futebol mundial.

Se repararmos bem, ele encarna o avesso do clássico percurso de alguns dos mais afamados treinadores da actualidade: ele tornou grande o clube (através da sua equipa) e não, ao invés, se tornou grande por grande ser o clube em que passou a servir. Ele foi – e continua a ser – a mais-valia de um conjunto, engraçado, mas perfeitamente normal, de jogadores, sem que nele desponte, destacada, uma verdadeira estrela.

Ele é o carisma que se dá – que carisma é graça! – exuberante e inteiro, a um grupo de seguidores incondicionais: «com Simeone, vamos até à morte», afirmou há escassas horas um dos mais esforçados e laboriosos jogadores da equipa, Godin.

Ele vive-se jogando, apesar de retido na zona técnica ou no banco – ele é o treinador que encarna, com paixão e desvelo, o jogo de cada um: ele multiplica-se, desdobra-se para ser inteiro na arte de se dar a todos por igual: dele não consta que tome um qualquer jogador de ponta, pois sabe que, ao fazê-lo, está a colocar uma «maçã podre» no cabaz – e todo o grupo sai inevitavelmente afectado.

Mourinho, só para ilustrar com um exemplo, parece pelar-se por uma boa briga – Simeone dispensa-a, porque não é exógena a sua motivação, mas endógena, ou seja, ele funciona a partir de uma íntima conformidade, ao contrário do que parece acontecer com o nosso compatriota que dá a impressão de só se sentir verdadeiramente confortável enquanto desafiado, mesmo que pela sombra, de um inimigo, ainda que este nem sempre eleito com o mais apurado critério – sobretudo se for interno esse inimigo pode ser fatal. Sobretudo se um tal inimigo tem na sua posse a mala dos primeiros socorros e o analgésico para as dores.

E se, ainda por cima, for mulher – e, vejam só, com o paradigmático nome de Eva – as coisas podem tornar-se dramáticas, catastróficas mesmo: que o diga o próprio Adão! Sejamos claros e honestos, uma mulher tem sempre uma forma letal de se vingar: a maçã leva sempre a dose certa de veneno.
O próprio soro antiofídico – para as mordeduras – é feito do próprio veneno da cobra, ou seja, para levar a melhor sobre uma mulher que intencionalmente tenhamos pisado, só tomando, em dose benigna, o seu próprio veneno – que jogar abertamente contra não dá! Hostilizar de frente uma mulher é hipotecar, de forma grosseiramente inadvertida, a própria sobrevivência.

Sim, há lideranças de treinadores, mas também de dirigentes, que parecem alimentar-se da imagem, induzida e dicotómica, de um inimigo – têm horror do que julgam ser o vácuo da bonança. O que não parece ser o caso de Simeone: não o vejo envolvido em lutas tribais, nem entretido com «jogos florais». Vejo-o, antes, sempre hirto, elegantemente acomodado dentro de um traje negro que lhe empresta um tom de uma certa gravidade litúrgica - como se estivesse participando numa cerimónia religiosa em que comunga o próprio sangue místico da Iinstituição, assim sacralizada, sempre muito integrado intencionalmente no cinetismo sincronizado da sua equipa – enfim, sempre muito em jogo, como se reverberasse em si o tropel de emoções de cada um dos seus jogadores e da sua equipa, como um todo.

Vejo-o como um ícone, levemente gótico, que combina o recato meditativo com uma leitura apaixonada do jogo – ele é cabeça e coração.
Por isso, o Atlético de Madrid se transubstanciou: tornou-se um grupo unificado pela intenção e paixão e, nessa medida, tounou-se uma equipa muitissimo difícil de bater.

Simeone é exuberante sem, porém, cair na trivialidade, é sério, sem querer dar de si aquele ar postiço de solenidade, é compenetrado sem, em momento algum, dar a sensação de distante – como acontece, por exemplo, com Pellegrini ou até Wenger. Pelo contrário, os seus atletas sentem-no como calorosa e inspiradora presença.

Guti, antigo jogador do Real, acaba de fazer o mais rasgado e insuspeito elogio ao brilhantíssimo trabalho (não conheço melhor) de Diego Simeone à frente dos «colchoneros», ao afirmar que «nenhum jogador do Atlético de Madrid tem lugar na equipa do Real». Ora, nem mais!

Aqui, no Brasil, há um jovem treinador a quem já apelidei de «Simeone brasileiro», mas que, no sprint final da época passada, claudicou ligeiramente e não conseguiu colocar o Internacional de Porto Alegre na Libertadores – Argel, de seu nome. Fica, porém, sob observação.
Tenho uma outra dúvida: chama-se Rui Vitória. Não conhecendo o seu trabalho de campo, não deixa de impressionar o modo como transmite personalidade, confiança e responsabilidade aos jovens talentos transplatados, de um dia para outro, dos campos ribeirinhos do Seixal para o estádio da Luz, verdadeiro palco planetário.

Prometo continuar atento ao trabalho deste treinador que, curioso, apresenta dados contraditórios: não conseguiu ainda ganhar, nesta época, a nenhum dos rivais directos, mas teve a ousadia de ir ganhar ao Vicente Calderón – precisamente a Simeone. Talvez deva incluir no seu cardápio motivacional o mote da maturidade.

Brasília, 27 de Fevereiro de 2016

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília
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