Injustiça e solidão (artigo de José Antunes de Sousa, 32)

Espaço Universidade 08-02-2016 16:57
Por José Antunes de Sousa
Estes são termos correntemente associados ao moderno fenómeno da exclusão, àquilo a que o Papa Francisco tem vindo a chamar a «política do descarte» que, por sua vez, traduz o inquietante fenómeno da «globalização da indiferença», como se nos estivéssemos todos cada vez mais nas tintas para a irrelevância humana de um cada vez maior número de seres humanos como nós! Daí o grito franciscano do maior líder espiritual, essse missionário deste nosso tempo da inadvertência: «é urgente sair ao encontro das periferias!» - que as há de vários tipos, umas mais dolorosas do que outras.

E no futebol também as há. Ainda há poucos dias chamava eu à atenção, neste mesmo espaço, para o fenómeno dos «mochileiros», esses clubes cada vez mais marginais do opíparo banquete de uns tantos – os mesmos de sempre!

Mas, dentro de um encontro de futebol há personagens em relação aos quais há uma certa injustiça na avaliação do público – e uma certa solidão. Um deles fica esquecido, cá atrás, entre dois postes – sim, a função do guarda-redes constitui, a seu modo, uma certa periferia do próprio jogo: só in extremis se lhe dispensa alguma e breve atenção – ou quando evita um golo iminente ou quando se mostra impotemte para o evitar. E é esta situação deveras paradoxal, pois a ele cabe a guarda do que, no terreno de jogo, é o espaço mais decisvo - a baliza.

Vejamos:

No contexto de uma certa metáfora antropológica, do tipo bélico (Desmond Morris), a baliza simboliza, de forma impressiva e dramática, o «terreno decisivo», aquele que, em linguagem militar, uma vez ocupado, materializa a vitória.

No plano militar, o objectivo crucial da acção defensiva (de notar que a baliza en inglês é goal, como o é o acto da sua violação, como acontece no Brasil: à baliza chamam gol, como gol chamam ao resultado vitorioso da sua violação – curioso!) acção defensiva, dizia, que pode assumir a modalidade de «acção retardadora» (ceder terreno, ganhando tempo) ou a de «defesa de posição», o seu objectivo crucial é, sem dúvida, garantir a preservação e inviolabilidade do «terreno decisivo», aquele que simbolicamente representa a soberania – uma vez perdido, nada mais há a fazer: vae victis!

Numa ressonância mais ancestral, como a que é apresentada pelo referido antropólogo britânico e grande admirador do nosso Cristiano (talvez pelo seu ar insaciável de caçador em busca de sua presa), esse sistema defensivo é concitado e simbolizado na solitária figura da fêmea que, zelosa e heroicamente, se empenha em acolher, no anguloso e côncavo perímetro das suas ancas, os filhotes, protegendo-os das flechas dos caçadores (leia-se dos avançados da equipa adversária). Significativo e curioso: nos países latinoamericanos de língua castelhana ao guarda-redes designam-no justamente por «el arquero».

Se pelo lado mais explicitamente militar o guarda-redes (goleiro: que guarda o gol e sofre o gol!), sobretudo no futebol, remete para o paradigma da solitária e crucial atenção do sentinela que, noite fora, é o garante da segurança do quartel ou acampamento, nesta outra versão, mais primitiva e certamente mais romântica, ele representa a mãe-fêmea que, na sua devotada entrega à segurança das suas crias, adquire, nesse seu desvelo da função de mãe, uma certa conotação feminina, com tudo o que isso sugere de humanidade e ternura: o guarda-redes é, nessa medida, o lado maternal, solitário, silencioso, devocional da refrega rija e ruidosa que um jogo de futebol naturalmente envolve.

Pode até dizer-se, nesse sentido, que o órgão sexual feminino, a vagina, que é, duplamente porta de entrada para o indispensável parceiro na construção da vida e porta de saída da nova vida já constituída, ela é sinal paradoxal de desejo e decepção: os homens, por exemplo, desejam-no instintiva e ardentemente, mas muitos o temem (quantos traumas a reclamar a atenção do piscanalista!) na medida em que tão incontidamente o desejam – têm medo de falhar: como o avançado sózinho em frente da baliza adversária e que fica perturbado com o volume do corpo, subita e miraculosamente agigantado, imenso, de quem, como a mãe desvelada, ocupa toda a baliza, isto é, preenche todos os espaços por onde pudesse ocorrer a violação.

Mas, o guarda-redes é como a nossa mãe ainda por uma outra razão: trabalha e é decisivo esse seu trabalho, mas ninguém lhe dá valor, a começar pelo Estado – mas isso é uma outra conversa! É como no jogo: primeira página e louvores a rodos para um Isaías ou para um Jonas, para dar bons nomes de um profetismo bíblico, ou para o guarda-redes que se aventura à frente e faz o golo da vitória – como Rogério Ceni ou, como era o caso de Chilabert. Mas todos os golos que evita na sua própria baliza não são mais do que aquilo que dele se espera – igual que a clássica desvalorização do papel doméstico da guardiã da família, a mãe.
Por isso, me comovo ao escrever estas linhas: os guarda-redes são a expressão mais terna do lado humano do jogo – lado humano tantas vezes esquecido!

Certo é que quase tods eles exibem, cada um a seu modo, a solidão altiva dos gatos – e, pelo modo assanhado e felino com que se lançava às bolas, um houve que ficou até conhecido pelo Zé Gato (José Henrique)!.
Mas, voltando ainda à metáfora da segurança: o guardião, assim é muitas vezes designado, «el portero», em Espanha, é o mal-amado do jogo: ninguém lhe liga, mas para ele se viram todos quando surge o aperto – como lá no prédio: o guarda-redes é sobretudo um guarda-nocturno, lunar, que raramente aparece á luz do sol – que o brilho do dia é mais para outros protagonistas. Mas quando a nossa casa é, in extremis, salva de um iminente assalto, é então que, por momentos concedemos resgatar o esquecido porteiro de uma pastosa solidão e lhe permitimos uns fugazes lampejos de glória.

Creio mesmo que talvez pudesse constituir interessante e surpreendente tema para tese académica uma avaliativa peregrinação pelo mundo dos antigos guarda-redes: desde a maneira como, com a misteriosa ajuda de um providencial acidente de viação, Júlio Iglésias escapou a um apagado destino de uma irrelevância desportiva e se lançou numa refulgente carreira musical, passando pelo pungente e hediondo episódio homicida do antigo «goleiro» do Flamengo, o Bruno, condenado, em 2013, a 22 anos de prisão, até ao mais dramático desfecho suicida do saudoso Robert Enke – tudo casos que, no mínimo e cada um a seu modo, nos fazem pensar numa espécie de «periferia existencial». Quem sabe se não foram impelidos por um trejeito de fuga a um destino de apagamnto e de penumbra, quem sabe!

Pois é: vivemos num tempo pós-moderno da «permormatividade», no dizer de Jean-François Lyotard, uma espécie de neo-pragmatismo em que só o resultado tem categoria ontologicamente relevante: funciona, é tudo! É aquilo a que Gaston Bachelard chamou a era da «fenomenotécnica», apenas daquilo que reluz para logo se apagar.

Por isso, se calhar, se apreciava tanto os aroubos exóticos do guarda-redes colombiano René Iguita ou os trajes extravagantes do mexicano Jorge Campos! Quem, porém, se lembra deles?

Pois é: sic transit gloria mundi!

Brasília, 7 de Fevereiro de 2016

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília
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