A «matança do borrego» (artigo de José Antunes de Sousa, 33)

Espaço Universidade 14-02-2016 23:23
Por José Antunes de Sousa
Continuamos ingenuamente instalados no equívoco e procedemos como alguém que quisesse montar um eficaz sistema de vigilância das nossas matas no verão, recorrendo aos desempregados e, entre eles, aos que, à socapa, se entretêm a atear-lhes o fogo criminoso do costume. Continuamos, alegre e incautamente, incorrendo na inadvertência campónia de colocar a raposa a tomar conta do galinheiro.

Mas o que em tudo isto mais impressiona é a maneira doce e meiga, quase triunfal, como teimamos em iludir-nos a nós próprios.

Vamos, pois, à história, aliás, bem simples – e banal, de tanto se repetir:

Primeiro foi aquela derrota contra a Sérvia, inchada de orgulho: nós perdemos porque lutámos, qual Don Quixote, contra dois inimigos imbatíveis - o receio de uma Sérvia a quem zelosamente armámos com o poder inexpugnável assente mais que tudo no histérico apoio do seu público e contra o pânico paralisante de, perdendo com os sérvios, irmos cair nas garras sanguinolentas dos espanhois – talvez devesse dizer, antes, castelhanos, pois há nesta designação uma fatal ressonância de lutas e humilhações.

Sim, eis a nossa trágica contradição na nossa histórica relação com Castela – ela é uma relação feita de heroicidade: uma vez por outra, muito excepcionalmente, logramos transcender-nos, isto é, irmos além do que se poderia normalmente esperar das nossas capacidades e lá conseguimos pregar-lhe uma partida: Atoleiros, Aljubarrota, Ameixial, Montes Claros são apenas alguns exemplos das excepções que nos confirmam no nosso papel heróico de resistência. O que nos tem valido e esperamos que nos continue a valer é a nossa pontaria: temos sido ao longo da nossa História bem criteriosos na escolha das partidas que lhe temos pregado!

Na nossa relação com as ameaças há, porém, algo de patológico que nos não larga e que inclusive muito prezamos, como se de uma rara qualidade se tratasse: não nos contentamos, nem somos capazes de lutar contra um adversário ou inimigo de cada vez – juntamos sempre, com angelical zelo, mais uns tantos que nós próprios inventamos. E, claro, assim é muito mais difícil. Dá apenas e quando muito para o mágico da companhia tirar um dos seus coelhos da cartola – como no circo!

É curioso, de facto, verificar que o brilho de Ricardinho (os seus dois golos extra-menú valeram neste Europeu muito mais que toda a rija competição das equipas!), esse brilho individual é inversamente proporcional à prestação global da equipa – parece que esse brilho se alimenta, paradoxalmente, da opacidade, da névoa colectiva: sempre a nossa mania de vivermos de excepções - e isso nos basta!

Mas é a partir dessa aura de brilho, que a si próprio se permite assumir o papel clássico da carpideira: «infelizmente ainda não foi desta que conseguimos matar este borrego». Nem sei se alguma vez o poderemos matar, digo eu, – como, ao fim, de muitos anos aconteceu àquele adepto do Olhanense que, finalmente, com uma equipa onde alhinhava Jorge Jesus, lá conseguiu levar de vencida o Sporting (talvez com a protecção de S. Luis, nome do estádio onde se realizou o famoso jogo que, ao que parece, está na origem de tão curiosa expressão).

Vejamos o que disse o treinador/seleccionador nacional após a derrota com a Sérvia:

«Este jogo (contra a Sérvia) já nada me diz. Agora vamos defrontar a Espanha olhos nos olhos, vamos lutar de igual para igual».
Os meus amigos querem que eu traduza para português corrente? Prefiro fazer jus à inteligência de quem me lê e dispensá-lo de mais um redundadante esforço: apenas ouso lançar-lhe, caro leitor, o seguinte desafio: faça o exercício de colocar este mesmo discurso agora na boca do seleccionador espanhol: não dá, soa mal, a falso – porque quem se crê superior não tem que fazer prova de vida junto de quem percepciona como inferior. «Óbvio, meu Caro Watson»!

Já alguém imaginou o treinador do Benfica, por exemplo, a dizer que está preparado para jogar com o Vianense de olhos nos olhos, lutando contra a garbosa equipa minhota de igual para igual? Não, porque esse discurso denuncia fraqueza, e como tal por todos considerada, e que apenas permite «fazer das tripas coração» para tentar retardar ao máximo o que todos sabem inevitável: a vitória do adversário. Está feita, pois, a tradução das letais palavras do treinador português que, ao proferi-las, e isto é o mais grave, julgou estar a dar um precioso impulso motivacional aos seus atletas.

É este o nosso problema: não nos limitamos a ter medo, que não há quem alguma vez o não tenha tido: nós fazemos dele a nossa morada habitual e permanente! Por isso é que somos excepcionais – de vez em quando, tiramos a cabeça de fora e nos superamos – para logo regressarmos à nossa doce morada cercada de um pátio acanhado. Mas é, paradoxalmente, essa a explicação para a nossa miraculosa sobrevivência como nação: é como tentar agarrar enguias à mão – elas escapam, escorregam sempre! Eis a metáfora aquático-marítima da nossa escorregadia insubmissão!
Mas voltemos aos nosso mágico Ricardinho: ele portou-se como uma autêntico Nuno Álvares Pereira: num clima generalizado de abatimento e de derrota, eis que faz, inesperadamente, uma inqualificável maldade a um jogador representante de Castela, passando-lhe a bola por trás das costas e sobre a cabeça – uma indecorosa «rabeta»! Ele é bem a metáfora genial do nosso proverbial instinto de sobrevivência: nunca permitimos que nos comam a carne toda!

E é com Ricardinhos, Cristianos, Évoras, Telmas ou, mais recentemente, Migueis Oliveira, que vamos, também, iludindo o perímetro de uma cartográfica pequenez a que teimam em condenar-nos.

Enfim, Ricardinho em Belgrado passeando-se como uma enguia por entre um conjunto de castelhanos (nem todos o eram!) – e assim, além dele, também a enguia como metáfora deslizante de Portugal e deste seu singular povo – ou, para os mais gourmet, a lampreia, que sendo parecida com a enguia, desta se distingue por uma importante característica: tem mais sangue!

Brasília; 14 de Fevereiro de 2018

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília
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