Os mochileiros (artigo de José Antunes de Sousa, 29)

Espaço Universidade 19-01-2016 15:33
Por José Antunes de Sousa
Há dias, na cidade chilena de Chillan aonde me deslocara para ministrar, na prestigiada universidade Pedro de Valdívia, dois módulos integrados num curso de Magister de Motricidade Humana, sintomática e justamente com o nome de Manuel Sérgio, uma cidade tranquila, eométrica, de prédios rasos por causa dos sismos e considerada, sobretudo pelos locais, como «la cuna de la Pátria», isto é o berço da Pátria, por lá ter visto nascer um dos seus filhos dilectos e libertador do instável mas amado solo chileno do jugo imperial, Bernardo O`Hoigins Riquelme (1778-1842), tive um improvável encontro – com um jovem casal de portugueses, dali da zona de Coimbra, e que a tão exótica paragem aportaram em consequência do movimento, cada vez mais de jovens, cuja principal característica é a sua disponibilidade para bisbilhotar o novo e que, com meia-dúzia de trapos e um telemóvel, por via da incrível invenção do WhatsApp, convertido em planetário room chat, dentro de uma vulgar mochila, se fazem ao mundo: eles comprazem-se sinceramente em ver mundo, que, diga-se, é a melhor maneira de mais mundo criar: uma aplicação no telemóvel, com as dimensões do mundo contraídas à distância de uma breve mensagem e ei-los prontos para a odisseia. E, ao ouvir o seu homérico relato, todo feito de aventura, incerteza e de radicalidade – mas sobretudo de uma indisfarçável felicidade -, eu corei de vergonha.

Sim, onde dormem? Quando e onde calha, mas há sempre um amigo nas paragens demandadas que está nesta desarmante rede destes novos navegadores e conquistadores que proporciona, a título de uma reciprocidade garantida, guarida e um caldo quente para sossegar as tripas – e, quando falta o dinheiro, eles metem mãos ao trabalho em qualquer coisa, seja no campo a vindimar ou a apanhar fruta, seja num qualquer restaurante a lavar a louça ou a descascar batatas: restabelecidas as finanças de sobrevivência, ei-los de novo de mochilas às costas a caminho de novo destino, prontos para outro desafio. E foi assim que aqueles jovens portugueses, ali, não muito longe das terras de «Magallanes», haviam percorrido já o imenso Brasil, a Argentina e demandavam agora o sonho, na esteira épica de Fernão de Magalhães, de palmilhar a parte chilena da Patagónia.

E, perante tanta disponibilidade para o risco e para a criatividade, eu corei de embaraço, admiração e vergonha, sentimentos algo contraditórios – afinal eu estava instalado no melhor hotel da cidade, a desenvolver um trabalho seguro e razoavelmente bem pago numa universidade: tudo certinho e à medida dos meus temores e do meu prevenido cálculo. E corei por sentir que, afinal, faço parte dos instalados, que se aburguesam baixo a umbela da segurança da conta bancária, ou do quanto ela nos garante de protecção – ou julgamos que garante. Enquanto isso, eis que cresce como um silencioso tsunami uma nova geração de geonautas, andarilhos festivos de um mundo à mão-de- semear dos seus ousados sonhos: eles são os viajantes holísticos de um novo mundo!

E no meio deste meu abalo, em terra tão a eles habituada, dei comigo a pensar como o futebol, esse «fenómeno moderno de maior magia» (Manuel Sérgio), precisa, como o resto das coisas humanas, urgentemente de ser sacudido por um corajoso e imparável movimento de desinstalação – alguém que nele espalhe o «desassossego».

Os grandes, os senhores, estão narcisicamente instalados numa ilusória e olímpica certeza de um poder que a cintilância evanescente do dinheiro lhes proporciona – eles, como eu em Chillan, estão instalados no melhor hotel, como se fosse uma fortaleza inexpugnável, enquanto os outros, os pequenos, os parceiros de segunda, aqueles de que se servem como figurantes de circunstância na grande farsa, na obscena encenação do poder esmagador dos mesmos de sempre (acabaram-se os out-siders, na lista dos vencedores das grandes provas europeias e mundiais!) apanham as migalhas que sobram – tudo isto desde que foram tomados e, de algum modo, capturados pelo dinheiro sem piedade dos grandes magnatas:

eles dividem entre si a cronologia da glória – mas sempre à custa dos peões de serviço que ajudam à festa para prover à míngua em que definham, mas na vã ilusão de confirmarem o milagre quotidiano de uma penosa e sobressaltada sobrevivência, encurralados que estão entre a iminência da extinção e a redução ao mínimo de uma pálida dignidade que se esvai: eles cedem e deixam-se utilizar como se fossem palhaços que se contorcem de riso para disfarçar a fome que os mirra, nesta gigantesca farsa de um futebol cujo inegável fascínio não cessa de declinar – até ao perigoso limiar de uma indiferença que espreita. E apanhados pelos vapores deste ébrio banquete, os nossos chamados grandes esquecem-se que a sua grandeza histórica é insuficiente para comover o coração duro do clube dos petrodólares, muito pouco dado ao romantismo. Os nossos grandes esquecem-se que não é a grandeza dos dólares a sua e armam-se em grandes também, ainda que exibindo, aqui e ali, tiques de uma atávica pequenez.

Inspirado no exemplo dos mochileiros de Chillan, sugiro uma liga, não dos últimos, mas uma liga dos outros, dos que não têm dinheiro para o hotel e se fazem ao caminho, armados de um bem incomensuravelmente mais estimável: a fé e a disponibilidade para o novo.

Deixem-se da vã ilusão da segurança do hotel, que os prédios altos são os que primeiro sucumbem à fúria destrutiva dos abalos sísmicos – e vem aí abalo forte que vai reduzir a escombros este ufano edifício de um capitalismo sem ética, que se rende ao absoluto do cifrão, mas que ignora o o homem – absolutamente. E sinais de alerta é coisa que não falta: o último chama-se BANIF.

Portugal, ao longo da sua história, sempre deu provas de uma singular plasticidade inventiva: que nos valha o nosso proverbial desembaraço, o famoso «desenrascanço» e inventemos uma fórmula solidária para a nossa colectiva convivência (como o fizemos com a via verde, o bacalhau, o Banco de Horas ou a Santa Casa de Misericórdia) – unificados na certeza de um destino comum. E que o futebol, por que não, possa dar um exemplo pioneiro de democratização do talento e do sonho.

Ah, e um conselho aos nossos grandes, ao Benfica, Sporting e Porto: comprem, quanto antes, uma mochila!

José Antunes de Sousa é doutorado em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa e Professor Visitante na Universidade de Brasília
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