Gaston Bachelard: o novo espírito científico (artigo de Manuel Sérgio, 125)

Ética no Desporto 08-02-2016 17:01
Por Manuel Sérgio
A obra de Gaston Bachelard ocupa, na filosofia das ciências, um lugar marginal e central: marginal porque se afirmou um adversário impiedoso do racionalismo e do positivismo dominantes, no seu tempo; central porque muito do arsenal conceptual de Georges Canguilhem, Louis Althusser, Michel Foucault, Gilbert Durand, François Dagognet, Thomas Kuhn, etc. é subsidiário do pensamento de Gaston Bachelard. Nasceu este epistemólogo, filósofo da ciência e teórico da imaginação, em 1884, em Bar-sur-Aube, na França rural, e faleceu em Paris, em 1962.

Não vou, aqui, repetir o que já se conhece sobre Gaston Bachelard. Principio por 1928, ano da publicação da sua tese de doutoramento, Essai sur la connaissance approchée (Ensaio sobre o conhecimento aproximado) e da sua tese complementar Étude sur l’évolution d’un problème physique, la propagation thermique dans les solides (Estudo sobre a evolução de um problema de física, a propagação térmica nos sólidos), as quais provocaram estrepitosas discussões filosóficas e científicas. Nos anos subsequentes, ele diligenciou conhecer as teorias da relatividade (1905), que, no seu entender, iniciam um novo espírito científico (de salientar que Bachelard publicará, em 1934, um livro com este mesmo nome: le nouvel esprit scientifique). No livro, nota-se a presença de um nome que fornece grande parte da seiva que alimentará a obra de Gaston Bachelard, principalmente a partir de 1938: Nietzsche! “Tudo o que é decisivo só nasce apesar de”: eis aí a frase que Bachelard vai colher a Nietzsche. E acrescenta: “O que é igualmente verdadeiro, tanto no mundo do pensamento, como no mundo da acção. Toda a verdade nova nasce, apesar da evidência, toda a experiência nova nasce, apesar da experiência imediata” (le nouvel esprit scientifique, PUF, Paris, 1964, p. 7).

Em 1930, Bachelard foi nomeado professor de “Filosofia das Ciências”, na Faculdade de Dijon, onde permanecerá dez anos. Durante este período, publicará dois livros (em 1932, l’intuition de l’instant e, em 1936, La dialectique de la durée) declaradamente anti-bergsonianos, pondo em causa a noção de continuidade, em Bergson, e acorrendo em defesa do carácter descontínuo do tempo, já que a imaginação, que compõe o tempo humano, não se confunde com qualquer causalidade. E ainda La formation de l’esprit scientifique (1938) e La psychanalise du feu (1938), procurando criar um mundo, onde cabem e se exprimem à vontade, tanto o ascetismo racional como a imaginação científica, tanto (em termos junguianos) o animus como a anima. De facto, a vertente racional e a da imaginação são necessárias ao progresso científico: aquela, conferindo a este processo uma função lógico-matemática, que se concretiza num método que assegura a objectividade e a quantificação; esta, lembrando que há mais ser, para além da particular explicação do positivismo. Enfim, Gaston Bachelard é simultaneamente um apolíneo e um dionisíaco e não descambando na “via unitiva” dos místicos, porque nele animus e anima constituem duas linhas divergentes, de síntese impossível (cfr.La poétique de la rêverie, PUF, Paris, 1960, p. 51). Em Bachelard, o positivismo permanece. É ele mesmo a dizê-lo: “os três estados, designados por Auguste Comte, continuam a viver, em todas as ciências” (Le rationalisme appliqué, PUF, Paris, 1949, p. 105). E prossegue: « Para nós, que queremos determinar as condições epistemológicas do progresso científico, não nos devemos esquecer nunca das contribuições do positivismo».

No entanto, «é preciso passar pelo positivismo, para superá-lo». Trata-se de afirmar o “caráter psiquicamente fundamental da imaginação criadora” (La terre et les rêveries de la volonté, José Corti, Paris, 1948, p. 87). Dominique Lecourt, no seu livro Bachelard ou le jour et la nuit : un essai de matérialisme dialectique (Grasset & Fasquelle, Paris, 1974, p.142) afirma que Bachelard radica, sem perder a autonomia de pensador notável, o seu alento dionisíaco, em Novalis, Holderlin, Schlegel e no romantismo alemão. Enfim, « nos poetas e nos filósofos que vêem na imaginação, não tanto uma faculdade psicológica, mas a fonte mesma do ser e do pensamento”. Bachelard, porém, foi também leitor de Nietzsche. Na página 24 de L’activité rationaliste de la physique contemporaine, ele vai buscar a Nietzsche a citação seguinte: “Não é senão pela maior força do presente que deve ser interpretado o passado” (PUF, Paris, 1951). Na Introdução, que se compõe de oito secções, precisamente na quinta secção, consagrada à questão da “especialização do pensamento científico”, Nietzsche aparece sob o manto espesso da “vontade de poder”, se bem que, neste caso, do poder sobre o objecto que se estuda, pois que Bachelard não aceita vagos ideais metafísicos, na filosofia das ciências. Ao invés, ele não cessa de exacerbar a condenação daqueles filósofos “que pensam ter capacidade para julgar domínios que pouco frequentam” (op. cit., p. 11). É que, para Bachelard, “as ideias gerais são factor de imobilismo”; ao invés, a especialização científica dinamiza o espírito, na sua totalidade. “Em resumo, a especialização parece-nos preencher a condição que o próprio Nietzsche encontra na essência do trabalho científico, onde se exprime a fé na solidariedade, ao longo desse labor, de modo que cada um possa operar, no lugar que lhe compete, com a consciência de não trabalhar em vão (...). Só há uma paralisia a temer: trabalhar em vão, lutar em vão” (op.cit., p. 14).

Embora recheadas de vitalidade e de energia moral, estas palavras de Bachelard não parecem coincidir com o que se colhe em O crepúsculo dos ídolos (publicado, pela primeira vez, em 1889): “De há dezassete anos a esta parte que eu não esqueço a influência debilitante do cientismo hodierno, sobre o espírito. O duro ilogismo a que a ciência condena hoje as pessoas é uma das razões principais da falta de educação e de educadores às naturezas mais dotadas” (F. Nietzsche, Le crépuscule des idoles, in Oeuvres, trad. fr. H. Albert e Jean Lacoste, t. II, Robert Laffont, Paris, 1983, pp. 986-987). Heidegger (cfr. Nietzsche, Volumes I e II, Gallimard, Paris, 1971), ao invés, opina que a reflexão sobre a ciência deverá realizar-se bem longe das rotinas dos cientistas, as quais obstaculizam o surgimento de um pensamento que se transforme em superação das suas normas habituais de teoria e prática. “Para efectuar uma séria meditação científica sobre a sua própria especialidade, bem é que o investigador das ciências assuma um modo de pensar diferente do que habitualmente pratica, nas suas tarefas científicas” (p. 406). Para Heidegger, Nietzsche é o último metafísico do pensamento ocidental e a vontade de poder o seu pensamento único, em volta do qual ele não deixará de andar. É verdade que só um olhar prevenido perscrutará esta sua motricidade, mas é evidente nele o seu rodopiar ladino. Zaratustra, descomunal e terrificante, passeia desde a alba entre montanhas e fala ao vento, não como um peripatético, mas caminhando em frente, enlaçado ou de mãos dadas com o seu pensamento primeiro. Gaston Bachelard, ao contrário de Heidegger, associou a reflexão sobre a ciência a uma prática científica efectiva.

Ele “critica os termos em que a filosofia se serve das ciências apenas como pretexto para exemplificar as concepções que a razão estabelece por si só (...). É a aplicação aos dados imediatos da experiência que confere credibilidade às construções da razão e permite ao mesmo tempo o seu aperfeiçoamento” (José Luís Brandão da Luz, Introdução à Epistemologia – Conhecimento, Verdade e História, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 2002, pp. 241/242). No entanto, “é a reflexão que dará um sentido ao fenómeno inicial, sugerindo uma sequência orgânica de pesquisas, uma perspectiva racional de experiências. Não podemos ter a priori nenhuma confiança na informação que o dado imediato pretende fornecer-nos” (Gaston Bachelard, A Epistemologia, Edições 70, Lisboa, 1981, p. 17). E continua Bachelard: “Será sacrilégio, por exemplo, pegar num aparelho epistemológico tão maravilhoso, como a categoria kantiana, e desprezar o seu interesse, para a organização do pensamento científico?(...). O espírito pode mudar de metafísica; não pode passar sem metafísica” (op. cit., pp. 27/28). E Bachelard não dá o tema por esgotado. “Em resumo, nem racionalidade vazia, nem empirismo desconexo, eis as duas obrigações filosóficas que fundamentam a estreita e precisa síntese da teoria e da experiência, na física contemporânea. Esta dupla certeza é essencial. Se um dos termos faltar, por melhor que se façam experiências, por melhor que se façam matemáticas, não se participará na actividade científica da ciência física contemporânea” (op. cit., p. 121). Faz falta uma leitura séria de Bachelard a muitos “agentes do Desporto” (a muitos “agentes do futebol”). Há treinadores de futebol que vivem, unicamente, na sua profissão, do que aprenderam no seu tempo de jogadores profissionais de futebol. E há licenciados e doutores em Desporto que julgam, convictamente, que lhes basta o que aprenderam nos livros.

Ora, quem não pratica, não sabe; e quem só pratica, repete. Prática e teoria deverão encontrar-se, em trabalho interdisciplinar. Sem deixar de reconhecer que, socialmente, a prática é mais importante do que a teoria e a teoria só tem valor, se for a teoria de uma determinada prática. No entanto, na originalidade da complexidade humana, toda a prática supõe uma certa teoria e até uma certa filosofia. E termino, com uma interrogação: e se os “práticos” estudassem um pouco mais e os “teóricos” praticassem, de quando em vez? Se me permitem uma nótula de carácter pessoal, acrescento ainda: como se sabe, sou um teórico. Mas sempre senti a falta, nas minhas modestas investigações, do contributo da prática. Por generosidade dos Srs. Luís Filipe Vieira e Jorge Jesus fui adjunto do treinador de futebol, durante uma época desportiva, do S.L.Benfica. E eu, que sou um estudioso (de estudo diário) do desporto (e portanto do futebol) reconheço hoje que, sem o que aprendi nos treinos do Jorge Jesus, havia demasiada especulação metafísica no que eu sabia de futebol. E defendo, hoje, um paradigma organizador do futebol, com uma ousadia que não a tinha, antes dos treinos-lições de Jorge Jesus, no Seixal. E por aqui me fico, que já vai longa a minha “charla” de hoje. O novo espírito científico é incompatível com uma teoria sem prática ou uma prática sem teoria.

Manuel Sérgio é Professor catedrático da Faculdade de Motricidade Humana e Provedor para a Ética no Desporto
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