«Olhos de lince» - (artigo de José Antunes de Sousa, 30)

Espaço Universidade 25-01-2016 16:27
Por José Antunes de Sousa
Alguém se lembrou de usá-la talvez, sei lá, a propósito de um certo estado de inebriamento, daqueles em que as palavras parecem sobrar – e eis que a mística, termo mais adequado e afecto ao âmbito da agiografia, sofre um entorse semântuco e entra em força no linguajar desportivo. (Uso entorse no masculino porque escrevo desde o Brasil e em homenagem ao grande linguista brasileiro Houaiss).

E, se repararmos bem, também o ténis parece ter a sua mística: aquele silêncio, quase religioso, nas bancadas, fazendo ressaltar o matraquear, mais ou menos compassado, das raquetadas e essa espécie de êxtase de baloiço com aquele rodar de pescoços e cabeças, à uma, ora para um ora para outro lado, em sintonia com a troca de bolas entre os dois ou quatro jogadores – quando são quatro tudo é mais rápido e fulminante.

Trata-se de um êxtase litânico, que resulta da melódica repetição desse mantra litúrgico de um jogo admirável – como o que se apodera do monge que, mergulhado num letárgico estado criativo, repete as ave-marias do Rosário.

Tudo belo, sem dúvida: o que não se suspeitava é que tudo isso pudesse estar a ser encenado por detrás do biombo por uns tipos, de óculos escuros para iludir a tortuosidade do olhar e hábeis na arte de manipular marionetas.

O testemunho do tenista chileno (aposto que não é o Fernando Gonzalez) e a confissão de tentativa de suborno feita pelo nosso tenista, creio que foi o Gastão Elias, são elementos bem reveladores do estado a que isto chegou: esses profissionais da sabotagem apostam num mínimo que dê para aos jovens lhes alimentar, ainda que tangencialmente, o sonho de seguirem jogando em palcos de primeira, ou seja, os que arrecadam somas loucas em apostas fabricadas, com cartas marcadas, vão arregimentando os seus vassalos, dóceis de uma sobrevivência, ali, no limiar da opacidade – e certamente da indignidade! Eis mais uma versão dos modernos escravos da obscena e insaciável volúpia de um lucro predador.

O desporto, melhor, este desporto foi decaindo até se tornar na actual versão degradada do jogo: ele reflecte os vícios do nosso maquavelismo social. Nós temos este deporto porque os vícios da civilização ocidental tomaram de assalto e capturaram o elemento «pré-cultural», como assinala Huizinga,, o jogo – essa constante antropológica e que tão expressiva e genuinamente nos investe de humanidade.

No jogo, a criança, que se entretém a colocar as pedras aqui e ali, como refere Heraclito num dos seus Fragmentos, joga-se inteira no empenho de ganhar. Porque a luta sincera pela vitória é constitutiva do próprio jogo: quando entra a batota já jogo não é – é teatro, pior, é palhaçada. Neste desporto, porém, os adultos parecem empenhar-se na patética simulação de perder – a brincar. E brincando com a nossa cara!

E perante tão chocantes revelações que nos mostram até onde pode ir a imaginação humana ao serviço da «virtú» do maquiavélico «Príncipe», ecoa ainda réstia mortiça do vieirino apelo aos caminhos da moral e dos bons costumes ou interpela-nos o eco da voz rouca, trémula e angustiada de Paulo VI naquele dia 13 de Maio de 1967 em Fátima: «Homens, sede Homens!»

Em gutural gritaria, ali no Pelourinho, local de vingança e de justiça rápida, toda a minha gente grita por ela: Ética, haja moral! Sim, todos a reclamar medidas de moralização – como devolver em retroactivos as subvenções vitalicias dos políticos, esses iluninados condutores do povo – por isso estamos tão bem encaminhados!

Mas, que medidas? Se calhar, como aquelas que foram ultimamente introduzidas no futebol, a do árbitro da linha de baliza e a daquele spray que o árbitro traz à cintura, como se fosse o protector solar na praia da Manta Rôta. Ambas as medidas exibem a mesma inefável particularidade: são candidamente inúteis!

Então, que fazer? Talvez nada, a não ser tentar aumentar a capacidade de visão do «olho de falcão» que tira as dúvidas sobre se a bola foi fora ou dentro. Eu tenho uma sugestão ainda mais radical: aquele equipamento óptico, a que puseram o nome de «olhos de lince» que integra as viaturas blindadas de reconhecimento de alguns exércitos: iluminam o campo de batalha e, se for preciso, metralham-no com notável poder de fogo. Sim, quer-me parecer que isto não vai lá só com olho, é preciso dedo – no gatilho!

Entretanto, eu fico na minha: já só acredito naqueles jogos entre solteiros e casados aos domingos pela manhã, a ver quem paga o almoço no restaurante em Porto Brandão. Ou no jogo entre as turmas do quarto ano lá no colégio do nosso miúdo.

Porque – e como é doloroso reconhecê-lo! – afinal, o rei deste nosso desporto vai nu.
Apesar da farpela com que tenta disfarçar essa obscena nudez!
Eu, assim, nesta nossa cultura do fingimento, não jogo!

Brasília, 25 de Janeiro de 2016

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília
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