Benfica–Porto: não há rendimento sem eficácia (artigo de Manuel Sérgio, 126)

Ética no Desporto 14-02-2016 23:18
Por Manuel Sérgio
Venho dizendo, há um bom par de anos, que as grandes categorias por que se rege o desporto altamente competitivo são: o rendimento, a medida, a competição, o recorde. Ou seja, a quantidade sobre a qualidade. Não basta jogar bonito; não basta tratar a bola, com carícias lânguidas; não basta uma equipa brilhante de estrelas; não basta o domínio “metafísico” de muita posse de bola, sem os golos, por que sofrem e anseiam os adeptos – tudo isto é pouco, sem eficácia, ou seja, sem capacidade de finalização. É que os golos são a razão primeira de um jogo de futebol.

Que os espectadores acariciaram com o olhar o futebol benfiquista, nos jogos com o Atlético de Madrid, o Sporting (por três vezes) e o Porto (por duas vezes), tal era a beleza que os seduzia – quem o duvida? No entanto, o Benfica ainda não ganhou um “clássico”, na presente época desportiva. Porquê? Dizem-me alguns, tendo nos olhos todas as cores da tristeza que lhes vai na alma: “O Benfica anda sem sorte”. Mas é a falta de sorte a única razão destas cinco derrotas? Em Portugal, Benfica, Porto e Sporting fazem um campeonato à parte, pois que as demais equipas ainda não se situam no nível alto dos “três grandes”. E, no campeonato dos “três grandes”, o Benfica vive uma realidade dilacerante: encontra-se no último lugar! Até eu que sou e serei só Belenenses... até ao fim dos meus dias, até eu estranho o fenómeno. Vi jogar os “cinco violinos” (Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano) e o Benfica de Coluna e Eusébio e as duas equipas do Porto-campeão-europeu, treinadas, respetivamente, por Artur Jorge e por José Mourinho. E não tenho qualquer receio em adiantar que foi o Benfica da década de 60 que, na história do nosso futebol, mais seduziu, deslumbrou o mundo todo. Passo a palavra ao historiador Ricardo Serrado: “Na década de 60, o Benfica transforma-se num colosso do futebol mundial, sendo requisitado pelos quatro cantos do mundo, para apadrinhar torneios e jogos contra equipas e seleções de todo o Planeta (…). Esta fama, que ainda hoje persegue o Benfica, é fruto da carreira internacional brilhante, que o clube da Luz atinge na década de 60”.

E continua Ricardo Serrado: “Entre 1961 e 1968, o Benfica conquista duas Taças dos Clubes Campeões Europeus e está presente em 5 finais de 7 possíveis. Ou seja, só por duas vezes, em oito anos, é que o Benfica não está entre as duas melhores equipas da Europa, entre 1961 e 1968” (História do Futebol Português, I volume, Prime Books, 2014, p. 477). Que um véu de grande subjetividade cubra as minhas palavras, é bem possível. Mas, porque ninguém pode acusar-me de um clubismo cego e delirante, repito a minha modesta opinião: o Benfica da década de 60, não teve par, na história do nosso futebol. Do atual “plantel” do Benfica teriam lugar, no “plantel” do Benfica de 60, o Júlio César, o Renato Sanches, o Jonas, o Gaitan e o Sálvio. Tinham lugar... no banco dos suplentes! Porque o Coluna, o Eusébio, o Simões e o José Augusto eram jogadores de exceção (eram e seriam, hoje). Admito que o Júlio César pudesse ser o guarda-redes daquela equipa, onde os melhores ombreavam com os melhores do mundo! Mas só ele – mais ninguém! Sim, já naquele tempo se encontravam jogadores radiantes, indispensáveis, magníficos. O Garrincha, o Pelé, o Di Stéfano, o Puskas, o Didi, o Rivera, o Bobby Charlton e alguns mais (um colar de luzes, tremulando, lá longe). Mas não deixo florir, na minha memória, mais recordações do Passado. Torno ao último Benfica-Porto. Ganhou o Porto. No jornal A Bola (2016/2/13) o escritor e jornalista Vítor Serpa escrevia: “A verdade é que este Benfica esteve longe de poder ser um verdadeiro candidato ao título”. E ainda: “A segunda parte do jogo trouxe-nos um campeão empobrecido, às vezes alheio, outras vezes confuso. A bola só era mesmo redonda, quando passava pelos pés de Jonas (…) ou em escassas ocasiões de Gaitan. Entretanto, Renato Sanches foi perdendo fulgor, Pizzi desaparecia do jogo, Mitroglou apostava tudo no suor e no esforço, a equipa desgastava-se numa teimosia de um futebol de erros repetidos”...

De facto, no jogo que eu vi, pela televisão, o Benfica foi melhor (muito melhor) na primeira parte e o Porto superiorizou-se na etapa complementar. Se as “águias” têm sabido finalizar as situações que criaram, o resultado do jogo teria sido outro. Mas não souberam. Têm portanto agora, que encontrar os motivos por que erraram. Procurar, interrogar, devassar as causas dos seus erros- O brasileiro Bernardinho é um treinador de voleibol de méritos reconhecidos. Os entendidos, nesta modalidade desportiva, colocam-no ao lado dos melhores treinadores de sempre da história do voleibol. Escreveu ele: “Só atletas bem preparados, afeitos à ética do trabalho, mostram-se obstinados o suficiente para superar grandes momentos de frustração, as derrotas mais pesadas, risco inerente à carreira de todos. Gosto de citar um símbolo dessa capacidade de superação, o ex-jogador, atualmente o treinador de futebol, Dunga. Durante quatro anos, entre 1990 e 1994, foi execrado como principal referência de uma suposta geração de perdedores, o time brasileiro mal sucedido na Copa do Mundo, disputada na Itália. Foi assim até se transformar no capitão e líder da equipe tetracampeã mundial, na Copa seguinte. Eu não o conhecia, pessoalmente. Um dia, participámos numa solenidade e lhe disse da minha admiração por alguém que provara tal capacidade de recuperar-se, de superar-se. Ele me contou o que eu já sabia – foi retomar a preparação, com mais afinco: “Não me dei mais o direito de errar, não podia me permitir entrar numa partida e errar um passe, tinha de estar pronto para quando a nova oportunidade chegasse”. Como ele não se descuidara um só instante, pôde agarrá-la brilhantemente. Estava preparado” (Cartas a um Jovem Atleta, Elsevier, Rio de Janeiro, p. 52). Conta ainda o Bernardinho, neste mesmo livro, que ao Óscar, verdadeira lenda do basquetebol brasileiro, tratavam-no por “mão santa”. Ele corrigia: Mão santa, nada; mão treinada” (p- 52)

No último Benfica-Porto, o Benfica não teve sorte? Uma questão ainda: o Benfica não tem sorte nos “clássicos”? Por que será que o Jonas não marca, nos “clássicos”? Tudo isto se resolve, através do treino – e treino com dominância psicológica! O Benfica tem um treinador estudioso e competente, tem o melhor “marcador” do campeonato, tem um presidente solícito e atento, face às dificuldades que a equipa atravessa – nada lhe falta para ultrapassar estas sucessivas derrotas, nos “clássicos”. E vai ultrapassar, após uma séria preparação emocional e mental. Que é (não nos esqueçamos) mais da responsabilidade dos jogadores que do treinador. Não há treinador no mundo que possa controlar, a cem por cento, a vontade dos jogadores. Se eles não quiserem, ninguém pode querer por eles. As instruções do treinador não passam de simples ferramenta que o jogador deve saber utilizar. O treino vai muito além das horas que se passam no campo ou no ginásio. Exige também momentos de reflexão em que o jogador se põe em causa, diante do tribunal da sua consciência. Nas vitórias, são elementos essenciais a inteligência e a vontade de transcendência dos jogadores. A grande revolução a fazer no treino parece-me esta: que os jogadores saibam treinar-se, à luz da sua consciência moral. O grande jogador não é o superdotado tão-só. É, acima do mais, o que quer ganhar! E termino com um abraço fraterno ao José Peseiro e ao Rui Vitória. Ambos foram meus alunos... de filosofia, já que de futebol nada sei para ensinar. Em futebol, são eles os mestres e eu o discípulo. Só que o futebol é mais do que uma atividade física. Quem só sabe de futebol ainda não sabe de futebol. Por isso, só por isso, me atrevo a escrever artigos, como o de hoje.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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